20 setembro, 2016

O humor da Coruña




Um sorriso rasga-se-nos na face ao descobrirmos, por acidente, a praceta mais divertida da Corunha, a dois passos do centro histórico. A Praza del Humor (em galego), que fica muito perto do mercado de San Agustín e se chamou outrora Praça dos ovos, recebe-nos com uma série de pedestais em bronze, todos eles dotados de monumentais narizes aduncos.

Dizem que o nariz não serve literariamente para nada, a não ser atrapalhar, para ser metido onde não é chamado, para ser assoado como um trombone ou meter berlindes lá dentro. Que um autor titubeante destrói um projecto literário no momento de descrever um nariz e, por isso, o prudente Homero se escusou a tal desafio, sendo por isso que o calcanhar de Aquiles ficou na história, mas não o seu nariz.

Mas na escultura, o nariz não sofre estigmas, pode ser justamente destacado, pode mesmo ser exagerado sem pudores. Assim o entendeu o autor dos bustos da Praça do Humor, atribuindo pronunciadas pencas a três gigantes do humor galego: Julio Camba, Wenceslao Fernández Flórez e Vicente Risco.








Não que os senhores façam parte do meu conhecimento enciclopédico, mas o Ayuntamiento assim o diz e eu vou acreditar por dois motivos. Primeiro, provavelmente outros autores não humorísticos ficariam aborrecidos por serem assim caricaturados. Segundo, quem gastaria dinheiro homenageando gente aborrecida numa praça dedicada à arte do riso?

Adiante. Num piso superior, outros dois génios do humor [os autores Alfonso Castelao e Álvaro Cunqueiro] repousam resfastelados em bancos de granito, um em frente ao outro. Estarão a jogar ao sério!? O Pedro senta-se com um deles, numa amena cavaqueira, enquanto eu percorro o piso de mármore, apontando célebres personagens com as quais cresci.

Ali está a imortal Mafalda de Quino, a Pantera Rosa, Mortadelo y Filemón, partilhando democraticamente o espaço com grandes autores. Lewis Carrol cumprimenta o pequeno Charlie Brown, enquanto Jonathan Swift joga às cartas com Jardiel Poncela e o Cantiflas se exibe perante um grupo de disneyrianos.






No meio da praça, o corno do Gatipedro** continua a jorrar água, indiferente ao rebuliço que o rodeia. Parece que, há uns anos, desapareceu misteriosamente, provavelmente pelas mãos de um sarcástico brincalhão.

O humor da Corunha acompanha-nos noutros pontos da cidade. Na Torre de Hércules, somos surpreendidos por uma personagem que parece ter saltado das páginas de uma BD, igualmente detentora de um generoso nariz [começo a ver aqui um padrão]. Como sou muito perguntadora, fico a saber que está relacionada com a exposição patente no mais antigo farol do mundo ainda em funcionamento (tudo sobre a Torre de Hércules aqui). Resta saber porque carrega uma sandes monumental...

A mostra faz parte do Viñetas desde el Atlántico, um festival internacional de banda desenhada que a cidade organiza desde 1998 e que perdemos por um par de dias. O palácio municipal também entrou no espírito, plantando os irredutíveis gauleses Astérix e Obélix à sua porta.

Os portugueses estão bem precisados de uma terapia intensiva de riso, não vos parece? Talvez possam aprender com os vizinhos galegos.




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**O Gatipedro é uma personagem de Álvaro Cunqueiro. Trata-se de um gato branco com um corno na cabeça de onde jorra água. À noite, o gato malandro visita meninos adormecidos, molhando-lhes os pés para que façam xixi na cama...


11 setembro, 2016

O coração velho da Coruña





Adentramos na zona histórica da Corunha, que o turismo local descreve como "um romântico remanso de tranquilidade dentro da moderna e agitada urbe" e que pulsa forte na Praça María Pita. Estranho seria se o edifício do Ayuntamiento não estivesse numa praça monumental de traçado geométrico, como em todas as outras cidades espanholas dignas desse nome.

A heroína María Pita vela, em bronze, sobre a multidão de turistas e habitantes. O monumento tem a seus pés uma chama que simboliza a liberdade, aludindo ao seu papel durante o cerco inglês do século XVI.

Reza a história que os ingleses tomaram de assalto a cidade velha em 1589, liderados por Sir Francis Drake. Quando a muralha cedeu e tudo parecia perdido, a valente senhora matou o alferes que carregava a bandeira inimiga, gritando em galego "quen teña honra, que me siga". O episódio terminou com a retirada da tropa invasora e a ascensão da María Pita ao panteão dos heróis, onde mora também a nossa portuguesíssima padeira de Aljubarrota.

A galega não ficou esquecida nas brumas da memória como prova a praça, o monumento, assim como a casa museu e mesmo o Airbus A340 da Iberia que carregam o seu nome. O episódio é lembrado num outro recanto da cidade - o Adro do Silêncio, que antecede o Convento de S. Domingos.




Este é o adro dos silencios. O adro máis alto da cidade alta.
Escoitade o vento rifando nas árbores e o lento camiñar das procesións. Sentide a teoloxía dominicana e os rezos e os votos à Virxe do Rosario. Apreixade a arte barroca, monumental e altiva, e a auga silente deste adral.

Ouvide o paso marcial de cando Drake queimara o vello granito. Abrazade o voo das aves que bos axexan.
Entre as Bárbaras e San Carlos tedes labrada aos vosos pés a cidade abeirada polo mar que debala ao voso carón e a memoria de nós que está nos vellos farois e nas cunchas do chan. E na luz que aquí é morna e amiga. O voso tempo é agora o voso espazo, esta praciña anegada de paz da que sodes señores e habitantes únicos.
Cando vos sentedes aquí, aloumiñados pola luz gráxil e o vento queixoso da cidade, aniñará en vós a dozura solemne da xente que pasea e a historia sempre louca que paira en cada recuncho.




Escusado será dizer que repousamos longamente nesta pequena praça, embalados pelo som de uma fonte que serviu para enganar o estio. Como resistir à doçura destas palavras, como que sussurradas, propositadamente para nós?

Dali descemos novamente até à orla marítima [porque o mar nunca está muito longe], com as suas belas galerias galegas: as varandas em vidro e madeira, para proteger as casas tanto do sol como do vento invernoso, começaram por ser usadas pelos pescadores, mas popularizaram-se de tal forma que hoje as temos como uma encantadora marca arquitetónica da Galiza. Felizmente há tradições que resistem à voracidade dos tempos modernos!

E é isto. Antes de nos aventurarmos na Costa da Morte, fica prometido um último episódio sobre esta Corunha deliciosa. Sem tanta tardança como os últimos posts!



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Rota da cidade velha aqui