Manhã em Brodowski

by - 04:27


Seguimos as pegadas do grande Portinari até à humilde casa da sua infância. As tintas, que lhe deram vida e o mataram, continuam perto da paleta à espera da sua magia


Brodowski. Apesar do nome sonante, em honra do engenheiro polaco que trouxe os caminhos-de-ferro e o progresso, nada se passa aqui. Já nem o comboio cá pára.

Situada no estado de S. Paulo, a cerca de 330 km da capital, esta cidadezinha de interior tem a quietude de um bairro, com as suas pracetas gaiatas que atraem os velhinhos até aos bancos de jardim, em busca de sombra e de alguma conversa.

© Museu Casa de Portinari

A fachada do museu, que fechou há cerca de um mês, para restauro dos frescos da Capela da Nonna.

Não, não estamos perdidos. Saímos precisamente para visitar Brodowski (gosto deste nome que se prolonga na língua), por causa da Casa-Museu de Portinari. O maior artista plástico contemporâneo do Brasil colocou novamente a cidade no mapa. Em 2011, a casa recebeu cerca de 114 mil visitantes.

Na verdade, não estávamos longe: Ribeirão Preto fica a pouco mais de 20 km. (Não leu os posts sobre Ribeirão? Veja aqui, aqui e aqui). É só apanhar a Rodovia Cândido Portinari e, chegados à pequena Brodowski, encontrar imagine-se… a Praça Cândido Portinari.




O Miguel passou nesta estrada inúmeras vezes, sem jamais se perguntar quem seria a personagem. Logo tomei por missão instruí-lo sumariamente, para que chegasse ao museu se não com a minha admiração, pelo menos com curiosidade (saibam que museus não estão entre os sítios favoritos do meu marido).

A praça é despretensiosa, tal como o museu instalado na casa do pintor. Filho de humildes imigrantes italianos, Portinari partiu daqui aos 15 anos, rumo ao Rio de Janeiro e depois Paris, em busca de formação artística. Muitos anos mais tarde, já casado e famoso, regressaria para longas temporadas, trazendo consigo os amigos poetas, artistas, intelectuais…


A pequena construção parou no tempo, com objectos de outra época. Num dos quartos, um bizarro par de sapatos: explicam-nos que o pintor tinha uma perna mais curta do que a outra, e que mandava fazer o seu calçado à medida, para disfarçar a deficiência, num sapateiro de Batatais.



© Museu Casa de Portinari

No atelier repousam ainda pincéis, tintas, esboços inacabados, como se o mestre pudesse voltar a qualquer momento. Várias obras assinadas por Portinari enfeitam as paredes, vitrines guardam os seus poemas…

Infelizmente, não é permitido fotografar no interior, tampouco na famosa “Capela da Nonna” (1941), que o pintor construiu para a sua avó rezar. Nos murais da vetusta capela estão todos os santos favoritos da velhota, que Portinari pintou tomando por modelo a família e amigos.

Terminada a visita, quedamo-nos pelos jardins, onde lamento com os meus botões o facto dos quadros aqui depositados serem quase todos de temática religiosa. Eu queria tanto ver as telas mais polémicas, como a série Retirantes.





Pequeno e controverso

Apenas a estatura do artista (1,54 metros) foi pequena. Tudo o resto, sobretudo o talento, foi abundante e grandioso. Abundante mesmo: Cândido Portinari deixou mais de cinco mil obras, entre telas, murais, desenhos…

Do seu trabalho dizem que foi fortemente inspirado pelo cubismo de Picasso, mas o brasileiro acrescentou-lhe as cores do seu país, dos mulatos às plantações de café, e os temas sociais. A sua pintura causou controvérsia. Por causa dos murais na Igreja da Pampulha (Belo Horizonte, MG, 1944), que realizou a convite de Oscar Niemeyer, o arcebispo negou-se a consagrar o templo!


Uma amostra da obra de Portinari, hoje espalhada pelo mundo.

Perseguido por motivos políticos (filiou-se, junto com artistas como Jorge Amado, no partido comunista) mas aplaudido pela sua arte… Portinari teve o devido reconhecimento em vida, com exposições nos Estados Unidos (o Museu de Arte Moderna de Nova York adquiriu a primeira obra do artista em 1939), Israel, América Latina e diversos países europeus: chegou a ser agraciado com a Légion d’Honneur pelo governo francês, depois da sua primeira exposição em Paris.

Este foi um entre muitos prémios: o painel Tiradentes motivou uma medalha de ouro, concedida pelo júri do Prémio Internacional da Paz (1950); o International Fine-Arts Council de Nova Iorque elegeu-o melhor pintor do ano 1955 e, pouco depois, foi agraciado com o Prémio Guggenheim do Brasil (1956). 


Os painéis Guerra e Paz, que estiveram na sede da ONU até 2010.


Guerra e Paz (1956) os seus dois maiores murais, encomendados pelo governo brasileiro para oferecer à ONU, fizeram-no adoecer. Diagnóstico: envenenamento por causa das tintas. Parou de pintar durante algum tempo. Depois voltou a pegar nos pincéis e o envenenamento encontrou-o mais velho e frágil. A pintura, que lhe deu a imortalidade artística, matou-o.

E vocês, leitores d'O Berço, o que conhecem de Portinari? Será que vos deixei apaixonada pelo maior pintor brasileiro?



