Templos do Mundo 6: creepy chapel

by - 08:43




Porque acho as trilogias fantásticas e porque não queria deixar Faro sem falar de uma capela muito particular, eis-nos com mais um episódio sobre Ossónoba (adoro este nome, transporta-nos para cenários exóticos e quentes, não acham?)...

Rumamos ao centro da cidade, através de labirínticas ruas de sentido único, até ao Largo do Carmo, onde se ergue orgulhosa uma ampla igreja, de seu nome Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo ou, porque este demora milhões de anos a dizer, apenas Igreja do Carmo. A simplicidade é tudo!

A Ordem Carmelita descreve-a da seguinte forma: “é um edifício notável da cidade (…) constitui uma das mais importantes manifestações estéticas do património religioso e artístico da região algarvia (…) No interior, a talha dourada assume um importante papel na decoração da igreja (…) Merecem destaque no interior do edifício o órgão barroco, a ornamentação da sacristia (…)”.

Quem vem do Minho, onde os santuários nascem como cogumelos em cada esquina, e estudou em Braga, onde se concentram os grandes mestres de talha dourada, acha esta descrição um tanto ou quanto exagerada (chamemos-lhe marketing). E, contrariamente à minha natureza, estou a ser muito razoável.





O órgão barroco parece um brinquedo de corda, para quem já viu (e ouviu) o órgão da Sé de Braga… A talha de estilo joanino é esteticamente agradável, mas nenhum assombramento. Mas adiante. O que merece destaque nesta Igreja algarvia do século XVIII fica no seu quintal traseiro e chama-se Capela dos Ossos.

Como o nome indica, a pequena capela é completamente forrada de ossadas humanas, sobretudo crânios e tíbias. Diz-se que ali repousam os restos de mais de 1200 monges carmelitas, seguindo uma sinistra moda que pretendia sublinhar a efemeridade da vida.


Em miúda estive noutro espaço do género, a famosa Capela dos Ossos de Évora. Embora guarde uma recordação muito esbatida dessa visita, não podia esquecer o célebre aviso à entrada: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. Lembro-me também que o tecto não tinha ossos, era de estuque e tinha belas pinturas (ainda que de inspiração igualmente mórbida).

Mas aqui os ossos rodeiam-nos por todo o lado, não consigo evitar pensar que um crânio pode cair como um fruto maduro… Aliás, já faltam alguns, lá em cima!






Para além de que o solo está repleto de sepulturas. E o espaço é pequeno, não fosse a pequena entrada, estaríamos presos num mausoléu. Confesso que esta capela mexeu comigo do tipo “irra que estou rodeada de morte” e tive que sair dali rapidamente.

Já o meu pequeno explorador não se mostrou minimamente impressionado, perguntou se aquilo eram "cabeças de pessoas", ao que respondi afirmativamente, e ele assentiu como se fosse um facto corriqueiro e comum.





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Querem recordar outros templos desta rubrica? Entretanto, prometo que o próximo post será muito mais alegre. Beijinhos.
“Antes de deixarmos a cidade dourada, visitemos as suas Catedrais. No plural. Porque a cidade tem duas. A Nova, gótica, renascentista e barroca, altíssima, que nasce e cresce a partir da outra, mais antiga e modesta.
Modesta mas forte. Devido à grossura dos muros, foi usada como abrigo anti-aéreo durante a Guerra Civil de Espanha. Até o general Franco ali se refugiou.”






“(…) Hoje, tropeçamos noutro templo imponente, sede de bispado, que demorou vários séculos a construir numa cidade fria (a Serra da Estrela está muito perto).
Antigamente era assim, a arte dos canteiros demorava o seu tempo, os arquitectos estavam sempre a fazer alterações. Os reis, esses, o mais certo era morrerem antes de verem terminada a sua encomenda (…)”



“Contrastando com a majestade dos primeiros monumentos destacados nesta rubrica dos Templos do Mundo, hoje trago até vocês, queridos leitores, uma humilde capela, pequena, despida, singela.
Chama-se Capela de S. Miguel do Castelo, ou simplesmente Capela de S. Miguel, é monumento nacional desde 1910 e fica na minha querida cidade – Guimarães. Construído no século XII, este simples templo românico carrega um forte simbolismo: reza a lenda que aqui foi baptizado D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal.”

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20 comentários

  1. Ora aí está um local interessante ;)

    Beijo grande!

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  2. Nooooossa, que coisa isso! E gostei de ver a naturalidade do teu pequeno explorador,rs Bom isso,né? beijos,chica

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  3. Ruthia,
    Achei meio sinistro... já tive ocasião de visitar templos desse tipo, se bem que não este que nos descreves, e admito não ter gostado muito...
    Porém, a visita parece interessante a nível arquitectural!
    Beijinhos!

