Primeiro a morte, depois o festim dos vivos

by - 08:48

Em Luxor, o Nilo separa os mortos dos vivos. Uma margem aconchega a cidade, com mercados coloridos e grandiosos templos. Na margem oposta, fica o mítico Vale dos Reis e os colossos, esses ineficazes guardiões do além-túmulo






A manhã começou cedinho, ainda numa semi-obscuridade, que se foi dissipando no caminho para o deserto. O Vale dos Reis não fica longe, mas as visitas querem-se cedo, para evitar o calor opressivo das tumbas. No céu, vários balões de ar quente vão ficando para trás, à medida que nos afastamos da orla verdejante, uma estreita faixa roubada ao deserto graças ao rio.

O Vale dos Reis existe graças a Tutmosis I, que quebrou uma tradição de mais de 1700 anos. Até ali, as múmias repousavam num templo fúnebre, normalmente uma pirâmide imponente. Mas aquele senhor achou por bem que as sepulturas fossem secretas, talvez para evitar o saque, uma vez que as múmias eram acompanhadas por jóias, móveis, comida, estátuas... enfim, tudo o que pudesse ser necessário na vida eterna.

A estratégia não foi lá muito boa e os ladrões encontraram a maior parte. Mas eis que, em 1922, um teimoso arqueólogo de seu nome Howard Carter encontrou uma sepultura intacta: a de Tutankhamon.

Apesar de pequena e modesta (porque morreu muito novo), a sua câmara tinha um tesouro fantástico que hoje se pode visitar no Museu do Cairo. Os trabalhos de arqueologia continuam no Vale dos Reis, acho que encontraram 67 túmulos até hoje, mas nenhum comparável ao KV62 (KV significando Kings Valley) do Tutankhamon.


O verde desaparece, à medida que nos afastamos do Nilo.

A máscara que conhecemos dos livros de História está no Museu do Cairo,
onde as máquinas ficam à porta (a imagem é da net).


O bilhete dá acesso a apenas três ou quatro túmulos, com paredes belamente decoradas, mas vazias já se sabe. De modos que chega perfeitamente entrar em algumas, até porque são nove da manhã e o calor começa a incomodar.

Farouk conduz-nos agora a uma oficina de alabastro, essa pedra encantadora que deixa passar a luz. À porta, alguns artesãos fazem graciosos potes mas o guia apressa-nos para a loja do andar superior, onde o dono nos espera com uma chávena de chá.

Beber chá quente com este calor parece um paradoxo, mas os egípcios apreciam-no e nenhum negócio se fará até que todos esvaziem a sua chávena.  Contudo, acabei por não comprar nada, tudo era astronomicamente caro! 

Os guias levam, invariavelmente, os turistas a estes “institutos” (há também institutos de perfumes e institutos de papiro) para obterem uma comissão, pelo que me apercebi mesmo sem falar uma palavra de árabe. É algo cultural, que não nos deve indignar, mas só compramos se quisermos e eu estava à espera de ver os preços no mercado Khan el Khalili, no Cairo, antes de alargar os cordões à bolsa.


Cada peça de alabastro é esculpida artesanalmente.
Uma equipa de arqueólogos resgatou uma terceira estátua, que estava submersa, colocando-a há poucos meses no local original. O processo demorou 10 anos.


Mais uns minutinhos de autocarro (felizmente com ar condicionado) e eis-nos finalmente perante o Colosso de Mémnon. Na verdade as estátuas são duas, embora só uma mereça o nome do herói grego. 

Estes dois gigantes guardavam a entrada de um grande templo fúnebre, do faraó Amen-hotep III, que desapareceu com as inundações do Nilo e com a pilhagem das pedras, usadas noutras construções. Sem nada à sua volta, ficam ainda mais impressionantes do alto dos seus 18 metros. 

Porque carrega uma delas o nome de Mémnon, que foi morto por Aquiles na guerra de Tróia?

Um grande terremoto, em 27 a.c. danificou bastante as estátuas, abrindo uma fenda no colosso norte, que passou a “cantar” em certas ocasiões, especialmente ao amanhecer, por causa das bruscas alterações de temperatura e humidade (as noites no deserto são muito frias).

