A ternura de Mia Couto

by - 17:35


Uma manhã de maio, abensonhada com chuva e palavras. Um escritor, tão grandioso na sua humildade. Um livro para as mulheres que se esqueceram que são gente


Conheci Mia Couto, o famoso autor moçambicano, numa chuvosa manhã, durante a sua digressão pelo norte do país. Mia promovia a sua mais recente obra – A confissão da Leoa – e eu quis ver de perto alguém que me acompanha ocasionalmente. Não, não sou a sua mais fervorosa fã (cabem tantos autores no meu coração) e tampouco uma conhecedora profunda da sua obra (terei porventura lido uns seis títulos?).




Em Mia surpreendeu-me o brilho do olhar, como o de um menino maravilhado perante um mundo novo que se lhe apresenta pela primeira vez. Um brilho que era sinónimo de interesse… Interesse pelo outro. Quão rara é esta disposição para ouvir, realmente escutando.

“O escritor é antes de tudo um escutador. Mas para escutar é preciso anularmo-nos. Hoje, toda a gente anda muito cheia de si própria” – foram as suas surpreendentes palavras. Esse anular-se, dizendo com os gestos “eu não sou importante, mas e você de onde vem?” tocou-me profundamente.

Nesses curtíssimos minutos em que conversamos, senti que Mia Couto realmente me olhou, acrescentando à já grande oferenda atenciosas palavras: “À Ruthia, a ternura de Mia Couto”.





A confissão da leoa

A confissão nasceu de uma experiência real, da qual o autor fez parte, na pequena e isolada aldeia de Palma (província de Cabo Delgado, norte de Moçambique). A comunidade vinha sendo alvo, regular e insistente, de um grupo de leões. Em poucos meses, 26 pessoas morreram em resultado desses ataques: 25 eram mulheres.

O seu grande amigo Sérgio Veiga (Arcanjo Baleiro, na obra), chamado para “executar” os assassinos, quis contar a caçada. Pode ler esse relato aquiMia Couto (o ficcionado Gustavo Rolando) escolheu o outro lado da história – o humano – transformando o leão numa metáfora.






As crenças tradicionais falam de leões-pessoa, os ntumi va vanu, comedores de pessoas que assumem hábitos e feições das suas presas humanas. Mas a maior ameaça da aldeia são as feras que moram nas palhotas. 


E por feras, o autor quer dizer os homens que escravizam as suas mulheres e filhas, que espancam e matam. Essas feras a quem não se pode olhar nos olhos. Essas feras que cosem a vagina à esposa, quando se ausentam (e quantas morrem de infecção por causa disso). Essas feras que violam uma rapariga, em matilha, porque inadvertidamente ela atravessou o mvera, o acampamento sagrado de iniciação dos rapazes.

Um provérbio senegalês retrata crua mas fielmente aquela condição feminina: O verdadeiro nome da mulher é «Sim». Alguém manda: «não vais». E ela diz: «eu fico». Alguém ordena: «não fales». E ela permanecerá calada. Alguém comanda: «não faças». E ela responde: «eu renuncio».


Mulher de Moçambique, do pintor José Soares.


Mariamar, a extraordinária narradora da obra (papel que divide com o caçador), é uma das presas, abusada e maltratada até pensar que não é gente, ou que está morta, porque a vida se tornou um idioma estrangeiro. Com a libertação da bela mulata (o pai morre e ela consegue finalmente sair da aldeia) renasce a esperança de que também outras saberão fugir dos grilhões que as prendem.


“Foi a vida que lhe roubou humanidade: tanto a trataram como um bicho, que você se pensou um animal. Mas você é mulher (…)”. E mulher tem uma capacidade infinita de trabalhar, de consolar, de amar. Esta é a Confissão da Leoa, um livro difícil (o parto demorou três anos) mas que permite sonhar com um país, uma sociedade, um planeta em que a dignidade é uma prerrogativa de todas as mulheres.



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23 comentários

  1. Ruthiamiga

    Um bom trabalho, ainda por cima resultante de uns poucos minutos - curtíssimos dizes tu - o que só demonstra que tens qualidade e, simultaneamente, categoria.

    É efectivamente com admiração e, até, com algum espanto ouvir dizer que “O escritor é antes de tudo um escutador. Mas para escutar é preciso anularmo-nos. Hoje, toda a gente anda muito cheia de si própria”.

    E não é que anda mesmo?...

    Obrigado pelo teu alerta imeilico. Espero-te na MINHA TRAVESSA que será também tua.

    Qjs

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    1. Obrigada Henrique.
      O texto não resulta apenas de um encontro fortuito com o escritor. Depois disso, li a obra e, claro está, fiz uma breve pesquisa sobre aquela região de Moçambique.

