A teoria do caos nasceu no Cairo

by - 08:07


Um voo doméstico trouxe-nos desde o sul do Egito até ao Cairo. Dizem que esta é uma das capitais mais caóticas do mundo. Só posso acenar que “sim”, ainda estou muito assustada para falar





Acordamos de madrugada para visitar Abu Simbel e agora temos bastante sono, um sono que nem a turbulência do voo espantou. Mas, assim que saímos do aeroporto, os sustos sucedem-se numa sequência vertiginosa, enxotando de vez a preguiça.

Um autocarro aguarda-nos - bastante moderno quando comparado com o parque automóvel que circula nas ruas apinhadas do Cairo - para nos conduzir ao hotel Cataract Pyramids

Na primeira rotunda, um carro em contramão dirige-se a nós, desviando-se a poucos metros. Aponto, de boca aberta, e ainda consigo balbuciar um “cuidado” – sei que o motorista não fala português, mas o cérebro congelou naquela fracção de segundo.





Ainda que as 5 estrelas do Cataract Pyramids fossem questionáveis,
o hotel revelou-se um óasis de tranquilidade.

O caos acompanha-nos até ao interior do Museu do Cairo.


Seguimos pela direita, por uma longa avenida, onde os carros transformam as três vias em quatro, cinco, seis… conforme calha e com a maior das descontracções. Vejo mais alguns condutores em contramão, mas o nosso continua impávido e sereno. Começo a suspeitar que ele faria o mesmo, se isso lhe abreviasse o caminho.

Não há um único sinal de trânsito à vista (parece que o único semáforo fica em frente ao Museu do Cairo), mas os condutores lá se entendem, por entre buzinadelas e sinais de luzes e, curiosamente, quase não vimos acidentes durante os dias que permanecemos na cidade. E isto apesar de, saberia eu mais tarde, a maior parte dos egípcios conduzir sem carta.

Ao trânsito, somem-se ruas esburacadas, um ordenamento inexistente e, nos bairros menos turísticos, bastante lixo no chão. Suponho que não poderia esperar um cenário muito diferente, numa cidade do terceiro mundo que concentra mais de 11 milhões de pessoas.

O Museu do Cairo segue o ritmo. Lá dentro, as peças amontoam-se em todos os cantos, muitas por catalogar e legendar, tal é a falta de espaço. Os visitantes mexem, sentam-se em cima das pedras, numa familiaridade escusada com o património...



As entradas do almoço, à base de beterraba e grão-de-bico.


Paramos para almoçar e, nesse hiato, assimilo o Cairo. A partir daquele momento, já nada me surpreenderá, pelo menos é o que prometo a mim mesma.

Mas, à noite, quando saímos para explorar o Khan El Khalili, percebo que os automobilistas não acendem os faróis senão para fazer sinais, numa espécie de linguagem “agora passo eu, tem lá paciência”. Lá vamos nós outra vez! 

No meio desta confusão medonha, surpreendo-me com uma rotina muito civilizada: o porteiro do hotel apontou a matrícula do táxi que nos levará ao milenar bazar árabe. Apontou ainda quantos somos e a nossa nacionalidade. Os turistas são preciosos para o Egito, existe até uma polícia especialmente treinada para os proteger (farda branca) uma vez que as receitas geradas pelo Turismo têm um peso determinante para a economia.

Chegamos ao Khan El Khalili, o célebre e imenso mercado que fica bem no coração da cidade e remonta ao período otomano. As ruelas estreitas fervilham de gente a esta hora mais fresca. 

As lojinhas vendem de tudo, do artesanato típico às bugigangas fabricadas na China, passando pelas t-shirts do mais puro algodão egípcio. Cada compra é longamente regateada, é preciso entrar no espírito e ter paciência.



A noite no Khan El Kalili têm um quê de boémio. Num dos cafés, o El-Fishawi,
junta-se a nata artística e intelectual do Egito, incluindo o nobel  Naguib Mahfuz.
No Instituto do Papiro, Fatimah explica como se extrai a fibra da planta para fazer papel.


