As lições de Oujda

by - 07:30


A Argélia ali ao lado.

Oujda não é um profeta, guru ou filosofia New Age. Trata-se simplesmente da cidade mais próxima de Saïdia, onde recuperamos energias durante umas curtas férias. Chamam-lhe a capital do Marrocos oriental mas, afinal, é uma urbe modesta em património e dimensões.

Alimentei planos para visitar Fez, mas o percurso (5 horas para cada lado) desencorajou os turistas. Oujda que seja, então! 

As cidades pertencem aos árabes que, afinal, representam apenas 20% da população marroquina. A maioria berbere (cerca de 70%) prefere as inóspitas montanhas. Portanto, esta excursão serviu sobretudo para o pequeno explorador tomar contacto com a cultura árabe, ainda que um tanto liberal.

Fizemos a primeira paragem muito perto de Saïdia, para espreitar a Argélia. Um fio de água separa os dois países mas, por causa de atritos políticos na região do Sahara, há muitas famílias separadas que não podem atravessar a fronteira e se deslocam ali, simplesmente para se verem. 

"Quando os políticos não se entendem, o povo é que paga", atira o guia no seu espanhol macarrónico. Muitos portugueses concordam com ele, estou certa!


À porta dos banhos ou hamman (cima, dir.), o moderno aeroporto de
Oujda (baixo, dir.) e as flores que dão origem ao óleo de argan (baixo, esq.).




Seguimos para Oujda, onde o Pedro viu mulheres com o cabelo escondido sob coloridos lenços. Soube que as mulheres que vestem branco absoluto são viúvas. Achou piada às torres das suas “igrejas”, porque estavam carregadas de ninhos de cegonhas, alheio à elegância arquitectónica das mesquitas. Percebeu que não podia oferecer os seus biscoitos aos meninos, porque estavam no Ramadão, ainda que este sacrifício lhe tenha causada estranheza.

Nós, adultos, também os comemos (os biscoitos) à socapa. Não queríamos desrespeitar as pessoas, durante a sua festa mais sagrada. Kareem Ramadan!

Oujda não é uma cidade turística. Leio-o no olhar escandalizado dos habitantes, sobretudo das mulheres, para os nossos braços nus. Na verdade, algumas estrangeiras exageraram, com os seus calções apertados até ao útero. Mas os olhares são mais de surpresa do que de acusação.








A visita começou pela medina, com as suas lojas de kaftans, o bazar onde se vende carne de camelo (850 dirhams o quilo = 8,5€), sapatos e todo o tipo de quinquilharia. Infelizmente o hamman está fechado, mas temos oportunidade de conhecer um riad, que o Município aluga para casamentos. 

Por fim, paramos numa espécie de botica onde nos apresentam o “ouro marroquino”, como é conhecido o óleo de argan, e outros produtos naturais a um preço exorbitante.

No regresso, o Pedrinho aponta os grandes cartazes do rei Mohammed VI, que se repetem na recepção dos hotéis, na fachada de fábricas de edifícios públicos, no interior das lojas… 

-"Quem é aquele senhor?", pergunta.
-"O rei de Marrocos", respondo-lhe.
-"Está em todo o lado", observa ainda.
-“Tem um grave problema de auto-confiança”, resume o Miguel.


O interior do riad de Oujda.

À entrada da medina de Oujda.

O rei Mohammed VI (em cima) e gasóleo contrabandeado da Argélia
(não recomendado a carros electrónicos, em baixo, dir.).


Este simples passeio revelou as ambiguidades de um país que é islâmico mas que fabrica vinho e contrabandeia gasolina da Argélia (os garrafões estão bem visíveis, alinhados à beira da estrada, como quem vende melões).

Um povo do continente grandioso, mas que se gaba da sua pele clara e chama “africanos” a todos os que tenham um tom mais escuro. Esta breve incursão a Oudja expôs, por fim, os sorrisos abertos e curiosos de um povo acolhedor.



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20 comentários

  1. Acho que seu pequeno explorador aprendeu muito sobre o respeito que se deve ter para com uma outra cultura. Mas carne de camelo ??? Bahhhhhhhghg....

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    1. Haha, muito apreciada e muito cara, Marta. Com direito à cabeça do camelo exposta junto da banca da carne (sem qualquer refrigeração, claro). Pena que não tirei uma foto!

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  2. Estas culturas deles são demais.
    Parabéns pelo excelente roteiro, como sempre.