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  2. Acredito que já tenha lido todos livros de Mia Couto agora falta este!
    Bjs.

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    1. Olá Fátima, seja muito bem vinda.
      Se gosta do estilo de Mia Couto vai certamente gostar d'A confissão da leoa. Ainda por cima é um livro que homenageia as mulheres.

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  3. Querida Ruthia: Adorei o teu texto, a tua explicação, a descrição da figura do Mia Couto e principalmente porque tenho refletido muito sobre condição feminina...parece mesmo que escreveste para mim. Todos os ingredientes que usaste no texto são dos meus preferidos: Norte, Mia Couto, histórias de África e tua narrativa. Fantástico, escreve mais please.

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  4. Ah que bem!!! "um menino maravilhado perante um mundo novo" é uma virtude maravilhosa que devia ser conservada por todos nós!
    Lindona, sugiro trocar a maionese por iogurte natural, temperado com o que gostares (pode ser limão, um bocadinho de mostarda...). Em lugar de ovos e camarão, também se pode usar milho cozido, tomate fresco cortado, cenoura...
    As bases comprei prontas, num supermercado, junto ao pão-de-forma ;)
    Beijinhos, bom fim-de-semana!
    Madalena

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    1. Ahah, os restantes amigos vão adorar o teu comentário! "Mas porquê que o Mia Couto resulta em iogurte natural, milho e tomate??" Muito bom. Boas sugestões Madalena.
      Beijinhos

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  5. Parabéns,o teu Blog é muito bom,e, me enche de orgulho poder acompanhar.-Um abraço e fica com DEUS.

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    1. Duplamente obrigada Paulo: pela visita e pelo comentário. Um abraço

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  6. Muito bom...
    Adorei os textos e também os comentários.
    Parabéns

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    1. Especialmente aquele sobre maionese, camarão, iogurte... acertei? Ahah. Agradeço do fundo do coração

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  7. Que maravilhoso encontro e ele é fabuloso!! Um beijo e tudo de bom e um beijonho pro teu pequeninho de 4 anos,rs Vi lá no teu comentário...chica

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  8. Simplesmente, maravilhoso ;) como tu e o Mia ;)

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  9. Chica, obrigada... o meu pequenito anda por aí no blog, em algumas fotos. É que ele é o meu grande parceiro nestas aventuras.

    Ana, o teu coração é que é maravilhoso. Tenho que dar o desconto de "olhos amigos" ao teu comentáriom, hehe

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  10. Estou encantada com o post, sou fã desse escritor tão sensível, para mim, um grande poeta do cotidiano!Te vi no meu G1, e vim conhecer seu blog,virei seguidora.Ótimo final de semana :)

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    1. Olá Ângela. Seja muito bem vinda ao meu cantinho, espero "vê-la" mais vezes por aqui ;)

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  11. Um dos meus - se não o mais - autores favoritos. Conheci ele quando morei em Braga, ai pertinho de Guimarães. Um maestro incrivel! parabéns pelo blog :)

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  12. Olá, Ruthia!
    Conheci o escritor Mia Couto no Rio de Janeiro, em um evento realizado na biblioteca pública municipal da cidade, em um inesquecível dia de agosto(mais precisamente, no dia 08 de agosto de 2011). Realmente, a impressão que fiquei dele é a de um menino meio curioso e instigante. Claro que não tive a oportunidade de ganhar uma dedicatória tão "chique" dessa, e te parabenizo por ter sido privilegiada com a atenção dele. Gostei do que escreveste sobre ele. Tua escrita é muito interessante.

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  13. Davi e caro anónimo, sejam bem vindos ao meu cantinho. Que bela reunião de amantes de livros este post provocou :)
    Agradeço o vosso incentivo e carinho.

    Amigo anónimo, consegui alguma atenção porque fui à apresentação do novo livro a uma cidadezinha pequena, provavelmente o público era menor do que no Rio de Janeiro. Há momentos assim na nossa vida, que acontecem sem planearmos e que guardamos para sempre.
    Abraço aos dois

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  14. Caso possa se dizer que exista uma inveja "saudável", essa eu tenho. Poder estar "cara à cara" com Mia Couto, dever ser uma maravilha! Parabéns, pela postagem, aprendi mais, sobre este formidável escritor. Obrigada, Ruthia.
    Um forte abraço.

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    1. Cara Lúcia, foi um daqueles momentos-tesouros que guardamos para o resto da vida.
      Já gostava dele como autor, mas depois de o conhecer (fugazmente, claro), fiquei deslumbrada por ele enquanto ser humano!!!

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  15. Muito bom Ruthia. Parabéns pela entrevista com o escritor e pelo seu ótimo texto! Ah, segui seu blog, vou deixar aqui o link do meu. http://www.acasadoleitor.blogspot.com.br

    Beijos

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!