Quentes e boas!

by - 11:42


Outono combina com tapetes de folhas doiradas nos passeios, com dias frescos e ventosos, e com o cheiro de castanhas a assar nas ruas












Hoje é dia de S. Martinho. Pode parecer redundante falar nisso, porque muitos de vocês estarão a comer castanhas. Mas cerca de metade dos leitores d’ O Berço do Mundo são brasileiros a quem a palavra “magusto” nada diz. 

Tenho também um leitor ou leitora assíduo(a) na Califórnia e outro(a) na Rússia – não faço ideia de quem sejam, mas provavelmente não conhecem esta tradição portuguesa.

© Ricardo Ribeiro

Uma vendedora de castanhas, captada pela objectiva do talentoso Ricardo Ribeiro***.

 
Portanto falemos de magustos, que se assinalam sobretudo a 11 de Novembro, talvez para aproveitar o que chamamos de “Verão de S. Martinho”. Este dia honra um soldado romano, de seu nome Martinho de Tours, que regressava a casa quando tropeçou num mendigo gelado. Como chovia muito, o soldado rasgou a sua capa ao meio para agasalhar o pedinte. E, logo de seguida, parou de chover e o tempo aqueceu.

Desde então, a superstição associa alguns dias mais amenos de Outono com a bênção de S. Martinho e celebra-se este Verão inesperado com castanhas assadas, jeropiga (bebida que mistura aguardente e o mosto das uvas em fermentação), água-pé e vinho novo, pois as vindimas ainda há pouco terminaram.

 
 
Os magustos multiplicam-se por todo o país e até na Galiza: fazem-se fogueiras e as castanhas assam nas brasas até as cascas ficarem negras, desfazendo-se sob os nossos dedos, que ficam enfarruscados. E estas castanhas sabem maravilhosamente bem, assim quentinhas

Podem igualmente ser assadas em casa, no forno com sal (depois de levarem um golpe), ou até cozidas. Mas não é a mesma coisa.


Nas brumas do tempo















Aproveitando o dia soalheiro – o S. Martinho honrou o seu nome este ano – fui conhecer a aldeia medieval de Santa Maria de Porto de Vide (concelho de Pinhel, distrito da Guarda), vulgarmente conhecida como “Bogalhal Velho”.

Completamente perdida nas brumas do tempo, a aldeia fica num cabeço de granito, com uma paisagem magnífica circundante, sobre o vale de Ribeira das Cabras: provavelmente apenas elas e os caçadores deambulam por aqueles caminhos.



Da aldeia medieval já pouco resta, destaca-se o esqueleto do que se supõe ter sido uma igreja, também ela quase engolida pelo matagal. Outros vestígios sugerem uma casa, um muro…








Segundo uma lenda local, os moradores abandonaram o Bogalhal Velho, mudando-se para a actual freguesia, por causa de formigas gigantes que atacavam as crianças. Provavelmente, a povoação perdeu importância, quando as fronteiras com Espanha se fortificaram mais a Este. Ou, quem sabe, haveria mesmo formigas que atacavam os silos, arrasando com as reservas de comida para o Inverno. 

O meu pequeno explorador ficou com o pai no carro, porque o sono o venceu no caminho sinuoso. Portanto, faço o trilho sozinha, subo aos penedos mais altos e olho deliciada a toda a volta.


  

Nada ouço, excepto o vento forte que sustenta as asas portentosas do que me parece uma águia. A esta distância, não posso ter certeza, mas estando em território da Rede Natura 2000 é muito plausível que seja uma magnífica ave de rapina.

Absorvo aquele silêncio e aquela paisagem, quem diria que estou a apenas 10 km de uma cidade, e encho os pulmões com esta calma para enfrentar mais uma semana de trabalho.

video






*** Quem quiser conhecer outros trabalhos deste fotógrafo: http://www.facebook.com/ricardo.ribeiro.796/photos_albums ou 
http://ricardojdribeiro.wix.com/ricardo-ribeiro-photos#! (com música do próprio)

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20 comentários

  1. Acho lindo acompanhar as tradições.Aqui não as temos! Meu marido, italiano ,conhece essa tradição! beijos,lindo post! chica

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    1. Uma vez vi aí no Brasil castanhas destas à venda. Custavam "os olhos da cara". Comprei algumas para enganar as saudades mas tinham sido congeladas para a viagem e estavam intragáveis...
      Beijinho querida

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  2. Hum... que saudades de castanhas!!... do magusto e desse cheirinho a campo! :))
    Bjs e boa semana!!

    http://hiimab.blogspot.pt

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    1. O Outono ainda traz alguma nostalgia, as castanhas, as folhas a cair... mas quando o frio chegar a sério.... só vou sonhar com o Brasil :)
      Beijinhos para a família

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  3. Oi Ruthia, não conheço esse tipo de castanha, mas parece ser muito boa... a plantinha vermelha é azevinho? me pareceu!
    mais uma vez, obrigada pela maravilhosa aula de história da humanidade...é um prazer enorme ler teus posts!
    bjs, amiga, desejando uma ótima semana
    tititi da dri

