Sob o carvalho de Guernica

by - 08:09


Existem viagens trágicas e monocromáticas como o mural de Picasso. Existem viagens que nos obrigam a crescer, recordando-nos que este mundo, o nosso mundo, nem sempre é belo e feliz.


O mural de Picasso ficou em Nova Iorque até à morte de Franco, seguindo 
vontade do pintor, que ordenou o regresso apenas quando Espanha fosse 
uma democracia. “El último exiliado” regressou a casa em 1981.

Tirei do bolso as últimas libras, sobreviventes da nossa curta estadia na Beatles’ hometown, para pagar um chocolate no aeroporto de Liverpool (relembre a viagem aqui, aqui, aqui e aqui), quando um cantinho de livros em promoção me chamou… A capa de Guernica sobressaiu entre a meia dúzia de obras que valiam a pena comprar. Uma breve leitura do resumo e decidi trazê-lo, por metade do preço de capa: metade de £10.99 = um achado!


Demorei alguns dias a ultrapassar o primeiro capítulo. Há mais de dois anos que não lia uma obra na sua língua original e comecei por tropeçar no inglês. Falta de prática. Mas, aos poucos, a fluidez regressou e embrenhei-me na história esquecendo a língua estrangeira.


Quando ouvimos a palavra “Guernica”, pensamos no dramático mural de Pablo Picasso! E depois na pequena aldeia basca, bombardeada durante a Guerra Civil Espanhola. Por esta ordem (a arte supera, na memória colectiva, a tragédia histórica que a inspirou). Este livro do jornalista americano Dave Boling aborda o conflito espanhol do ponto de vista da pequena e emblemática Guernica.

Os horrores do conflito estão lá. O fantasma da fome paira sobre os personagens, limpando a carne dos ossos e os princípios morais de muitos falantes do euskara. Mas esta não é (só) uma história de guerra. “Boling’s remarkably researched book is a humane and thoughtful narrative of genuinely good people in impossible circumstances”, descreve o painel que lhe atribuiu, em 2009, o prémio para melhor obra de ficção.


Mapa do país basco.

No centro desta obra encontramos o intimidante Justo Ansogueti, forte como um touro, e a sua generosa esposa Mariangeles, que trabalham com afinco pela prosperidade da sua terra Errotabarri. Depois, o autor apresenta-nos a filha, Miren, alegre e vivaz como uma borboleta, e Miguel Navarro, o pescador frustado que se torna carpinteiro. E emocionamo-nos com a história de amor entre os dois.

Aliás, quase sentimos o ritmo da música enquanto a graciosa Miren dança sobre um copo cheio de vinho, sem entornar uma gota:

“To a quickening beat, she stepped lightly on all sides of the glass. Without looking down, she stepped over it and beside it, side to side, front to back, barely missing it as her feet wove an intricate pattern. The breadth of her skirts at all times impeded her vision of the glass, making her avoidance of it an act of unfathomable precision. Then, impossibly, she rose and seemed to hover before gently landing atop the glass, one slipper on each side of the lip. As she was off again, levitating, flitting on each side, and then once more leaped back onto the glass, alighting softly with bent knees”


A verdadeira Errotabari. Franquistas e outros historiadores
negaram o bombardeamento de Guernica. Outros tentaram
também apagar o Holocausto os livros de história...


Surge também a tão bela quanto cega fabricante de sabonetes Alaia Aldecoa e Dodo, o irmão de Miguel que, fugindo das garras da Guardia Civil, passa a fronteira passando a viver em França. E divertimo-nos com as aventuras de Dodo, que se torna contrabandista nos sinuosos trilhos dos Pirenéus, transportando mercadorias, informações e pessoas (incluindo pilotos aliados, abatidos sobre a França ocupada).


Quando o bombardeamento começa, no capítulo 17, estas pessoas já são velhas conhecidas, vimos a filhinha de Miren e Miguel nascer, assistimos ao terno ritual nocturno com que a pequena Catalina é amamentada… E tudo se torna mais doloroso.




Numa tarde amena de Abril, dia de mercado, os sinos do convento tocaram com uma urgência inusitada. Pouco depois, os aviões da Legião Condor (que Hitler pusera às ordens de Franco) sobrevoaram a aldeia apinhada de gente e começaram a largar bombas. As casas, quase todas construídas em madeira, alimentaram os incêndios e em pouco tempo tudo estava a arder. O massacre durou 3 horas infernais e não poupou ninguém, nem as crianças nem o gado…

“Von Richthofen had been right; the people had been like sheep, clustering together in predictable patterns, exposing themselves on bends in the road and at the edges of wooded areas, as if foliage would block machine-gun fire. He had taught them an art”.

O bombardeamento, sem precedentes na história militar, pela quantidade de fogo aéreo lançado (mais do que em toda a I Guerra Mundial) deixou contudo intacto o símbolo de Guernica: o carvalho sagrado onde os sábios se reuniam desde tempos imemoriais, para decidir o destino colectivo, numa atitude embrionária da democracia moderna.


Choramos então com Justo e Miguel, pelas suas perdas. Acompanhamos o primeiro quando ergue uma trave sozinho para salvar a mulher do padeiro, presa debaixo dos escombros, acabando por perder um braço. Escavamos com Miguel as toneladas de entulho à procura das suas kuttunas, as suas meninas, mutilando as próprias mãos. Viajamos com o padre Xabier até Paris, onde ele descreve o acontecido aos jornalistas, ávidos de testemunhas credíveis.

