24 agosto, 2016

La Coruña: disputa de gigantes


Na esquina entre o Cantábrico e o Atlântico, uma mítica torre é disputada por Hércules e Breogán, numa batalha eterna sem vencedores ou vencidos. Existe apenas um soberano: o mar


























Um  mar imenso, esmagador, que domina a paisagem e atrai o nosso olhar uma e outra vez, ali na costa mais a norte da Península Ibérica, numa cidade que tem uma torre no seu escudo.

Não é uma torre qualquer, mas o farol romano mais antigo do mundo a funcionar, luz da Galiza e património da Humanidade, rodeado por um parque de esculturas delicioso e lendas mirabolantes, que se destaca num dos mais longos passeios marítimos da Europa.

Uns dizem que a Torre foi erguida pelo celta Breogán, o mítico colonizador da Irlanda. Conta o Livro das Invasões que o seu filho dali vislumbrou, pela primeira vez, a verdejante costa irlandesa, o que levou o Povo de Mil em busca daquelas terras [ainda que a inclinação do globo torne a lenda improvável].

O rei Alfonso X, na sua Estoria de Espanna, narra outra versão, com uma intenção claramente política de ligar Hércules  à monarquia espanhola.  A estória contada com minúcias de fabulista diz que o herói grego chegou à Corunha logo após cumprir um dos seus 12 trabalhos: cortar a cabeça ao gigantíssimo e tiraníssimo Gerião. A cabeça do polvo, pois de um molusco se tratava, terá sido enterrada naquela ponta da Ibéria.

Outros trabalhos chamaram Hércules, que ali deixou o seu sobrinho Hispán como senhor da cidade, a quem coube terminar a torre com um fogo que nunca se apagava.





Vá. A única certeza é que este farol é romano, foi projetado por um arquiteto de Coimbra no século I por ordem do imperador, para ajudar os navegantes nesta costa bravia e rochosa.

Conquistamos esta torre de Hércules, de Breogán, mas sobretudo dos galegos, incluindo Picasso que aqui passou a sua infância e a baptizou de "torre de caramelo", vencendo os 232 degraus. Do topo, abre-se-nos o olhos de mar e céu, tudo numa imensidão azul, enquanto pequenas formigas humanas cruzam os trilhos aos pés do farol, atraídos por uma bela Rosa dos Ventos.


Nosce te ipsum

Os amigos e leitores conhecem bem a minha paixão por zonas históricas mas, na Corunha, é a costa que nos atrai ao longo de vários quilómetros. Do curto passeio ao coração da cidade vos falarei noutro episódio, porque temos outra paragem obrigatória no passeio marítimo: o Domus. A Casa.

O edifício de pedra parece a vela de um navio, ali em frente ao mar, pronto a zarpar. O japonês Arata Isozaki [aparentemente um dos maiores arquitetos da atualidade] desenhou este que é o primeiro museu interativo dedicado ao ser humano, inspirado no aforismo de Platão nosce te ipsum, "conhece-te a ti mesmo". Sem um acervo esmagador, o espaço é sobretudo inesperado, com dezenas de jogos e experiências. 


O homem mais alto de que há registo era americano e media 2,72 metros
quando morreu, com apenas 22 anos.



Há ali vida, pode até sentir-se o pontapé de um bebé numa barriga sintética, assistir ao vídeo de um parto ["que nojo", foi a expressão crua do meu filho, ao assistir, pela primeira vez ao milagre da vida] e entrar num coração gigante de madeira, onde as batidas reverberam sonoras às nossa volta. Há também morte, como bem recorda o esqueleto azul na posição d’ O Pensador de Rodin.

Há ali evolução: podemos tirar uma foto com os primos neanderthal, erectus e australopiteco. Há ali genética, como nos prova uma Mona Lisa gigante criada a partir de 10 mil rostos humanos, todos eles diferentes, apesar de partilharmos 99,8% dos genes hereditários [chamam-lhe a Gioconda Sapiens!!!]. Há ali inteligência e até vemos um cérebro humano dentro de um frasco.