Mas, segundo os gregos, o cântico era o lamento de Mémnon por ver a sua mãe (Aurora) a subir aos ceús, cada manhã. O som ficou tão famoso que muitos viajaram até ali para o ouvir, incluindo o imperador Adriano. Outro imperador romano, Septímio Severo, também esteve ali e mandou reparar a estátua, o que inadvertidamente a silenciou para sempre!


De regresso aos vivos

Sacudimos a poeira dos túmulos e do deserto num longo passeio de charrete pela cidade de Luxor, que nos levou aos pontos menos turísticos e, por isso mesmo, mais saborosos.

O que recordo desse passeio? O barulho dos mercados com bancas caóticas, o cheiro das especiarias à venda nas ruas de terra batida, os vendedores que entretêm o tempo com um cachimbo de shisha… e os egípcios que se revelam curiosos em relação a nós, nos dizem adeus e sorriem para a nossa máquina fotográfica. 





Numa porta entreaberta consigo perceber um menino a jogar uma espécie de jogo electrónico pré-histórico, com um comando ligado a um televisor para lá de velho. As crianças não têm brinquedos sofisticados mas parecem bem nutridas e sorridentes, ainda que muitas estejam descalças.

Dizem que cidades como Luxor, bem no interior do país, têm um atraso de 50 anos em relação à capital. Mas isso não os faz infelizes. Quem não sabe o que é um telemóvel, não sente a falta de um smartphone...


Um vendedor de especiarias, um parque infantil improvisado, o sorriso das crianças egípcias e o traje das mulheres muçulmanas (sentido dos ponteiros do relógio).















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13 comentários

  1. Ruthia
    É uma viagem muito interessante e tem um quê de aventura. Estou começando a ficar com vontade de ir...rs
    Beijos

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    1. O passado egípcio tem mesmo um quê de intriga e suspense! Se um dia for, vai adorar o país!
      Beijinho e bom fim-de-semana

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  2. Novamente venho te agradecer por essa viagem maravilhosa....cada postagem tua me faz viajar contigo e conhecer um pouco mais de lugares, onde, quem sabe, um dia poderei ter o privilégio de estar também.
    beijos desejando um ótimo final de semana
    tititi da dri

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    1. Dri, eu é que agradeço o seu comentário amável. Obrigada pelo carinho!
      Beijinho

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  3. ESPETÁCULO DE VIAGEM, LUGARES ETC...
    ADORARIA UM DIA, PODER CONHECER ESSE FANTÁSTICO LUGAR.
    BEIJOS NO TEU CORAÇÃO!!

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    1. Olá Otília, seja bem-vinda. O Egito é realmente um sonho, os egípcios não têm consciência do quão ricos são!
      Beijinhos, espero "vê-la" novamente por aqui.

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  4. Uma beleza de blog! Um post que me facina, pois como ocidental, negaram-nos tudo da cultura egípcia, pela qual sou apaixonada.

    PARABÉNS ! Vou Seguir.

    Abraços

    Mirze

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  5. Isso sim, é uma viagem de sonho, na categoria de "viagens da vida"! Sortudos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Beijinhos, boa semana!
    Madalena

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  6. Olá, Ruthiap
    Agradecendo a visita ao meu blog, peço desculpa pela demora na retribuição. A explicação pode ser encontrada no meu último post.
    Espero que compreenda. Vá ver-me mais vezes, que eu virei sempre que possível. Com o passar do tempo serei mais assídua.
    Gostei muito do seu blog (gosto muito de viajar e já fiz algumas viagens maravilhosas). As imagens são lindas, o texto óptimo.

    Até sempre. Beijinhos

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    1. Querida Maria, a minha profunda solidariedade neste momento particularmente doloroso que atravessa. Muita força!

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  7. Oi flor,
    Adorei o post... adorei as imagens...
    Vim te agradecer por participar do nosso Mosaico de Blogs Amigos.
    Estou te seguindo e espero estar sempre por aqui.
    Boa semana, Simone Viana

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  8. Mirze, Madalena, Mariazita, My belle Simone... obrigada pelos comentários tão carinhosos.
    Fico muito feliz por tê-las cá.
    Beijinho para todas :)

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  9. Adorei as fotos, essa viagem me parece estar bem cultural né, bacana :D
    Beijos

    lolaporlola.blogspot.com

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!