Um "chope" na Califórnia brasileira

by - 10:49



Estamos no interior paulista, numa cidade que foi sendo conhecida como Capital do Café, Califórnia brasileira, Capital do Chope e hoje se tenta “vender” como Capital do Agronegócio. Aqui morou um dos pais da aviação – Santos Dumont – em pleno século XIX, quando a exploração cafeeira estava no seu auge. A Anhanguera encurta os cerca de 300 quilómetros que a separam de S. Paulo, a capital estadual, mas existe também um aeroporto, ainda que exíguo para o fluxo de passageiros (mais de um milhão, no ano passado). Bem-vindos a Ribeirão Preto!

Ribeirão será o tema central dos próximos posts. Sem querer ser exaustiva, tentarei dar a conhecer várias faces desta simpática cidade onde fui mais do que uma simples turista. Afinal, permaneci ali por dez meses!

Um dos pontos turísticos de Ribeirão Preto:
a Catedral Metropolitana de S. Sebastião


O dia começa cedo, em Ribeirão. As aulas começam por volta das 7h30 e é também pela fresca da manhã - a meio do dia, as temperaturas podem facilmente ultrapassar os 40° C - que os parques e os boulevards se enchem de pessoas que se exercitam ou passeiam os cães. Na zona nobre, a sul, todos parecem ter aderido à moda do cachorrinho pequeno, que se leva ao pet shop uma vez por semana e daí volta cheio de lacinhos. As famílias mais endinheiradas pagam para que lhes passeiem o bicho de estimação: alguns dias a fazer o mesmo percurso e ficamos a conhecer os dog sitters.
No Parque Municipal Dr. Luís Carlos Raya (o meu preferido para a caminhada matinal) ou no Parque Prefeito Luiz Roberto Jábali (conhecido como “Curupira”) encontramos pessoas de todas as idades a correr, a caminhar, algumas delas acompanhadas pelo seu personal trainer. Em alguns dias da semana, pouco depois do sol nascer, vêem-se grupos de amigos a praticar tai-chi ou a meditar. Ao domingo de manhã, um quarteirão inteiro é cortado ao trânsito para dar lugar às bicicletas e o percurso é bastante procurado.


Se é domingo, sugiro o pequeno-almoço na Casa dos Pães Fiúsa: sumo de laranja e pão na chapa. O espaço não é muito grande mas é amplo e com muita luz e, ao domingo, tem sempre música ao vivo, por vezes com o meu amado saxofone. O sol, ainda não muito quente, os passarinhos que invadem o salão para debicar as migalhas, o som de What a wonderful world ou a Garota de Ipanema… tudo parece realmente perfeito nesta manhã em que a Avenida Professor João Fiúsa está mais despida de carros.

A Avenida Prof. João Fiúsa, na zona sul da cidade.

Com pouco mais de 600 mil habitantes, Ribeirão é considerada uma cidade pequena, pelo menos à escala brasileira, sendo no entanto uma das mais ricas do estado, o que terá contribuído para o epíteto de Califórnia brasileira. A prosperidade da região surgiu a par da exploração de gado, foi cimentada com as plantações de café e hoje mantém-se à custa da produção de cana-de-açúcar. Na época da “safra”, os trabalhadores chegam às centenas, de todos os pontos do país.

A malha urbana, pejada de prédios muito, muito, altos e um ritmo de construção alucinante desmente que esta seja uma mera cidadezinha rural. De fato, Ribeirão Preto apresenta-se como uma cidade desenvolvida, com muito comércio, uma oferta cultural razoável, restaurantes e animação noturna q.b. – Água Doce cachaçaria, Maria Cachaça Bar, O Epicurista








 

 

 

 

Sai um chope gelado

Porquê Capital do chope? Bem, o gato curioso é ressuscitado pela satisfação de um chope gelado. Literalmente gelado. No Pinguim, a choperia mais famosa da cidade, a cerveja sai a uma temperatura que varia entre 1° e 1,5° e chega à mesa no máximo a 4°. Para além da temperatura, o sucesso do chope reside num “colarinho” cremoso, que demora a evaporar, e que depende da técnica do garçon de tirar a cerveja do barril.

O Pinguim é um dos cartões de visita da cidade.
O Pinguim nasceu em 1936, consequência óbvia da criação da fábrica de cerveja Antarctica (cujo símbolo é um pinguim) na cidade. A fama do chope foi crescendo até se tornar uma âncora turística ribeirãopretana, com direito a merchandising registado. As especulações acerca do sabor especial da sua cerveja multiplicaram-se, houve quem imaginasse um tubo subterrâneo desde a fábrica, a poucos quarteirões, pelo que o chope sairia diretamente da fonte.




 

Ao lado, um dos edifícios mais bonitos de Ribeirão: o Theatro Pedro II.

Hoje, existem três casas Pinguim na cidade, sendo a do centro (Rua General Osório) a mais emblemática, quer pela sua localização, num edifício histórico vizinho do Theatro Pedro II, quer pela sua decoração, evocadora dos anos 30 do século passado. O chão xadrez, os lustres personalizados, os barris decorativos, os vitrais que se dizem inspirados no trabalho de Lloyd Wright, a predominância dos cremes e ocres… tudo se conjuga para criar um ambiente único e especial.

Decorações aparte, o mais certo é encontrar as choperias Pinguim cheias de gente. Especialmente se for dia de jogo. Toda a gente sabe: futebol combina com chope.

 


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8 comentários

  1. 40 graus? Quero ir já para Ribeirão! :-) Beijinho e obrigada por mais uma prosa de ir ao céu! :-)

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  2. Adorei :) e logo eu que adoro andar a conhecer o Mundo.....

    Estás pelo Brasil?

    Beijnho

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    1. Quem me dera. Estou de volta ao frio... beijinho

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  3. Ruthia querida, tive o prazer de conhecer a sobrinha neta de Santos Dumont, que vem a ser muito amiga da tia de meu marido! Uma simpatia de moça, muito querida!
    Não conheço Ribeirão Preto (RAO é o código da cidade no caso de aviação), mas tive grandes amizades oriundas de lá! bjs
    tititi da dri

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    1. Este mundo é, cada vez mais, uma pequena aldeia, verdade? Quem sabe se as voltas do mundo ainda nos fazem cruzar um dia?!
      Obrigada pelo carinho, Dri.
      Beijinho

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  4. mais de 600mil é cidade pequena???? C tá louco???????

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    1. Caro anónimo(a), para os padrões portugueses 600 mil habitantes é muito. É o tamanho da nossa 2ª maior cidade, o Porto. Mas para os padrões brasileiros é, de facto, uma cidade pequena quando comparada a grandes metrópoles como S. Paulo ou o Rio. Só S. Paulo tem tantos habitantes como Portugal.
      Viajar é também ganhar novas perspectivas.
      E você é quem? De qq forma obrigada pelo comentário

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  5. Ruthia, sabia que você havia morado no Brasil, mas não pensei que tão perto de mim!
    Moro em São Paulo há 8 anos, mas nunca estive em Ribeirão! rs
    Adorei o texto!
    Bjos,
    Ana Christ

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

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