Um espaço divertido para famílias. E não é que saímos mais conhecedores de nós mesmos?


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Site da Torre de Hércules: aqui
Bilhete: 3€ (adulto) | 1,5€ (criança)

Site do Domus - Museu do Homem: aqui
Bilhete: 2€ (adulto) | 1€ (criança)


















25 julho, 2016

Dizem que são bodas de estanho


Creio que foi o sorriso, o sorriso foi quem abriu a porta, diria Eugénio de Andrade. Uns anos depois, um outro poema, que também falava de sorrisos, foi impresso num convite de casamento.

A cidade dos meus afectos estava festiva, iluminada, para as festas gualterianas, quando os convidados chegaram, de todos os pontos do país, para festejar connosco um dia muito feliz. Partíamos pouco depois para uma dulcíssima lua-de-mel, na terra dos faraós. E, num piscar de olhos, passaram-se dez anos!

Não eras um viajante, quando nos conhecemos. Fôramos a Sevilha apenas, num verão escaldante, quando os termómetros marcavam temperaturas estratosféricas, os bombeiros suavam as estopinhas para combaterem os incêndios, eu ainda usava mini saia e carregava um livro para onde quer fosse. A bela praça de Espanha estava em obras, mas a Giralda velava a cidade banhada pelo Guadalquivir.

Julgo que algo mudou no Egipto, porque é um país que não deixa ninguém indiferente ou simplesmente porque a felicidade que se nos impregnou na pele, no dia do casamento, ainda fazia a sua magia. "É um privilégio estar aqui", repetiste várias vezes, quando entraste numa pirâmide, quando enfrentaste a máscara de ouro do Tutankhamon, ou quando humedeceste, pequenino, perante o grande templo de Abu Simbel.



Já éramos três, quando abraçamos a grande aventura transatlântica. Foi com um misto de expectativa e ansiedade que chegamos, de armas e bagagens, ao Brasil, onde reaprendemos rotinas e o Pedrinho ganhou um sotaque delicioso. "Mamãe, cadê você?", procurava, enquanto eu reprimia o impulso de o corrigir. Mas o destino tinha outros planos para nós e a nossa vida no estado de S. Paulo acabou por ser um sopro.

Ao longo desta década crescemos, aprendemos um com o outro, e tu definiste-te como viajante. Se eu prefiro destinos históricos, tu és perdido por grandes metrópoles.

Eu vibrei com Roma e as suas belas chiesas, os museus a transbordarem de Michangelos e as piazzas cheias de arte, os anjos de Bernini e o majestoso Moisés. Assim como adorei a China mais tradicional. Já a ti, foi necessário arrastar-te de Londres, do Piccadilly Circus e do chá das cinco, dos concertos de rua e do Covent Garden. Nada que se compare ao que sentiste em Liverpool, apesar de tudo, quem sabe porque te arrastei para demasiados museus na terra dos Beatles.



O trabalho levou-te até outro continente. Uma terra que mal conheces, por excesso de trabalho, pela insegurança que sentes à tua volta mas também porque Angola não mexe com o teu sangue. Acredito que se nunca fôssemos passar o Natal aí, não visitarias o Museu da Escravatura, a ilha do Mussulo ou o Parque do Quiçama. Mas continuas a sonhar com Nova Iorque.

Entretanto criamos um menino maravilhoso, curioso, um pequeno explorador que absorve o mundo que o rodeia. Ainda não sabemos se vai gostar mais de países ultramodernos ou se partirá, de mochila às costas, para a selva amazónica. Por enquanto, quer conhecer tudo.

Destes dez anos maravilhosos apenas descrevo as deambulações, porque os sentimentos expressam-se em privado. Estás pronto para mais uma década?




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Nota: Ao passarem com o rato por cima das fotos, descobrem um link para a campanha de upgrade de lugares que a TAP está a realizar até ao fim do mês