    Abraços

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  3. Ruthia querida,
    Que viagem fantástica fui com vocês!!!
    Lindo lugar a oportunidade do Pedro conhecer a história in loco é para poucos exploradores, mas a melhor foi a inocência de prestar atenção ao ninho das cegonhas, arquitetura???
    Não tem problema ele aprende depois né?
    Bjs
    Elaine

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  4. Incríveis experiências essas que vocês viveram e proporcionaram ao Pedrinho! Lindas fotos, bom saber de lá por vocês! Gostei! bjs,chica

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  5. Viajando com os posts! O Marrocos sempre esteve na minha lista de desejos, mas vou sempre adiando. Depois da novela O Clone esse desejo só aumentou.
    Abraços

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  6. Acho instigante visitar-se culturas um tanto diferente das nossas.A riqueza de contrastes dispara a curiosidade e acrescenta mais conhecimento e respeito pelas diferenças.Pedrinho teve experiências inesquecíveis.
    Viajei com vcs nas belas fotos.
    Um abração, Ruthia.
    Calu

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  7. Ruthia,

    O seu filho é um grande companheiro.

    Que fantastico o teto do riad de Oujda.

    Bjs

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  8. OI RUTHIA!
    FOTOS LINDAS E LUGARES MARAVILHOSOS, UMA EXPERIÊNCIA E TANTO NÉ AMIGA?
    O PEDRO ESTÁ ARMAZENANDO MUITO CONHECIMENTO E ISTO LHE VALERÁ MUITO PARA O FUTURO.
    ABRÇS

    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  9. Imagens belíssimas e quantas curiosidades nessa terra estranha, costumes diferentes! Deve ter sido mágico! bjs,

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  10. Que viagem! Lindo o Marrocos! Essa cidade eu nunca tinha ouvido falar dela. Adoro conhecer e saber dos outros paises pelos olhares dos blogs que visito. Amei as fotos que postou. E essas guerras quem sofre mesmo são o povo! Que chato, né?
    Beijos
    Adriana

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  11. Eu ainda não conhecia essa cidade, mas com essa aulinha, me parece ter sido um passeio um tanto interessante e de grande aprendizado, né Ruthinha?!
    Agora jura que o óleo de Argan ai é caro?! Eu pensei que fosse mais em conta que nos demais lugares rs!!!
    Bom fim de semana amiga :)
    Beijinhos, Té
    www.bloglola.com.br

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    1. Os guias levam sempre os turistas aos "institutos" oficiais, onde provavelmente recebem uma comissão sobre as vendas, e tudo é muito caro. Aconteceu o mesmo no Egipto, onde fomos visitar oficinas de alabastro, perfumes e papiro. Apaixonei-me por um papiro com o rosto da Nefertiti e não comprei porque era caro demais e depois fui encontrar um igualzinho por 1/4 do preço, no grande bazar do Cairo...
      Suponho que o óleo de argan seja mais barato noutros lugares de Marrocos, mas como não ligo muito a essas coisas, não procurei!
      Bjs

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  12. Uma viagem e tanto! Todos aproveitam, mas, o jovem Pedro aproveita muito mais...A arquitetura e os costumes, são bem interessantes. Sempre tive desejo de conhecer o Marrocos. Vejo os documentários e fico fascinada. As imagens estão lindas, principalmente as que têm a família em cena.
    Um beijo, Ruthia, bom final de semana.

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  13. Querida Ruthia
    "Dessa" África conheço muito pouco, estive em Tânger há muitos anos, e uma outra cidade para esses lados.
    É uma cultura completamente diferente da nossa, e aí reside o maior interesse - isto é o que penso, pois gosto de conhecer coisas fora do comum...
    Gostei imenso de ler toda esta descrição. Para o Pedrinho são experiências fantásticas e enriquecedoras.

    Obrigada pelo teu comentário, que me comoveu...

    Bom fim de semana.
    Beijinhos

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  14. Nunca fui a Marrocos, aqui tão perto...
    Gostei da tua reportagem. Bem escrita e sublinhada pelas fotos.
    Querida amiga Ruthia, tem um bom fim de semana.
    Beijo.

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  15. Amigos (as)guardo no fundo do coração.
    Num cantinho bem especial.Nesse dia do amigo.
    Sinta - se abraçado (da)por mim.
    Eu ainda não consegui decifrar..
    Porque pessoas que amamos vão embora
    sem ser possível dete-las.
    E também não conseguimos
    do nosso coração.
    Meu abraço nesse dia e por todos os outros dias
    da minha vida.
    Fique com Deus.
    A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
    duram uma eternidade.
    Amigos Para Sempre.
    Evanir.

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  16. Olá Belo post.
    Um passeio ou uma viagem sem sair de casa.
    Adorei conhecer.
    janice.

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  17. Que belo passeio, minha querida! Aposto que o pequeno explorador aprendeu mais do que aprenderia em tantas aulas.. rs
    Abraço!

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  18. Querida Ruthia
    Gostei imenso da sua visita guiada!
    Lindas fotografias e boas explicações.
    Já conheço a Tunísia ,mas nunca fui a Marrocos.Outros tempos! Pelos vistos,neste momento,não será seguro ir até lá!...
    Obrigada.
    Um beijinho
    Beatriz

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!