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  4. Ruthia, descobres coisas lindas e interessantes... amei a naturalidade do teu filhote... adoro conhecer igrejas, catedrais.... fiquei horas a admirar a catacumba da catedral de Colônia na Alemanha... o cheiro, os restos mortais que contam suas histórias, os jazigos.... tudo é história, tudo é cultura!! obrigada por mais esse passeio maravilhoso
    bjs
    tititi da dri

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  5. Bem Ruthia, estás no caminho certo para criares um roteiro turístico do Algarve cultural! O post está super completo sem ser chato! Eu também estive na capela dos Ossos em Evora e é impressionante. O obejctivo desses monges dizem era mesmo esse: fazer as pessoas penarem sobre a insignificância da condição humana. Se um dia quiseres fazer um post só sobre talha dourada deves ir à Igreja Francisco de Assis no Porto e aí garanto-te que vais ver o que é impressionante. Beijos continua assim!

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  6. Olá!
    Não sou adepta desses lugares macabros, mas confesso que na minha juventude visitei a capela dos ossos em Évora! Pensei que era tipo único em Portugal! Afinal enganei-me e hoje descobri que existe outra do género em Faro. Quando for a essa cidade o meu roteiro será outro...tenho a certeza.
    Abraços .
    M. Emília

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    1. Olá Maria Emília, seja bem vinda a este grupo de amigos.
      Digamos que a capela dos ossos não foi o meu lugar preferido em Faro, mas achei-a curiosa, porque afinal parece ter havido uma "moda" mórbida de enfeitar templos com ossos lá para o século XVII-XVIII :a. Existem outras capelas do género perdidas por aí...
      Um abraço e até breve

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  7. OI RUTHIA!
    LEGAL TEU POST,MUITO BEM DESCRITO, AS FOTOS SÃO LINDAS E É INTERESSANTÍSSIMA ESTA CAPELA DOS OSSOS,DA QUAL JÁ HAVIA OUVIDO FALAR.
    TEU COMPANHEIRO DE EXPLORAÇÕES, ESTÁ SE SAINDO MUITO BEM.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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    1. Lani, o meu pequeno explorador é um companheiro de aventuras fantástico!!! Ver o mundo com os seus pequenos olhos é maravilhoso.

      Só temo que, quando crescer, ache que andar com a mãe não é nada "cool". Será que vou ser uma sortuda e ele não vai passar por essa fase? Só o tempo o dirá.
      Beijos, querida

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  8. Ruthia... eu não entraria numa capela cheia de ossos... sou bem sensível pra isso. Acho medonho demais! Não sei, acharia o clima bem pesado. Será? Coisas da antiguidade.
    Essas capelas são magníficas de tão lindas! Essas outras sim, amaria conhecê-las!
    Belíssimo post, aliás, todos belíssimos!

    Uma linda semana, beijos

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    1. É um pouco mórbida sim, Clara. Eu achei e não sou uma pessoa demasiado impressionável...
      Beijinho, uma linda semana para si também

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  9. “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”? Apre... que acolhedores...
    Quem foi que, esta semana, ao folhear um guia da Visão sobre espaços termais, deu por si a ler um texto maravilhosamente escrito da menina? Ah, pois, fui eu! ;)
    Beijinhos!

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    1. A sério? fazes colecção de Visões antigas, é? Porque o texto sobre as Termas de Monfortinho que escrevi para a revista já tem alguns anos...
      Beijoca linda

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  10. Gente, o que são essa paredes Ruthinha?! Fiquei com um pouco de medo, mas acho que estar lá deve ter sido incrível hem. Mas me conta, o que sentiu?! Eu acho que ia ficar com a sensação que tinha almas me olhando e seguindo kkkkkk.
    Beijos Té
    bloglola.com.br

    Instagram: stephanieparizi

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    1. Como me senti? Ai, no mínimo inquieta e desconfortável. Não consegui permanecer no interior muito tempo, Té...
      Beijoca querida

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  11. Ruthia, concordo com o que vc disse sobre o calor e exotismo que se desprendem da palavra Ossónoba.. Estive a pensar sobre o SEU nome, em como será a pronúncia no português falado em Portugal. O "u" é tônico?
    Eu estive em Évora e acho que fiquei mais impressionada com a inscrição que vc mencionou do que com os ossos propriamente... rs
    Obrigada pelos comentários super bacanas no minasdemim! Assim como pela companhia e amizade.
    Ótimo final de semana!

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    1. Não tem que agradecer, Jussara. Adoro pessoas inteligentes. Até enviei o link do seu último post para uma amiga minha, que escreve poesia e é bastante insegura em relação ao seu trabalho.
      Beijinho querida

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  12. Quanto à Capela dos Ossos, é linda e horripilante (ao mesmo tempo).

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  13. Nossa, é bem creepy mesmo! rs Não sabia desse daí, mas de longe a de Faro parece até bonitinha, a de Évora é feia...

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!