A aliança

by - 15:14


Não vai há muito tempo, durante umas curtas férias do Miguel em Portugal, falávamos da banalização dos assaltos em Luanda, onde ele está a trabalhar. O meu marido tentava talvez, no meio de uma conversa casual, pôr-me de sobreaviso. Preparar-me para um acontecimento que lhe parecia provável. Ou mais do que isso, uma ocorrência inevitável.




- Se for assaltado, o mais certo é roubarem-me a aliança - disse, enquanto a rodava no dedo.

- Achas que é mais seguro tirá-la?  - levantei a hipótese por razões de segurança. Não me imagino sem este singelo anel doirado... adoro o seu significado. E acredito que ele se sente igualmente "despido" sem a aliança no anelar esquerdo.

- Não disse isso. Disse que é provável que, sendo assaltado, me levem a aliança - replicou, com um encolher de ombros.

- Diz ao ladrão que mais vale dar-te um tiro, porque se apareceres sem a aliança, a tua mulher fuzila-te de qualquer maneira...

Rimo-nos os dois deste enredo, que afinal é tudo menos ficção. Ontem o Miguel foi assaltado em Luanda, numa luminosa manhã (perto do meio dia) e numa rua movimentada. Ninguém fez um gesto para o ajudar ou chamar a polícia. Continuaram nas suas vidas, baixando os olhos para não verem aquilo que se passava à sua frente.


© http://africarori.blogspot.pt 
Longe de Luanda, o perigo é menor e as paisagens deslumbrantes. 
Eis as cascatas de Kalandula, na província de Malange,  que o Miguel adorou.


O ladrão mostrou-lhe a ponta de uma arma, perguntou-lhe se tinha filhos. Provavelmente já vislumbrara a aliança.

- Tenho mulher, tenho um filho, não quero problemas - estas palavras, mágicas, acalmaram o assaltante.

- Se queres voltar a ver o teu filho, faz o que te mando.

Levou-lhe o telemóvel de serviço, conduziu-o ao multibanco e seguiu adiante, com o dinheiro. O episódio teve um desfecho feliz porque ninguém se magoou. Apesar dos estrangeiros serem um "alvo de estimação", apesar de as armas serem tão banais como batata-doce assada, apesar dos transeuntes desviarem o olhar... ninguém saiu ferido.

Acho que a aliança (que continua macia e doirada no dedo, como no dia em que foi colocada, há oito anos atrás), foi um sinal para aquele ladrão. Um indício de que aquele seria um assalto tranquilo porque, ali diante dele, estava alguém com muito a perder.

E este é o significado que eu adoro, contido na única joia que uso. A aliança significa FAMÍLIA, a única riqueza pela qual vale a pena  viver.



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23 comentários

  1. Este planetinha está cada vez mais perigoso. Ao andar pelas ruas de algumas cidades, fico pensando que devíamos ter um espelho retrovisor em cada ombro...

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  2. Puxa vida!!Achamos que é só por aqui!1 E eu também uso apenas a aliança e a valorizo pelo significado enorme que tem! Que bom que acabou bem .Pena a indiferença , creio por estar tão banal esse acontecimento, ninguém mais se envolve! Pena! bjs,chica

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  3. Que aventura!
    Graças esta tudo bem, Deus proteja sempre!

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  4. Belo texto, minha querida! De um episódio desagradável (que, graças a Deus, teve um desfecho feliz) você consegui tirar um lindo significado.
    Grande abraço!

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  5. Luanda, Nigeria, algumas cidades italianas, Rio de Janeiro.... o descaso das autoridades é tão notavel que é para dar graças a Deus ser assaltado e não inclusive assassinado. Lamento o que aconteceu com ele.

    Bom, neste domingo desejo um Feliz Dia dos Pais para seu marido e que comemorem com gratidão.

    bjs

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  6. Triste estar num lugar onde ninguém se importa, ninguém se incomoda com o possível sofrimento alheio. Talvez o próprio sofrimento já lhe basta.
    E que bom que o rapaz não foi fuzilado pela mulher linda e ciumenta... rsrsrs
    Ruthia, uma ótima semana! Beijos

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  7. ... e como os desígnios de Deus são insondáveis!

    Bjinhs

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  8. nossa Ruthia, que ruim o fato de ter sido assaltado (sei bem como o é, pois já fui, quando orava em Porto Alegre) infelizmente, nesse mundo tão desumano e cheio de pobreza/miséria, isso já tem se tornado fato comum entre as pessoas.... Graças a Deus, tudo foi almo, sem violência e a aliança, símbolo do amor e da família, continua firme e forte!!
    bjs desejando ótima semana, com muita saúde, amor e paz
    tititi da dri

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  9. Poxa, que chato!!!
    Mas que bom que tudo acabou bem.
    Estamos todos reféns desse tipo de violência.
    Beijos
    Chris
    http://inventandocomamamae.blogspot.com.br

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  10. Nossa amiga, que situação horrível, né?! Mas graças a Deus tudo acabou bem, seu marido com vida e aliança no dedo. Infelizmente estamos todos sujeitos a isso no mundo de hoje :(
    Logo logo tb estarei com a minha douradinha no dedo rs e os ´preparativos vão a mil, todo vapor!!!
    Boa semana Ruthinha!!
    Beijos, Té
    www.bloglola.com.br