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    1. Acho que a castanha é típica da Europa do Sul, Dri. Em relação à plantinha vermelha tb pensei inicialmente que seria azevinho que, como sabes, está em vias de extinção, mas a folha é muito diferente. Deve ser outro tipo de baga qualquer....
      Beijos, mil

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  4. Ruthia,
    Sou portuguesa, mas desconhecia a história do “Verão de S. Martinho”. Gostei de conhecer a razão de ter comido castanhas assadas (em casa, mas nas chamas da lareira) que a minha família preparou no domingo. "É tradição" disseram, mas nada mais sabia.
    Quanto ao seu passeio, uma das coisas que mais gosto neste país é a possibilidade de "mudar de mundo" em poucos quilómetros. Sentir-nos levar pelo ar de uma aldeia como a do “Bogalhal Velho” e viajar no tempo e no espaço apenas a alguns passos da uma vida feita de multidão e tensão.
    Beijinho!
    Dulce

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    1. Que engraçado, normalmente as famílias que ainda mantêm a tradição de assar castanhas na fogueira sabem uma data de provérbios acerca do S. Martinho, do tipo "em dia de S. Martinho, come castanhas e prova o vinho" (porque o vinha está acabadinho de fazer) ou então "Verão de S. Martinho dura três dias e mais um bocadinho"...
      Mas estamos cada vez mais urbanizados. E praticamente só no interior desertificado é que ainda é possível este alheamento e silêncio total que senti no "Bogalhal Velho".
      Beijinho querida

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  5. Também adoro a castanha assada, ou cozida, ou no forno como acompanhante de uma bela carne. A jeropiga tambem gosto, muito docinha :)
    Quanto a esse sitio fiquei com a curiosidade de visitar, e com as cores de Outono, deve ser lindo. Fica aqui pertinho, vai ficar na lista de locais a visitar.
    Beijoca

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    1. Querida! Seguidora há tanto tempo e esta é a primeira vez que comentas. Que feliz que fiquei :) Também gosto das castanhas em assados. Se vieres para estes lados, avisa. Se eu estiver por cá, marcamos um lanchinho e os nossos terroristas conhecem-se!!
      Beijos, mil

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  6. Eu gostaria muito de conhecer Portugal, terra de minha familia paterna. E mesmo assim, por mais que ele tivesse contado tantas historias, poucas conheço. Ler os blogs dos amigos portugueses é uma viagem à cultura de um dos países mais antigos do mundo.

    Beijos

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    1. Acho que até já há um nome para esse tipo de turismo, chamam-lhe turismo geneológico, não é fantástico? E os brasileiros parecem ter uma costela de cada canto do mundo....
      Se vier, não deixe de me avisar, promete?
      Beijinho

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  7. Aqui no Brasil tem uma empresa que produz castanhas assim na hora e eles possuem carrinhos pelos shoppings e ficam lá fazendo e sempre saem quentinhas e vem aquele cheiro maravilhoso no nariz que é irresistível rs!!
    Vendo essa imagem dela hem produção na panela me veio isso na hora na cabeça hahaha :D

    Beijos

    lolaporlola.blogspot.com

    Instagram: stephanieparizi

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  8. Ruthia,que beleza de postagem!Adorei saber mais de São Martinho,que linda história!Quanto às castanhas lembro de minha avó que era portuguesa e amava castanhas!No Natal não podia faltar!Lindas as tuas fotos e tb o video!Que delicioso silencio!bjs e meu carinho,

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  9. Uma postagem (mais que) completa!
    Começando pelas castanhas assadas - achei óptimo que tenhas abordado o assunto já que, se para nós é rotineiro, não o é para os não portugueses.
    E, sem dúvida, as castanhas que se compram nos "vendedores" são as melhores de todas!

    Gostei muito do passeio que nos relatas desta vez.
    Eu também gostava muito de passear por locais assim, e fi-lo várias vezes, enquanto o meu companheiro podia acompanhar-me...

    Tudo de bom, minha querida.
    Beijinhos

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  10. Anne e Mariazita muito obrigada pelo carinho. É muito engraçado constatar como algo tão simples como castanhas é desconhecido para uns, outros comem-nas porque é tradição mas sem saber porquê, e até há quem as compre no shopping (o Brasil é realmente um país surpreendente).

    As minhas preferidas também são as que se compram na rua, num pequeno pacote de papel de jornal.
    Beijinhos para as duas

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  11. Ai caramba... Sou uma das brasileiras que muito orgulho tenho de poder ler estes artigos... Mais uma vez... Meus Parabéns!!! Adorei saber a história de S.Martin que muito me aguçou... Um grande beijo!

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  12. Respostas
    1. Olá Nane, seja bem vinda ao Berço. Logo que tenha um tempinho, vou espreitar os seus espaços, já vi que tem dois blogs, com todo o prazer.
      Já esteve em Portugal? O que visitou? Tem raízes portuguesas?

      Muitos beijinhos e espero "vê-la" mais vezes por aqui.
      Ruthia

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  13. Que saudade de Portugal? Preciso visitar o país. Juro que não lembro o gosto do magusto, mas lembro de ter comido na época em que eu morava aí. Lembro também, uma fruta de cor amarela que dava na primavera/verão. Amei o post!

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!