Pinhel: a cidade Falcão

by - 05:31


Por aqui passearam reis, viveram guerreiros, defendeu-se a Pátria. Hoje a pequena cidade ostenta, orgulhosa, um falcão nas suas armas, testemunho de um insigne passado.



As pessoas cumprimentam-se na rua; os mais velhos levantam o chapéu à nossa passagem. O trânsito é pouco e fluido, percorre-se o centro em poucos minutos. E, no entanto, estamos numa cidade. Quem diria que a vida pode ser assim simples?

É verdade que não há muito para fazer num domingo cinzento, como hoje, excepto deambular sem rumo pelas ruas estreitas (passatempo que aprecio particularmente). A muralha medieval entretém-se a jogar às escondidas connosco, revelando-se aqui e ali, por entre casinhas pequenas e quintais. 







Cinco das seis portas ainda estão de pé: a Porta de S. Tiago, S. João, de Marrocos, de Marialva e de Alcavar. Para além da história misturada na sua argamassa, elas encerram lendas que o povo conta, reconta, floreia e enfeita a seu bel-prazer.

Paramos no Largo principal, junto ao pelourinho e à “Casa Grande”. Dizem os populares que este solar do século XVIII, dos condes de Pinhel, foi construído por diabretes porque o mestre pedreiro adoeceu e não foi capaz de carregar os pedregulhos necessários para a obra. Usou então um livro tenebroso, de onde saltaram os servos do demo, que usou como ajudantes…


A Casa Grande terá sido construída por diabretes, tendo 365 janelas e portas,
uma para cada dia do ano.

Deixamos a Casa Grande para trás e iniciamos a subida, rumo às duas poderosas Torres, únicas sobreviventes do primitivo castelo. Tomamos a rua de Santa Maria, cujas casinhas revelam a presença de cristãos novos, expulsos do reino vizinho.
A subida ainda agora começou mas vale a pena fazer uma paragem junto à torre do relógio, enfeitada por um belo galo que anuncia se haverá neve, chuva ou sol (diz este povo de imaginação fértil). O galo com dotes de meteorologista repousa num pequeno pátio, com bancos de pedra e uma farta oliveira, que dará uma sombra deliciosa nos dias de estio.


Várias faces da Torre do Relógio.


Mas hoje chuvisca. Pelo que prosseguimos rumo ao castelo, ou ao que dele resta. O caminho não é longo, tudo em Pinhel é “logo ali”. 

Eis-nos, pois, no Largo dos castelos, onde o olhar alterna entre a Torre de Menagem, com a sua janela manuelina e a verdura de uma árvore vizinha, e a Torre Sul a que acoplaram um café…

Acho que este edifício moderno irritou alguns historiadores mas, pessoalmente e apesar de não ser muito bonito, gosto deste espaço tranquilo, onde se pode beber um chá que é servido com umas amêndoas caseiras, com canela e baunilha, fabricadas por uma doceira local.



O Bar dos Castelos, ao lado da Torre Sul.



Infelizmente o “Bar dos Castelos” está fechado ao domingo, assim como a Torre, pelo que voltarei outro dia para fotografar a paisagem pontuada por oliveiras que se vê lá do alto. A chuva começou a cair com mais força, soprada pelo vento. Que desagradável... parece que estamos no Minho!

Ai cabeça de vento. Quase me despedia sem explicar porque Pinhel é chamada de cidade Falcão. Nos idos medievais, mais propriamente em 1385, os espanhóis batiam em retirada, derrotados na Batalha de Aljubarrota, quando os corajosos pinhelenses capturaram o falcão de estimação do rei de Castela.

Um gesto que o monarca português elogiou, descrevendo a cidade como “Pinhel Falcão, Guarda-Mor de Portugal”. Desde então que o brasão inclui um falcão, vigilante na copa frondosa de um pinheiro. Vitória, vitória, acabou-se a história…


Não nos cruzamos com vivalma, durante quase uma hora.






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21 comentários

  1. Noooossa, que beleza um lugar assim simples, onde a gentileza ainda mora. Adorei ver e passear contigo por lá! beijos,chica

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  2. Que bonita viagem, Ruthia.
    Desconhecia totalmente esta bonita cidade. Por certo, um passeio a fazer num futuro próximo. Adorei a lenda da construção terminada por diabretes!!! :)
    Um abraço!

