Da ausência

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No Museu Grão Vasco, em Viseu.


A noite passada foi difícil. O Pedrinho tinha o corpo quente e gemia. Ele raramente fica doente, nisso sai a mim. Tampouco se queixa, mesmo a tremer com febre. Apenas quando adormece, o corpo deixa escapar o lamento. Fiquei muito tempo a velar-lhe o sono na semi-escuridão, a medir-lhe a temperatura, a sussurrar que "vai ficar tudo bem", até o ibuprofeno fazer efeito. Com o coração em sobressalto.
A noite passada foi difícil porque não tinha com quem dividir a preocupação. Não estava nos nossos planos esta distância familiar. Não estava nos nossos planos o pai trabalhar noutro continente. Chorei na hora de dizer adeus. Nunca fui boa com despedidas.
Agora esperamos. O verbo esperar torna-se tão imperativo como o verbo respirar. A vida transformou-se numa contagem decrescente até o próximo encontro. Ele pouco fala do que vive lá, em África.
Há outros dias difíceis, quando o Pedro chora lágrimas de frustração porque o Skype cai repetidamente, tornando impossível a conversa diária. Quando me chama de madrugada e salto desorientada da cama, batendo contra uma porta ou uma parede, na pressa de o confortar.
Relembro-me, pela milésima vez, que eu sou aquela formiguinha, incansável e guerreira, que consegue sempre cuidar de tudo e todos. Coloco uma moeda debaixo da almofada do Pedro e guardo um dente pequenino, o segundo que lhe cai. Porque mesmo quando a ausência pesa, a fadinha dos dentes tem que ser pontual.
Os meus dedos percorrem novamente o calendário. Faltam 41 dias.
 
 
 

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14 comentários

  1. A ausência é sentida e Pedro dá mostras!! Que passem logo os dias! beijos,tudo de bom,chica

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  2. Que a ausência seja logo compensada com muitas alegrias e felicidade. Melhoras para o Pedrinho! Abraços querida!

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  3. Ruthia,
    Emocionou-me esta sua publicação. Primeiro, porque são raras estas suas confidências. Em seguida, porque sei bem como é...
    Passem rapidamente esses 41 dias para que venha o abraço e o reconforto!
    Beijinhos!

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  4. ai, querida amiga, faço ideia do que sentes, pois aqui, o marido/pai não viaja, porém como tem sono pesado, eu é que tomo as rédeas (noturnas), sobressaltando a cada suspiro diferente, a cada movimento intenso para verificar se é dor de crescimento - e isso tem quase todas as noites, pois o Ali não para de crescer - como consequência, passa a noite a 'se rebolar' na cama eu eu pulo, pensando se não está passando mal (ele é dado a mal estares gastronômicos) ao ponto de acordá-lo para saber se é a famosa dor do crescimento ou enjoos... e assim já se vão alguns anos, com noites em que durmo 3, 4 horas e olhe lá... ,mas é com amor de mãe que o faço, e no amanhecer me sinto revigorada ao ver o rosto lindo de meu filho, sempre sorridente... que teu marido venha logo para casa, dona formiguinha, para dividir contigo a labuta diária!!! E que o Pedro se recupere rapidamente do mal estar que o acometeu!! bjs desejando saúde, amor e paz a esta família que já sinto como se fizesse parte da minha!! tititi da dri

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  5. Ruthia,
    Fiquei emocionada tambem! Senti-me no seu lugar.
    Desejo que o Pedrinho fique bom logo.
    Quando minha filha era menor, eu evitava dar ibuprofeno à noite, pq ficava meio agitada para dormir.

    Emprestarei meus dedos para que possa contar mais rapidamente os dias ....
    Vai falando com a gente!

    Bjs

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  6. Tempos dificultosos estes que te ladeiam, Ruthia.Imagino o quanto te custa trazer a energia para cada novo dia e dela fazer remanso acolhedor das horas.
    Que os dias passem velozmente.Melhoras para o Pedrinho.
    Paz e Bem!
    Bjos,
    Calu

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  7. Ui, está quase, formiguinha linda!!!
    Força aí e melhoras ultra-rápidas para o Pedrinho!
    Beijocas ;)

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  8. Dos 41 dias já só faltam trinta e tal. O tempo passa depressa, Ruthia.
    As melhoras do Pedrinho!

    Beijo :)

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  9. Querida Ruthia
    Lamento a doença do Pedrinho que, espero, já deve ter passado..
    As crianças reagem e recuperam muito mais depressa do que os adultos.
    Mas enquanto não passa...passamos nós aflições, bem sei. Com três filhos, que também foram pequeninos :) e nove netos... já tive a minha conta de dores de cabeça.

    As separações são sempre dolorosas. Passei por tantas!
    Mas... vê o lado positivo. o regresso é uma GRANDE festa, uma alegria que só quem a vive sabe avaliar.
    Vai correr tudo bem, tenho a certeza (e olha que eu tenho uma bola de cristal... )

    Uma noite feliz.
    Beijinhos, querida.

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  10. Meus amigos, agradeço do fundo do coração o apoio e carinho de todos vocês. O Pedrinho está bem melhor e os dias continuam a escoar-se do calendário. Um abraço

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  11. Amei esse texto cheio de emoção, Ruthia! Da mulher que se divide entre a força da formiguinha guerreira - que garante as proezas da fada dos dentes - mas que se permite a ansiedade da espera ao contar os dias no calendário.
    Muitas melhoras ao Pedrinho!
    Abraço,
    Jussara - minasdemim

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  12. Eita Ruthia!
    Nada como a dor da saudade, ainda mais quando o pequeno adoece e tem de se enfrentar o revés solitária, sem ter com quem compartilhar.
    É doloroso bem sei, ao tempo que fortalece, continuas a ser forte e suportar a distância.
    Mas... o tempo voa e logo os dias passarão quando menos esperares, estar´s com seu companheiro ao teu lado.
    Força e fé amiga e tomara que o Pedrinho já tenha se recuperado.
    cheirinhos
    Rudy

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  13. A ausência é mesmo um estado de vazio.
    Que os dias passem rápido e que a paz esteja a lhe rodear.
    Paz e saúde na família.
    Um abração.

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  14. Querida Ruthia
    Comoveu-me!
    Sei bem o que é a situação que está a viver! Só que, no meu caso, foi por motivos diferentes.
    Já faltam menos de 40 dias, porque ando atrasada nos meus comentários.
    Desejo rápidas melhoras ao Pedrinho .
    Agora, ter familiares a trabalhar no estrangeiro, acontece em todas as famílias!
    A minha filha está a 600 Km de mim!
    Muitos beijinhos para si e para o Pedrinho,com votos de que o Skype funcione sempre bem.
    Beatriz

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!