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  11. Que susto,Ruthia! Seu marido parece que estava pressentindo! Já não temos segurança nem fora do Brasil,infelizmente! Sinto pelo acontecido. bjs,

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  12. Que coisa! Hoje também na frente da empresa que trabalho teve um assalto que levaram tudo do rapaz mas não fizeram nada. Como a violência está grande no mundo. Onde vamos parar! Te cuida
    Beijos
    Adriana

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  13. Oh amiga, que coisa mais chata e triste.Ainda bem que tudo terminou em perdas materiais.
    Aqui não é diferente, estamos sempre a mercê de um assaltante ou de uma bala perdida.
    O mundo violento das diferenças gritantes alimentam a industria do crime crescente.
    Só Deus para nos proteger.
    Uma linda semana sem sustos a voces.
    Meu carinhoso abraço de paz e alegrias.
    Beijo de paz.

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  14. Sou nova por estas bandas.
    Não em Blogs, já tenho faz tempo.
    Vim pois te vi no Mineirinho, do Toninho Bira.
    E deliciei-me com estas tuas histórias.
    Acabei de ler o livro Teoria Geral do Esquecimento de José Eduardo Agualusa.
    E a tua narração do assalto e a conversa com teu marido sobre os roubos e a aliança, me trouxeram as páginas do livro á essa naturalidade com que vcs enfrentam as adversidades noutras terras.
    A vida é ao mesmo tempo repleta de casos que poderiam ser tragédias, e uns o são. E outros que vão somando casos que relatam a História da Terra daquele povo.
    Gostei muito de como encara a vida.
    E dessa confiança nessa joia anel dourado que representou a família.
    E que foi preservada, por Deus( bem, creio que Deus preserva a todos) e talvez, porque quem sabe o assaltante enxergou a dócil presença tua e do teu filho por trás de teu marido.
    Beijos!
    Gostei muito de ler.

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    1. Muito obrigada pela sua amável visita, Izabel. "Amiga do meu amigo...." sabe como é o ditado. Espero que se sinta "em casa" por aqui. Logo que possa retribuirei a sua gentileza.
      Abraço

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  15. Finalmente vou de férias!
    Confesso que estou necessitado de descansar.
    Desde que vim para Itália, no dia 29 de Maio, tenho dado belos passeios, visitado locais que não conhecia e revisitado outros já conhecidos.
    Mas, a par disso, o trabalho tem sido a um ritmo bastante acelerado, com o intuito de, o mais rapidamente possível, poder regressar a Portugal. Este objectivo ainda está um pouco longe de ser alcançado…
    Agora chegou o momento de gozar férias. E aí vou eu, no próximo dia 14.
    O regresso… é uma incógnita. Quando voltar vos farei saber 
    Para que não me esqueçam… deixo-vos mais algumas fotos do passeio que me foi oferecido como prensa de aniversário…
    Para veres as fotos e o resto do texto… terás que ir ao “DEUSA” 
    Um beijo
    Miguel

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  16. Magnífica prosa.
    Muito triste para quem como eu conheceu aquele País, onde vivi dois anos no tempo da Guerra Colonial, verificar agora que a falta de segurança grassa em Luanda.
    Um País rico onde a pobreza abunda dá sempre nisto... desgraçadamente.
    E Luanda é uma cidade tão bela!

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  17. Ao que parece a aliança a aliança conseguiu ter outro significado, e agora é ainda mais especial!

    Bjxxx

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  18. Infelizmente, nem todos os assaltos terminam assim. A violência tem aumentado a cada dia e a vida foi banalizada. É isso que sentimos por aqui. Do nada, o ladrão atira, sem dó.
    Bens materiais se recupera. Está certíssima, a família é nossa maior riqueza. Bjs.

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  19. Querida Ruthia
    Que impressionante relato! Já tinha ouvido falar,mas nunca ninguém me tinha contado nada de concreto.Deve ter sido um susto,mas o que mais me horroriza é a passividade de quem vê tudo e não faz nada!
    Graças à aliança,ficou com a vida,que é o bem mais importante .
    Telemóveis há muitos e o dinheiro,...faço votos para que não fosse muito.
    O símbolo da família,valeu-lhe.Pôde voltar a estar com os seus, que é o melhor de tudo. estou plenamente de acordo consigo.
    Um beijinho
    Beatriz

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  20. Ruthia, você é diferente mesmo! Até em uma situação difícil como essa você consegue escrever calmamente e de modo que não nos desesperemos ao ler. Espero que estejam todos bem. Temos muitas saudades de vocês. Um grande beijo e desculpe só ler agora está notícia tão desagradável, que nenhum de nós gostaríamos de passar.

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    1. Rita, querida, quando eu soube do que aconteceu, realmente levei um susto daqueles. Mas o Miguel soube transmitir-me a calma necessária. Desde que uma pessoa não resista, dê tudo o que leva, não costuma acontecer nada de sério...
      Muitas saudades vossas!

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!