Café com chorinho

by - 11:40

Está uma manhã bonita. O céu oferece um azulão lindo, de encher o olho, salpicado por algumas, poucas, nuvens bonacheironas. Estacionamos o carro no campus da Universidade de S. Paulo (USP) em Ribeirão Preto e entramos no Jardim Botânico. Não estamos numa missão académica, mas tão-somente a passear. Afinal é domingo e aqui encontram-se algumas espécies curiosas, mesmo para os leigos como eu.



Uma das árvores que me chama a atenção é bastante alta, aliás como tantas outras ali, porventura centenárias. Mas esta tem o tronco coberto com um “rendilhado” de flores coloridas e umas bolas castanhas, parecidas com cocos, mas de um redondo perfeito. Existe uma pedra ali ao pé, a título de legenda, que me aguça ainda mais o interesse. “Cuia-de-macaco”, lê-se. Depois, existem as flores, intrigantes também.



- São carnívoras… - atira o meu marido, revelando resquícios de uma qualquer aula de Botânica da faculdade. A palavra assusta-me, largo de rompante a flor que segurava entre as mãos. Uma imagem instantânea formou-se no meu cérebro, de um filme muito antigo, a preto e branco, sobre um homem que adopta uma planta carnívora que acaba por o devorar. Pura ficção, claro.
Sacudo aquela recordação da cabeça e forço-me a pegar novamente na flor. Abrindo ligeiramente a ânfora, vislumbram-se alguns insectos pequeninos no interior. Estou com uma flor carnívora nas mãos! E é tão bonita!

                               


Estou meio enlevada com a revelação quando umas notas musicais enchem o ar da manhã. Os violões começam devagarinho… venho a saber mais tarde que se trata do “Café com Chorinho”, um projeto que se realiza há já 18 anos, todos os domingos de manhã. O grupo que toca também é o mesmo desde o início. Vários pares começam a dançar em frente ao pequeno coreto.

O palco do "Café com Chorinho", que se faz há já 18 anos.





É esta a banda sonora que me acompanha durante toda a visita. Porque para além do Jardim Botânico, o campus da USP acolhe dois espaços museológicos: o Museu Histórico Plínio Travassos dos Santos e o Museu do Café. E eu perco-me por museus.














Estes dois ficam na antiga Fazenda Monte Alegre, que chegou a ser a mais importante fazenda de café do Brasil, nas mãos do alemão Franz Schmidt, depois naturalizado brasileiro e conhecido para a história como Francisco Schmidt, um dos “reis do café”. 


Um Museu dedicado ao café faz, portanto, todo o sentido. Até porque o ouro verde foi o motor da economia local no século XIX. Em 1905, o coronel Francisco Schmidt tinha 15 fazendas, espalhadas por todo o estado, mas vivia aqui na Fazenda Monte Alegre, entre mais de oito mil hectares e 3.802.526 pés de café.


Alguns pés de café, do tipo arábica, ainda espreitam no jardim.

O acervo do Museu do Café Cel. Francisco Schmidt não é esmagador, mas funciona muito bem como testemunho de uma época. Ali se podem encontrar vários tipos de grão de café, máquinas diversas, colecções de bules e chávenas (xícaras, em português do Brasil), esculturas que homenageiam os colonos, sobretudo alemães e italianos, que sucederam a uma legião de escravos que não são ali esquecidos. Para além de uma contextualização histórica que, sem ser demasiado exaustiva, revela o percurso da exploração cafeeira na região, com destaque para os reis do café mas também outros fazendeiros, entre eles (apenas) duas mulheres.





Se o Museu Histórico, que fica na “casa grande”, deixa um pouco a desejar em relação ao estado de conservação das peças – ali, na ala de animais empalhados, alcancei o pleno significado da canção infantil “se tem bigodes de foca, nariz de tamanduá” – o mesmo não acontece com o Museu do Café, que apresenta um espaço muito clean e agradável.

Na "casa grande", fica o Museu Histórico Plínio Travassos dos Santos.


Com entrada gratuita, o espaço vale uma visita descontraída, especialmente ao domingo, quando os acordes do grupo “Os Rouxinóis” embalam a manhã com os seus violões. E não se esqueça de beber uma xícara de café. Doce e quente.

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1 comentários

  1. Querida, adorei, adorei, adorei! Continuas a pôr o coração em tudo o que escreves.
    Vou continuar a acompanhar o blog.
    Beijinhos
    Patrícia

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!