Viagens com livros: a mítica rainha Ginga


Estátua em bronze da rainha, à entrada do Forte de S. Miguel, em Luanda.


Dona Ana de Sousa podia ser uma pacata dona de casa, esposa de um qualquer colonizador a tentar a sorte pelas Áfricas. Mas não foi. 

Na verdade, ela é mais conhecida como Rainha Ginga (1583-1663), cujo título real em quimbundo, "Ngola", terá dado origem ao nome de um país. A monarca, que guerreou e depois fez alianças com os portugueses, é uma figura central da história angolana no século XVII.

Num romance histórico recentemente lançado, Ginga é descrita como uma líder firme, exótica e carismática. Preocupada com o despovoamento do reino, devido aos recorrentes sequestros de pessoas para serem vendidas no Brasil, Ginga é também senhora de muitos escravos, mas condena os portugueses pelo tratamento desumano ao qual submetem os seus...

Hoje viajamos por Angola, ainda antes de o ser, conduzidos por José Eduardo Agualusa, esse fabulista branco nascido no Huambo (quando Angola ainda era uma colónia) que está entre os grandes da literatura lusófona. Agualusa, que sempre quis escrever esta história mas foi adiando o projecto com receio do tamanho da empreitada, lançou o livro do alto da maturidade que os cinquenta e tal anos dão.

Quem conta esta história, entre ficção e realidade, é Francisco José da Santa Cruz, um padre brasileiro profundamente abalado na sua fé, com espessa melena de índio que herdou de sua mãe, juntamente com a tendência para a melancolia. 







O padre mestiço, secretário da famosa rainha negra, desfia um enredo intrincadouma mulher que se tornou rainha após envenenar o próprio irmão, porque este não tomava medidas drásticas para impedir os avanços dos portugueses. Que para isso, formou uma aliança com os guerreiros Jaga – uma espécie de espartanos de África – e, décadas mais tarde, com os holandeses, que apoiou aquando da ocupação de Luanda.

Pelo meio ainda se aproximou dos portugueses, convertendo-se ao catolicismo, que achavam que a "inaudita" inteligência desta mulher, ainda por cima negra, "devia ser considerada inspiração do maligno e, portanto, matéria da competência do Santo Ofício" (pp. 37-38).

Católica ou não, ela nunca abandonou os seus velhos hábitos que, com certeza, causavam muita estranheza. Uma mulher que se veste de homem, que teima em ser tratada como rei e mantém um harém de 50 homens, a quem tratava como as "minhas mulheres" e os vestia como tal...

A personagem tem sido "instrumentalizada" por muitos: o Marquês de Sade encarava-a como exemplo de devassidão; activistas americanos apontam-na como um símbolo gay (porque tratava os seus homens por mulheres? OMG); e políticos angolanos, como uma heroína nacionalista.


O que dizem ser a pegada da rainha Ginga, em Pungo Andongo, 
província de Malanje (recordem a viagem aqui).


A Rainha Ginga e de como os africanos inventaram o mundo não é uma simples biografia da destemida rainha. Propõe-se retratar uma época histórica, fascinante, quando Portugal, Holanda e outras potências disputavam territórios de África e da América do Sul. 

Não me interpretem mal, a obra proporciona uma leitura agradável, pejada de personagens divertidas: um padre que acaba perseguido pela Inquisição, um judeu com nome de anjo, um príncipe do Reino de Ndongo que rapta a mulher de um oficial holandês, até um pirata com uma perna de pau que existiu de verdade (Cornelis Jol), provando que a realidade é por vezes mais inverosímil do que a ficção.

Mas deixa um travo a pouco.... esta história de 278 páginas bem arejadas, merecia o dobro do tamanho. Talvez assim se tornasse um marco na literatura lusófona, como Cem Anos de Solidão se tornou no mundo literário latino-americano.


Escultura contemporânea, em ferro-velho e pneus, na Baía de Luanda





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22 comentários

  1. Talvez o número de páginas esteja relacionado a questões mercadológicas. O livro deve ser mesmo muito interessante. Vou procurá-lo por aqui.

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  2. Está aí um livro o qual me deixou com vontade de ler ao ver sua resenha! Deve ser mesmo maravilhoso. Adoro histórias que relatam um pouco da história de outras culturas, do mundo em geral. E pensei que tivesse mais páginas.
    Boa dica
    Beijos
    Adriana

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  3. Marta e Adriana, a obra foi lançada no Brasil pela Editora Foz. Infelizmente, as tiragens são os grandes objectivos das editoras, mas quando falamos de literatura outros valores, mais altos, se deviam levantar....
    Beijinho para as duas

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  4. inflada em saber que estás a ler um livro brasileiro, me enche de orgulho! Eu aqui, ando lendo o livro da Ophra, que tem se mostrado bem interessante.
    As coisas andam, por ora boas, por ora ruins.... crise dos 14/15 anos de casamento,, que pode dar em nada como pode virar em separação..somente o tempo mostrará o resultado de tal crise.
    Sim, firme sem fumar, completando já três meses!!
    Tá que tem dias que me vejo salivando, mas a força de vontade vence sempre e a vontade de retornar a Portugal me motiva (com o dinheiro que gastava em cigarros, comprarei a passagem aérea e ainda pagarei a hospedagem e alimentação)...
    Beijos, querida amiga, agradecida pela tua preocupação e carinho!!