Depois, partilhamos a raiva de Picasso perante os relatos dos jornais e assistimos ao parto (cerca de um mês mais tarde) do mural a óleo que haveria de expor na Exposição Internacional de Paris de 1937, ironicamente dedicada ao progresso e à paz.

Por fim, assistimos aos tímidos indícios de cura, perante o retorno de Catalina que fora enviada junto centenas de órfãos para Inglaterra. E terminamos o livro com uma pontinha de esperança no coração.





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16 comentários

  1. Muito bom post!!!
    Há que tempos não leio também um original que não seja em português (mesmo em português pouco tenho lido...).
    Beijocas e bons livros!
    Madalena

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  2. Reparei no livro quando o estavas a ler e o nome chamou-me a atenção. Lembro-me de estudar Guernica e o bombardeamento, bem como o quadro, para um trabalho de Movimentos culturais (ainda te lembras?). Sou apaixonada pelo quadro/mural. Consigo ficar horas a olhar para ele a tentar discernir algo, a tentar encontrar um sentido. Não um sentido na pintura, mas um sentido do que aconteceu.
    Agora fiquei ainda mais curiosa com o livro. Mas o meu inglês anda meio "emperrado"...

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  3. Nossa, Ruthia! Me deu vontade mesmo de ler, faz um bom tempo que não me dedico a umas boas estórias, só leio coisas de faculdades, livros científicos e coisa do tipo, se deixar levar por uma boa história faz uma falta e tanto! (Quanto ao último post, não precisa traduzir, eu entendo haha, mas obrigado pelo cuidado)! Enfim, tenha um ótimo fim de semana, e até mais ver!

    Circadiano Inverso

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  4. Queridos, obrigada pela visita e pelos comentários. É sempre bom "tê-los" por aqui.

    M. sei bem o que sentes, com a idade e o stress do dia-a-dia, o meu ritmo de leitura diminuiu muito. Mas temos que ler, não só para nos "aliviarmos" da nossa realidade mas também para estimular o cérebro... sabes o que diz o ditado sobre mentes preguiçosas e o alemão?!

    Joana, fizeste o trabalho para o CSP? Já não me lembrava. É um acontecimento sem explicações mesmo, a humanidade é capaz de horrores inimagináveis. E o inglês "desemperra-se" (olha o caso do Miguel).

    Luã, quem leva a faculdade a sério passa mesmo por essa fase! Mas muitos livros virão... (P.S. não entendi o que disse sobre traduzir o último post).

    Beijinhos para os três

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  5. Um livro que ao acabar deixa uma pontinha de esperança é bom, apesar de tantas coisas fortes. Boa dica! beijos,lindo fds!chica

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  6. Eu sou rata de sebo, vivo viajando através dos livros, como só domino o português nem sempre tenho o prazer de ler os originais, ou as vezes não há tradução, essa semana acabei Musash I e já estou com o II para iniciar, o interessante são os mapas lá descritos de locais que hoje não existem mais, livro é isso essa capacidade de nos transportar para locais, histórias jamais vividas.Bjuss e ótimo final de semana!

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    1. Eu percebi que é um "ratinho de biblioteca", como eu, no seu primeiro comentário aqui n'O Berço, no post sobre o Mia Couto.
      É tão bom perdermo-nos em mundos que não são os nossos...
      muitos beijinhos

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  7. oi amiga, adoro ler livros que relatam um pouco da história da humanidade... O mais incrível, porém, e que me encanta sempre, é essa tua linda maneira poética de escrever!! Cada post teu é uma lição de história e de vida!
    Obrigada mais uma vez
    bjs desejando um ótimo final de semana
    com carinho
    tititi da dri

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    1. Adriana, és sempre tão gentil, fico até constrangida.
      Isso de ter sempre detalhes informativos, para além da minha impressão das coisas, é defeito de formação uma vez que sou formada em Jornalismo :) É mais forte do que eu!
      Obrigada pelo carinho, minha querida

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  8. Gostei muito de seu blog,com postagens bem interessantes!Valeu a dica do livro!Bjs e meu carinho,

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  9. Teu blog ou casa da net como eu costumo chamar é incrivel claro que já estou te seguindo, adorei a forma como você falou do livro e de sua história, nossa deu vontade de ler já, parece ser muito bom mesmo, parabéns beijos Luconi

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  10. Queridas Anne e Luconi, sejam muito bem vindas ao meu cantinho. A vossa visita e comentários deixaram-me feliz. Sintam-se em casa aqui n'O Berço.
    Beijinhos

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  11. oi! andei "rodando" seu blog todo rs. as postagens são fascinantes, o jeito que vc aborda cada tema, a profundidade, os valores registrados. QUE DELÍCIA! fiquei muito grato e contente em conhecer seu espaço. esse livro já estava na minha lista dos "desejados"... e agora que li seu parecer sobre ele quero mais ainda.

    bom fim de semana! abraços

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    1. Olá Alexandre, seja muito bem vindo ao Berço. Por favor, sinta-se em casa rs...
      Fico ainda mais feliz com o seu elogio na medida em que o seu blog, Lost in Japan, é tão rico e tão visitado.
      Um abraço

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  12. Muito boa esta sua postagem. É uma ótima maneira de entender uma obra, analisando o contexto onde ela foi gerada e esses momentos que são cruéis na humanidade devem sem lembrados para que não se repitam.
    Adorei seu blog,
    Beijos

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!