O Abissínio, de Jean-Christophe Rufin

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Quando a Europa ainda buscava conhecer o outro para o dominar, uma comitiva foi enviada à Abissínia (atual Etiópia), em nome do rei de França, Luís XIV. Mais do que dar a conhecer todo o esplendor do seu reinado, ou provar a supremacia da cultura europeia, o Rei-Sol pretendia restabelecer laços comerciais e a fé católica na Abissínia.

Por ironia do destino ou da própria História, o emissário escolhido, Jean-Baptiste Poncet, médico sem diploma, jovem aventureiro, apaixona-se por este país misterioso, pelas suas gentes altivas, aprende a respeitar o Negus da Etiópia e tudo faz para desencorajar o ímpeto expansionista francês.

Nesta bela narrativa, Jean-Christophe Rufin excita-nos os sentidos com descrições detalhadas e sentimo-nos transportados para aqueles horizontes com sicômoros de dez pés de diâmetro, urzeiras e zambujeiros, que acolhem cotovias, gaios e picanços verdes.

"Toda aquela massa de rochedos e árvores, como uma vaga marítima que vem morrer numa praia de areia, ondulava, rolava e corria em cascata até à extensão cinza do deserto que agora avistavam ali do cimo. Ao longe, umas tantas palmeiras desordenadas e a mancha branca de alguns campos cultivados pareciam ter sido arremessados como espuma pela vaga vegetal, ao sabor da ressaca".

Para além disso, o autor pinta as personagens com traços tão vívidos, que nos parecem velhos conhecidos: Hadji Ali (o oportunista condutor de camelos), Murad (o simpático balofo), padre de Brèvedent (o fanático jesuíta), senhor de Maillet (o cônsul forreta) e o seu fiel secretário, o senhor Macé, que compensa as suas falhas de higiene pessoal com uma dedicação total, sem esquecer a bela Alix e o majestoso Negus.

Escolhi esta obra para estrear o blog sobre leituras e viagens (que li, pela primeira vez, em 2005) pela sua escrita magistral mas, e sobretudo, por causa da exímia habilidade do autor de nos colocar dentro dos cenários, ou seja, de nos fazer sonhar.

Portanto, hoje sonho com horizontes africanos.

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2 comentários

  1. Adorei. E vou ser uma fiel seguidora! Ou não fosse eu, há 3 anos 'mãe' de um! :-) Beijo grande

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  2. Bem vida à blogosfera minha querida! Adorei o texto. Beijos enormes

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!