Alguns turistas poderão ter receio de visitar o bazar sozinhos, especialmente à noite e sem guia. Mas nós eramos um grupo e, diga-se, não sofremos o mais pequeno sobressalto nesta aventura. 

Aliás, foi no Khan El Khalili que encontrei a minha recordação da lua-de-mel - um papiro escuro com o rosto da bela Nefertiti – pelo qual me tinha apaixonado à tarde, num “instituto do papiro”. Comprei-a por 1/3 do valor que me pediam na loja oficial, o que me deixou muito feliz e, provavelmente, ao vendedor também.

Voltamos nas noites seguintes, porque achamos o Khan El Khalili colorido e vibrante. Com as compras arrumadas, apreciei melhor o ambiente e meti conversa com dois meninos que estavam a vender umas pulseiras manhosas. Tinham 8 e 9 anos, frequentavam a escola mas estavam de férias (sendo Julho presumi ser verdade) e por isso podiam ajudar os pais no mercado. Um deles falava árabe, inglês, francês e arranhava o espanhol… provavelmente graças ao contacto com os turistas. Aí estão umas férias pedagógicas!

E por hoje é tudo amigos. Regressaremos ao Cairo para visitar as pirâmides. Até lá!












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13 comentários

  1. você convidou , aqui estou e fiquei, venha também,visitar-me. Um abraço.

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  2. Quanta coisa linda e interessante sempre!!um beijo praianos,chica

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  3. Simone querida, que bom que se sentiu em casa, hehe. Já fui visitar o seu jardim também e me registei :)

    Chica, muito obrigada pelos seus comentários sempre amáveis. Espero que as férias estejam a ser tudo de bom!
    Beijinhos

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  4. Quanta coisa linda...
    As comidas... o museu...
    Passear pelas lojinhas deve ser o máximo!
    Adorei!
    beijoo

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    1. Dani, as lojinhas são mesmo o máximo mas demora muito tempo a percorrer uma rua, porque os vendedores tentam entabular conversa, fazê-lo entrar e, se gostamos de alguma peça, perdemos no mínimo meia hora a regatear... :)
      Beijinho

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  5. Oi menina linda, novamente me proporciona a alegria de viajar contigo para lugares distantes, que talvez um dia eu seja abençoada em conhecer e viver a cultura... te agradeço mais uma vez, por dividires com a gente este teu momento tão especial.
    uma beijo pelo dia do amigo, que comemoramos aqui no Brasil, ontem.
    tititi da dri

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    1. Obrigada Adriana. Retribuo o beijinho pelo Dia do Amigo e por todos os outros dias :)

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  6. Olá Ruthi tudo bem ?
    Obrigado pelo convite, vim aqui conhecer seu blog! gostei e me cadastrei!
    Adorei a historia!
    **************************
    forte abraços e beijos!
    venha fazer parte do meu grupo de amigos também!
    http://motoprazer.blogspot.com.br

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    1. Seja bem vindo, Osmar. Fico sempre feliz quando alguém gosta das minhas palavras :)
      Já fui espreitar o seu cantinho, tem imagens bem marcantes.
      Abraço

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  7. Um mundo completamente diferente da nossa rotina.. Mas o Caos tem um quê de fascinante, não concordas?! Nem que seja para passar apenas uma temporada.. Em alguns aspetos lembra-me a China. Muito interessante!

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    1. Perfeitamente fascinante, só não estava preparada para ele! E apanhou-me acabadinha de acordar, daí o choque ser maior :) Mas apreciei mesmo, e acabei por me divertir com toda aquela confusão!
      Beijinho querida

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  8. Ola!
    Este lugar é muito caótico mesmo...Uma pena que tenha tido somente governos tiranos e sem noção! O trânsito então parece um circo, cada um faz o que quer kkkkk.

    Um abraço,
    Marineide
    (marciagrega)
    http://marciagrega.blogspot.com

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    1. Olá Marineide, seja bem vinda amiga das palavras. Resumiu tudo: no Cairo, cada um faz o que quer na estrada :) Chega até a ser divertido (depois do susto inicial)
      Beijinho

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

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