Um título absurdo

by - 03:04


Chamar A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata a um livro pareceu-me estranho e inverosímil. Mas, por vezes, o absurdo é inesperadamente delicioso



Por uma destas coincidências estranhas já li, desde o início do ano, três livros que falam da Segunda Guerra Mundial e assuntos afins (holocausto, ocupação nazi, etc). Confesso que não percebi se o cosmos me está a tentar dizer alguma coisa... 

Este tema deixa quase sempre um travo amargo na boca, um pequeno aperto no coração. Mas isso não aconteceu com A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata, que é de uma delicadeza comovente.

Existem, de facto, passagens mais pesadas, como a da transferência de centenas de crianças para Inglaterra porque os alemães estavam a chegar (1942), ou a prisão da corajosa Elizabeth por esconder um escravo polaco, doente e esquelético... Mas, de uma maneira geral, a obra é agradável, tem humor.



Vamos então à história. Juliet Ahston é a personagem principal deste romance que fala de guerra sim, mas também de amizade, de livros e afectos. 

A jovem escritora - por razões que descobrirão no livro - começa a corresponder-se com alguns habitantes de Guernsey, uma das ilhas do Canal que, apesar de estarem muito perto de França (cerca de 15 km), são dependências da Coroa Inglesa, mas que não fazem parte do Reino Unido, nem da União Europeia.

O nome das ilhas, a única parte do solo britânico ocupada pelos alemães na Segunda Guerra Mundial, fez um clique no meu cérebro. Fui à procura da reportagem sobre elas que li há pouco tempo num excelente site de viagens que se chama Alma de Viajante (espreite aqui).




© www.thebayguernsey.co.uk


Um grupo de ilhéus criou uma sociedade literária para enganar os alemães, como alibi para um jantar de porco assado. Mas o que nasceu de uma necessidade, rapidamente se transformou num refúgio, onde nasceram paixões incendiárias pelos livros. 

À medida que lemos as suas cartas  (o livro é epistolar e lê-se num sopro) vamos desenhando os membros da sociedade com traços vívidos e, no final, poderiam ser nossos conhecidos ou vizinhos: o discreto Dawsey Adams, o jovem Eli que adora esculpir madeira e o seu avô Eben, a linda sexagenária Amelia e também o guloso Will Thisbee que, com alemães ou sem eles, só aparecia nas reuniões semanais se houvesse petiscos...

Ora, num tempo de privações onde tudo faltava, da carne ao sabão, era fácil sonhar com comida mas difícil concretizá-la. Assim, dando provas de uma imaginação impagável, o Will inventou uma tarte sem manteiga, farinha e açúcar que acabaria por emprestar o nome à sociedade literária de Guernsey. De que era feita? Puré de batata para o recheio, beterrabas coadas para dar um sabor adocicado e cascas  de batata para a base. Priceless!


© www.thebayguernsey.co.uk

Confesso que a minha personagem preferida é a exuberante Isola, que vende vegetais, conservas e elixires "que restauram a fogosidade dos homens" no mercado, sempre acompanhada pelo papagaio Zenobia. 

Tudo nela é grande, do temperamento à estatura, a que se soma um nariz pronunciado, um olho que se desvia para cima, o cabelo desgrenhado, chapéus loucos e xailes roxos. O aspecto mirabolante esconde contudo um coração maternal, que se emociona com as palavras das irmãs Brontë e se apaixona pela frenologia, fazendo medições dos crânios de todos os que a isso se prestam.

A Juliet também não resiste ao encanto dos ilhéus e mete-se num barco para os conhecer. O sol rompe das nuvens para a receber e, ao incidir nos penhascos, fá-los brilhar como prata. "À medida que o barco se aproximava do porto, vi St. Peter Port a erguer-se em frente ao mar numa imensidão de terraços, com a igreja no cima, como se fosse um bolo decorado".


As autoras descrevem bem a beleza de Guernsey: o mar que parece estar cheio de moedas de sol, os campos e os bosques, as mansões da ilha, os dólmenes, os penhascos selvagens, os celeiros estilo Tudor e as casas de pedra ao estilo normando. Como eu gosto de viajar com um livro!

Outra passagem memorável é a descrição da libertação da ilha (a data é festejada anualmente), quando um soldado inglês se apresenta na praia de calças às riscas, fraque, chapéu alto, guarda chuva enrolado e o Times na mão. 

Não sendo uma obra que muda a nossa vida (já não há muitos Steinbeck), A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata vale muito a pena, com a sua escrita despretensiosa e ternurenta. Quando o li pensei com os meus botões "este livro dava um belo filme" e eis que descubro que este já está a ser rodado e a Kate Winslet será a protagonista.

© www.bbc.co.uk. Cerimónia que recorda a libertação das ilhas do Canal.


Resta-me agradecer à Joana, autora d' A Árvore dos Livros, que me ofereceu este livro no Natal, pelos belos momentos que me proporcionou e por fazer a minha wishlist crescer. Não resisto a um destino com história!











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8 comentários

  1. Ainda bem que gostaste minha querida! Quando o li a primeira vez fiquei fascinada com a forma de transmitir um certo humor num assunto tão sério. Achei que irias gostar.
    Um beijo enorme!

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  2. Visitar o seu blog e sempre uma fornalha de cultura! Já faz tanto tempo que não leio um livro pra descontrair que já é quase uma vergonha dizer isso :) Adoro o tema também! Obrigada pela dica! Beijosss

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  3. Tendo de o ler! Que tarte suprema ;)
    Beijinhos, boa semana!
    Madalena

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  4. oi minha amiga querida,amei saber deste livro, que me deixou curiosa e ansiosa pelo filme.... como sempre, escreves de maneira linda, que nos deixa a salivar de vontade de 'viver' o que está a nos indicar, parabéns
    aproveito pra te desejar uma semana com muitas realizações, repleta de felicidade,amor, saúde e paz.
    bjs
    tititi da dri

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  5. Mas que livro interessante deve ser!Gostei muito de sua dica!É o tipo de romance que gosto tb.Bjs e boa semana,

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  6. Eu gosto de dicas de leituras que realmente valham a pena, e se ao ir lendo vc pensou que daria um bom filme, significa que é cativante a leitura :D
    Tenha uma ótima semana querida!!
    Beijos,

    lolaporlola.blogspot.com

    Instagram: stephanieparizi

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  7. Não li ainda, mas a julgar pelas tuas apreciações, vale mesmo a pena.
    Minha querida amiga, tem uma boa semana.
    Beijo.

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  8. Fizeste uma bela apresentação ! Deve ser lindo mesmo! FEliz nosso dia amanhã! beijos,chica

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!