A Bíblia no feminino

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Como seria a Bíblia se tivesse sido escrita por mulheres? Sob que forma nasceria o Cristianismo e uma nova era? Quem seríamos hoje enquanto sociedade? – Eis as grandes questões colocadas por A Tenda Vermelha






Há já algum tempo que não falo de livros aqui n’ O Berço do Mundo, em parte porque a vida é um corre-corre… Ainda me lembro daquela época despreocupada de estudante, em que a licenciatura não impedia que devorasse dois ou três livros por semana. Mas ainda que o ritmo seja outro, os livros não deixam de ser uma grande paixão.

Lá diz O Berço, “quando não se pode viajar, lê-se e a ler somos transportados para todo o lado”. Esta é uma viagem tão mais rica na medida em que não existem fronteiras, vistos, barreiras linguísticas ou mesmo temporais (quem já não viajou pelos séculos nas páginas de um romance histórico?). E isso é fantástico.

Honrando essa paixão e porque ainda não destaquei nenhuma escritora, hoje trago Anita Diamant, jornalista, colaboradora regular do Boston Globe e da revista Parenting e autora de vários livros sobre o judaísmo.

Esta A Tenda Vermelha foi a sua primeira e talvez  mais famosa obra (um best-seller da lista do New York Times, publicado em 25 países incluindo Portugal, pela Difel) que dá uma nova perspectiva sobre o livro de Génesis.


A capa do livro em Portugal (antiga e actual) e no Brasil (dir.)

A Tenda Vermelha é um conto singelo de mulheres num mundo de homens. Dina, uma das filhas de Jacob - personagem bíblica cujos filhos varões dão origem às doze tribos de Israel - deixa de ser mera nota de rodapé para tomar o lugar de personagem principal. Na Bíblia, ela não profere uma única palavra, sendo a sua história contada por… já imaginam… narradores do sexo masculino.

A história é enriquecida com relatos das avarezas, dos medos e superstições, das pequenas cobardias do dia-a-dia e conflitos na linhagem do Messias, retratando uma sociedade tribal, onde a mulher deve ininterrupta obediência ao pai e ao marido.

Apesar desta submissão forçada, não deixa de ser ela a chave da harmonia familiar e da prosperidade da tribo – ela fia, tece, cozinha, faz cerveja e coze pão, cuida das crianças, carrega a água do poço, serve o seu senhor, cuida do horto, sabe que ovelhas pariram no ano anterior – em suma, ela mantém o acampamento activo, limpo e aprovisionado.

Na tenda vermelha, das mulheres, passa-se de mãe para filha um conhecimento estranho aos homens: a comunhão com a natureza… um filho varão é motivo de orgulho mas não enche de felicidade plena a tenda das mulheres. As filhas aliviam os fardos das mães e são a sua memória.






Neste refúgio sacramente feminino se recolhem durante o período menstrual, a doença e o parto. Elas não se indignam por serem consideradas impuras, nestas ocasiões. Antes, este interregno na dura rotina é encarado como uma bênção – uma época de reflexão, de cumplicidade e de descanso. E é neste casulo que se aprende a suportar a dor de se ser mulher e mãe (a descrição dos rituais ligados à primeira menstruação são particularmente tocantes, mas não os vou transcrever para não quebrar o encanto de uma possível leitura).

Da pequena pesquisa que fiz, a tradição da “tenda vermelha” está a ser redescoberta em vários países (Estados Unidos, Brasil, Índia...). Viram o vídeo na entrada do post? 

De volta à história, esta tem o poder de nos transportar a um período pré-cristão, embrião da nossa civilização, pela descrição bem conseguida de hábitos, linguagem e costumes como o da circuncisão, por exemplo.


O Nilo, fonte de vida e de cor, também fez parte da vida de Dina. Imagens de 2006, quando desci o rio num cruzeiro.



As paisagens explodem em cores à nossa frente e os sons do acampamento bailam-nos nos ouvidos. Tendas coloridas, rodeadas de ovelhas que ao romper do dia são conduzidas aos pastos; a viagem para Canaã; os cânticos de pastoreio dos homens, os hinos ao céu nocturno e as canções de fiar; os vales férteis da beira-rio a brilharem sob o sol poente; as pulseiras a tilintarem nos braços das mulheres. 

Finalmente a travessia de Dina para o Egito, uma nova casa num mundo bizarro de construções majestosas. Uma vida regulada pelos humores do rio Nilo, deus e fonte de vida.

Aparentemente, A Tenda Vermelha, é um livro ultrapassado pela história. Na verdade, revela-se um tributo à mulher, à sua capacidade de criar novos mundos (também pela maternidade) e de desafiar as tradições com teias de aranha. Agradecemos este hino à autora, usando as palavras da mãe de Dina: “O sabor da gratidão é como o néctar da colmeia.”





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5 comentários

  1. Puxa, que interessante esse texto! Até o salvei pra ler bem calmamente depois! beijos, chica

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    1. Chicca, fico feliz! E que interessante esse movimento de "irmandades femininas". É a redescoberta do colo...
      Beijinho

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  2. Muito envolvente esta tua descrição! Ainda não li, mas parece-me que todas as mulheres deveriam ler esta obra para recobrar forças para exigir o devido respeito e carinho que merecem como filhas, irmãs, mães, esposas..

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  3. Seria muito diferente, decerto!!! Muito interessante essa obra! Uma viagem sem sair do lugar ;)
    Beijinhos, boa semana!
    Madalena

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  4. As mulheres são os motores das famílias, tu própria és o exemplo disso Andrea, no sentido de que são imprescindíveis a todos à sua volta. Falta só o reconhecimento e o orgulho por um papel que sempre desempenharam...

    Madalena, obrigada por vires sempre espreitar. Boa semana e boas receitas :)

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!