A parábola política de Saddam

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A sugestão de leitura de hoje é, uma vez mais, forte e polémica. O que posso dizer? Gosto dos livros assim… A obra Zabiba e o Rei terá sido escrita por Saddam Hussein e permitiu à CIA traçar um  perfil psicológico do ex-chefe de Estado iraquiano.


Zabiba é a reencarnação da famosa contadora de histórias Scherazade, cuja imagem foi escolhida para a capa do livro. Também ela é uma linda filha do povo, que cativa com simples e belas palavras um grande rei. Mas as semelhanças terminam aqui. 

A versão portuguesa e francesa da obra de Saddam Hussein.

No decorrer da narrativa, Zabiba despe as vestes de mera personagem - a mulher casada que se apaixona pelo rei árabe - para representar a pátria amada e, em última instância, a própria consciência do povo iraquiano. A escolhida do monarca morre como mártir, lutando contra os conspiradores, depois de ter sofrido às mãos destes o opróbrio da violação.

Paralelamente, o país é ameaçado por conspirações e cobiçado pelos famigerados estrangeiros, continuamente descritos como traidores e invasores. “O desígnio dos países estrangeiros que apoiavam os príncipes conspiradores, que tinham recebido meios de sabotagem e de destruição, era o de dividir a pátria e repartir os seus despojos como troféus de guerra”.

Esqueceu-se de um pormenor: também ele, guloso estrangeiro, invadiu o Kuwait, por causa do petróleo, originando a guerra do Golfo (dois pesos, duas medidas, meu senhor…). Zabiba morre precisamente a 17 de Janeiro, data do início da segunda guerra do Golfo, em 1991.

© Associated Press  - Tropas americanas derrubam a estátua do ditador.

O rei personifica o país e o próprio Saddam, num claro apelo ao nacionalismo e ao culto da personalidade de quem liderou o país durante 24 anos. Os diálogos entre o líder absolutista e a sua amante revelam ideias políticas que chocam, em várias passagens, a nossa sensibilidade ocidental. Retratam ainda a lealdade do povo à terra, o seu sentido de honra e o papel da mulher na sociedade islâmica.

Mais do que um romance, o autor criou uma teorização de princípios. O livro revela-se uma tentativa de forjar um suporte divino para sustentar o regime: o resultado não convence e provoca até um certo mal-estar. Talvez por esta leitora ter nascido e crescido numa democracia?!

A edição especial da Time, após a invasão do Iraque.
Hitler e Bin Laden mereceram capas semelhantes.


Portugal foi o segundo país europeu a publicar Zabiba e o Rei, após a primeira edição francesa que vendeu dezenas de milhares de exemplares, tal como tinha acontecido na China, no Egipto e no Iraque. A venda do livro, publicado sob pseudónimo, reverteu a favor do Crescente Vermelho (instituição homónima da nossa Cruz Vermelha) e das crianças iraquianas vítimas da fome.

O Teatro Nacional do Iraque transformou a obra no maior espectáculo musical da sua história. Na data de estreia, 28 de Abril de 2001, Saddam Hussein celebrava o seu 65º aniversário, e face ao cenário político de então, perguntamo-nos se esta terá sido uma homenagem forçada ou um gesto de despedida. Cerca de cinco anos depois, o ex-ditador iraquiano era enforcado, na sequência de um julgamento que o considerou responsável pelo genocídio de 148 xiitas (em 1982).

Nem sequer me vou pronunciar sobre a vergonha que George W. Bush deve carregar por causa da invasão do Iraque. Quando os políticos se armam em deuses, as pessoas comuns é que sofrem.

Para além das perdas humanas, temos que lamentar outras, culturais, por vezes irreparáveis. Em 2003, aquando da invasão do Iraque pelas tropas americanas, o museu de Bagdade (com um dos maiores acervos arqueológicos do mundo) foi completamente pilhado…. reabriu ao público em 2009, mas muitas das 15 mil peças roubadas continuam desaparecidas.



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8 comentários

  1. Tenho mesmo de o ler!
    Não me parece que Bush se envergonhe da invasão do Iraque. Aliás, o mais certo é o próximo presidente dos EUA invadir agora o Irão...
    Beijoquinhas,
    Madalena

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    1. Achei que o Obama revelou um pouco mais de bom-senso nesta matéria. Pelo menos com a Rússia, a política do restart, pareceu-me muito positiva. Só espero que não metam agora um parecido com o anterior presidente.

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  2. Tema interessante.Boa dica,mas não é meu estilo preferido,rs. beijos,linda semana!chica

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  3. Nossa, Ruthia, não sei se conseguiria ler esse livro... é realmente muito forte...
    Acredito que Bush continue se sentindo 'poderoso' ao ponto de não se envergonhar de suas atitudes e também espero que os EUA não elejam outro 'Bush', mas isso infelizmente não depende de pessoas como nós...resta-nos torcer para o melhor.
    bjs desejando uma semana iluminada, com muita saúde, amor e paz!
    tititi da dri

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  4. Olá flor,
    Volteiiii!!! O Lola! já está de volta e todo renovado, venha conferir as novidades, vou adorar sua visita :D

    Ótima semana,
    Beijos Té

    lolaporlola.blogspot.com

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  5. Gostei da crítica literária e não hesitei em pedir o exemplar disponível para troca no site (http://www.winkingbooks.com/wb/!go). Pode ser que também te interesse.

    Gostei também muito do blog.

    Obrigada,
    M.
    http://mafspuzzle.blogspot.pt/

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    1. Eu é que agradeço, Mafalda, pela visita e pelo comentário. Tenho uma amiga que sempre me incentivou a aderir ao bookcrossing mas olha, ainda não me deu para essas coisas...
      Logo que possa, vou explorar o teu cantinho também
      Beijinho

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  6. Olá...Grata pelo convite, e é sempre muito bom fazer amizades e acima de tudo muito bom cultivar e fortalecer.
    Beijos com rastros de alegria.
    Sol.

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

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