Site do Museu - www.museucasadeportinari.org.br







You May Also Like

20 comentários

  1. Portinari é maravilhoso e passear contigo pela cidade foi lindo.Tanto a ver, respirar cultura!beijos,chica e lindo fds!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A Chica resumiu tudo: Portinari é realmente maravilhoso. E, felizmente, viu o seu trabalho reconhecido e apreciado. Normalmente, os pintores só são valorizados depois da sua morte.
      Beijinho

      Eliminar
  2. Já fui a uma pequena exposição em homenagem a ele quando criança e me apaixonei por sua arte... O misto das cores expressa de forma precisa o zeitgeist que resultou nestas telas, coisa que não se vê hoje. Além de uma bela arte para se apreciar, é um retrato histórico do nosso país, ou pelo menos assim eu vejo... Sobre a cidade, adoro cidades assim, pacatas... Pena a minha não ser de toda calma. Enfim, estive num museu pequeno de minha cidade e em breve farei posts sobre isso... Excelente post o seu, gosto quando intercala essas imagens lindas com blocos de texto assim, fica dinâmico!

    http://circadianoinverso.blogspot.com.br/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Um retrato histórico, sem dúvida Luã. Também por isso causou polémica.
      Aguardo o seu post sobre o museu da sua cidade... adoro museus! Estão cada vez mais interessantes, não acha?
      Intercalo blocos de texto com imagens para não cansar tanto, eu própria fico cansada de ler no computador, mas não consigo evitar escrever sempre bastante... o jeito é fazer umas pausas com imagens :)
      Abraço

      Eliminar
  3. Vir aqui é como seu estivesse sempre em uma nova viagem, absorvendo cultura, amei o post, e como moro em São Paulo vou procurar conhecer de perto!Ótimo sábado.Bjuss

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Querida Angela, o museu fechou em Junho deste ano, para uma intervenção de restauro (eu estive lá em Outubro de 2011).
      Suponho que seja algo passageiro. O melhor é ir espreitando o site deles, para evitar uma viagem em vão.
      Beijinho

      Eliminar
  4. Adorei saber um pouco mais sobre esse artista!
    Conhecia um pouco de suas obras mas não sabia que morrera assim....
    Que legal poder conhecer um pouco mais de pertinho!
    Estou viajando com vocês!
    bjus

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada Dani, é sempre um prazer te "ver" por aqui. Beijinho

      Eliminar
  5. Conhecia de nome e algumas obras do Portinari, mas, nunca me dei o trabalho de pesquisar sobre ele... preguiça mental .... É bom saber que há pessoas que gostam e valorizam a cultura Brasileira!!

    Beijoss

    www.isared.blogspot.pt

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A arte é universal, Isa. Adoro Portinari pelo que deixou, como adoro um Piero della Francesca, ou os portugueses mestre Cargaleiro e Paula Rego.
      Como morei em Ribeirão Preto, no ano de 2011, não quis perder a oportunidade de visitar a sua casa-museu, claro :)
      Beijinho

      Eliminar
  6. Eu não conhecia Portinari, mas gostei muito dos traços das obras dele, especialmente dos noivos. Incrível ter morrido envenenado com as tintas!!!
    Beijinhos, bom domingo!
    Madalena

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Se gostaste do quadro dos noivos, experimenta fazer uma pesquisa no google sobre a série "Retirantes", são obras com uma carga dramática brutal.
      Beijinho e bom domingo

      Eliminar
  7. Ótima postagem, Ruthia. Viajar com o Candito em suas artes e história é bacana.

    Abraços:

    Prof. José Nicolau

    ResponderEliminar
  8. Oi, Ruthiap....

    Brodowski fica bem pertinho da minha cidade, Franca, que vc viu no meu blog.
    Portinari é um orgulho do Brasil e quem tiver oportunidade, deve visitar o museu e saber sua história sim.

    Qto ao seu comentário no meu blog, todos os sábados fazemos uma Blogagem Coletiva com esmalte e mais um tema. O dessa semana foi regiões do Brasil, onde cada uma fala de sua cidade.
    Se quiser participar um dia desses só acessar o blog www.fernandareali.com e veja como funciona.
    Beijos e ótimo restinho de domingo!

    ResponderEliminar
  9. Olá José. Olá Clara. Portinari é realmente um motivo de orgulho para os brasileiros. Ainda bem que gostaram desta singela homenagem.

    Clara, essa ideia da conexão de blogs é realmente interessante. Vou espreitar, obrigada pela dica.

    Um beijinho
    Ruthia

    ResponderEliminar
  10. Oi Ruthia, que orgulho e alegria em saber que estivestes no Brasil, ano passado! Chegastes a vir para o Sul? Se para cá retornares e vieres para o Rio Grande do Sul, me avisa, que terei imenso prazer em te receber e a tua família, e mostrar algumas das nossas belezas!
    Amei o post sobre Portinari, admiro sua obra (sou filha de artista - minha mãe pinta telas, porcelana e aquarelas) e amei conhecer detalhes de sua história que ainda não sabia..novamente, obrigada!
    bjs
    tititi da dri

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Foi uma experiência e tanto, esse ano que passei no Brasil. Não cheguei a ir ao Sul, infelizmente. Mas se um dia for, pode deixar que aviso :)
      Beijinho

      Eliminar
  11. Ah que legal, quer dizer que venho a São Paulo foi?! Espero que tenha gostado rs..e olha eu mesma que moro aqui não conhecia essa cidadeznha, que bacaca :D
    Tenha uma ótima semana!!
    Beijos

    lolaporlola.blogspot.com

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Estive a morar no estado de S. Paulo todo o ano de 2011, querida. E adorei o vosso país... beijinho

      Eliminar
  12. Seu blog tem mais conteúdo relevante sobre o Brasil do que muitos blogs brasileiros, Ruthia!
    Obrigada pelo carinho com nosso país!
    Beijos,
    Ana Christ

    ResponderEliminar

«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!