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  3. Queridas Chica e Dulce, foi mais do que uma visita. É onde estou a trabalhar há meio ano... pertinho da fronteira com Espanha :)
    Beijinhos

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  4. Que bonita a tua "casa" de agora. Tenho mesmo de te ir visitar. Fiquei com vontade de me perder nas ruas medievais. Sabes o quanto gosto disso :D
    Um beijo enorme já com saudades!

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  5. Que lugar lindo!
    E quanta história este lugar tem pra contar...

    Beijão!

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  6. Ruthia, qdo vejo fotos de castelos, casas, lugares medievais, me dá a sensação de que já estive num lugar desse. Sempre me vem à mente momentos subindo em escadas caracóis, buracos nas torres onde se via a paisagem, o horizonte... enfim, coisas de cabeça maluca mesmo.

    O lugar é lindo!

    Beijos
    Lindo fim de semana!

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    1. Quem sabe são reminiscências de uma vida passada? Talvez a Clara tenha sido uma princesa :)
      Beijinho querida

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  7. lindo passeio, quando descreves a cidade, me parece um pouco com a minha, devido a calmaria que existe aqui... na brincadeira falamos que se pode andar nu à noite ou em dias de inverno, a partir do entardecer, bem como no alto de verão se há feriados, pois muitas vezes mais de 50% da população sai em viagens ou se fecha em casa.... amei conhecer mais esse lugar tão lindo, ainda mais através de tuas lindas palavras!
    bjs desejando ótimo final de semana
    tititi da dri

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  8. Que maravilha poder conhecer esse lugar lindo!
    Tão bom saber dessa simplicidade e respeito entre as pessoas. Gostaria de ver isso mais.

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  9. Mais um lindo pedaço do Portugal desconhecido, gostei da reportagem, será que a Ruthia trabalha no Turismo ? É que é uma boa divulgadora destas paragens :)

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  10. Por acaso não, Célia. Sou formada em Comunicação e tenho um mestrado em Estudos Europeus, trabalhei em jornalismo, em comunicação, faço revisão de teses, sou coordenadora de uma Universidade Sénior, mas com turismo nunca trabalhei... mas não digo que dessa água não beberei.O mundo dá muitas voltas!
    Beijinho

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  11. Ruthia,delicioso passeio e adoro essa arquitetura medieval!A impressão é que voltamos no tempo!Linda sua postagem!bjs,

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  12. Há alguns anos, segui eu para Castelo Rodrigo, resolvi fazer uma paragem em Pinhel. Em boa hora o fiz, pois senti-me envolvido pela alma do lugar.
    Quando descia uma rua, após visita à zona do castelo, uma voz interpelou-me. Era Ilídio da Silva Marta, antigo jornalista, e, após constatar o meu interesse pelo que vira, falou-me duma enorme monografia que tinha escrito sobre Pinhel. Convidou-me a entrar na sua casa, e as palavras, na boca dele, eram como as cerejas.
    Quando saí, agora com mais três ou quatro títulos debaixo do braço, um bafo quentinho aquecia-me o coração.
    Excelente post, suscitador de gratas memórias...!

    Beijo :)

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  13. Ruthia, rico passeio de domingo! A ver se lá para o Verão consigo desafiar o meu consorte a dar uns passeios destes ;)
    Beijinhos e bom serão!
    Madalena

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  14. Ruthia
    Me senti viajando com vc! Ótimo texto e até que os diabinhos trabalharam direito fazendo um belo prédio...rs
    Abraços

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  15. Querida, pelas fotos realmente a cidade parece ser medieval rs, como vemos em filme!!
    Adorei :D
    Beijos,

    lolaporlola.blogspot.com

    Instagram: stephanieparizi

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  16. Oi Ruthia,
    Que maravilha poder conhecer um castelo e sua história. Me senti levada através dos tempos. Muito lindo e gratificante.
    Beijos.

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  17. Ruthia, tudo sempre é tão lindo nestes lugares historicos!

    Percebi o que escreveu abaixo da ultima fotografia, sabe, estive numa cidadezinha na Alemanha que tambem não via ninguem nas ruas!
    Era medonho! rsss

    Beijos

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!