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  5. Ruthia:
    você tem posts muito interessantes, adoro aprender com pessoas com vc, que traz sempre histórias muito legais para a gente ler.
    existe tanta coisa neste mundo para se conhecer não é mesmo?
    algo que vai muito, muito além de hollywood...
    beijos e obrigada.
    Eliane

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  6. Agualusa é um autor incrível...ainda não li A Rainha Ginga, vou procurar. Não conheço a Editora Foz (não seria Editora Voz, Ruthia?)...Essa personagem, me reporta à Rainha do Maracatu, figura central do Maracatu, no Ceará. Aqui, há vários grupos de maracatu, que geralmente se apresentam no carnaval. Ao contrário da Rainha Ginga, a rainha é sempre interpretada por um homem branco, vestido de rainha (à antiga) e a pele é pele é pintada com uma graxa negra. Meu marido, adorava assistir ao desfile do MARCATU...fazia-o relembrar Angola, onde viveu por sete anos, antes de vir para o Brasil. As "loas" ( música que acompanha o cortejo) são belíssimas, o batuque dos tambores fazem arrepiar....
    Obrigada, Ruthia...valeu! Beijo.

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    1. Obrigada por esta partilha formidável.
      Fui confirmar, foi mesmo a Editora Foz (do RJ) que editou a obra no Brasil. Enviei o link lá pelo facebook.
      Beijinhos, querida Lúcia

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  7. Ruthia,
    Desconhecia a Rainha Ginga, assim que o livro que nos descreve. Já li vários livros (romances, teses, etc) sobre África, porque é o continente de todas as aventuras, de todas as riquezas, de todas as maravilhas. O livro que nos apresenta fará certamente parte das minas próximas aquisições. :)
    Muito obrigada pela viagem!
    Beijinhos!

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  8. Um livro que te deixou com gostinho de quero mais, só pode ser bom.,História e tema interessante! Beijos,m lindo fds! chica

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  9. Conhecia a existência da rainha Ginja, mas não dos pormenores picantes (um harém com 50 "melheres"? Ah, que jeito daria para colocar a casa em ordem, cozinhar, fazer reparações e recados, um regalo!). Já estou de apetite aguçado para o livro!
    Beijinhos :)

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    1. Essa meia centena de mulheres peludas serviam para outras coisas. Para os trabalhos domésticos havia os escravos, o que pensas?!
      Beijinhos

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  10. Passei pra ver as novidades e agradecer a visitinha :)
    Muito interessante!
    Gosto muito e passar por aqui e conhecer coisas novas sobre literatura, história e ver fotos de suas viagens.

    beijinhos ;*
    http://noostillo.blogspot.com.br/

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  11. Ruthia, suas postagens são sempre prazerosas de se ler. Não tinha ciência da existência dessa mulher, que apesar do estranho comportamento, foi representativa na história.. Vejo que despertou curiosidade em todos. Também vou procurar o livro. Bjs.

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  12. Vim para conhecer, e gostei muito de tudo! Vou seguir para não perder de vista :)
    Beijo.
    Nita

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    1. Olá Nita, agradeço as suas amáveis palavras. Espero que se sinta "em casa" por aqui. Se tiver algum blog, não deixe de deixar o seu link para retribuir a visita.
      Bom domingos

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  13. Olá amiga, vim desejar-lhe um abençoado início de mês.
    Amo mergulhar nessas histórias!!!
    Doce abraço Marie.

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  14. Eu sabia alguma coisa da "destemida rainha", mas, com esta sua magnífica publicação, fiquei mto mais culta. O livro é, decerto, um encanto, historicamente e não só. Bjos.

    Boa semana!

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  15. Olá Ruthia,
    ao que me parece, essa rainha foi realmente uma destemida demolidora de dogmas e estigmas, marcando sua existência através de ações resolutas.Achei bem interessante a temática, gosto de romances/relatos históricos e já tomo nota do livro pra aquisição.
    Não conseguir acessar o link do Pedro :(
    Aproveito pra deixar-lhe um grande abraço pela passagem da data do Dia das Mães.Aqui será no domingo que vem.
    Um belo e claro maio pra vcs!
    Bjinhus,
    Calu

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  16. Ruthia,
    Desconheço a obra. Pelo que dela dá a espreitar, é muito provável que a rainha Ginga me faça companhia nas próximas férias. Espero que ela se dê bem com homens de calção. :)

    Um beijinho :)

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    1. Julgo que não fará objecção a calção ou até tronco nu.
      Bom "senti-lo" de volta.
      Um beijinho

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  17. Mais que blog bonito você tem...
    Vou segui-lo para não deixar de
    ver tão belas fotos...

    Espero que você também goste
    do meu e me siga, por isso.

    Um grande abraço.




    .

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    1. Seja bem-vindo. Espero que, para além das imagens, possa apreciar os textos. Já retribui a sua gentileza e fui visitá-lo no seu cantinho!

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!