Astorga dos caminhos

by - 23:43




Aguardamos a hora certa na Praça de Espanha, altura em que Juan Zancuda e Colasa, os dois mais famosos maragatos* de Astorga, tocarão o sino de bronze do edifício do Ayuntamiento para a multidão de turistas e peregrinos.

Um desses caminhantes descansa as pernas e o espírito num banco junto a nós. Chama-se Matteo, é italiano, e partiu bem cedo de Hospital de Órbigo, a cerca de 18 quilómetros. Depois de lhe tirar uma foto com os maragatos do relógio, responde ao meu "Ultréia" com a habitual "Suséia"** e segue adiante, sorridente.

Falara já ao Pedro nos caminheiros, a propósito do capote de peregrino pendurado no castelo de Puebla de Sanabria (recordem a viagem aqui). Mas do abstracto até ao concreto, a distância é abissal. 

Só vendo um em carne, osso, cajado e vieira é que o pequeno explorador me inundou de perguntas. Como? Porquê? Quanto tempo demoram? "Mas isso é muuuuuito longe", rematou impressionado. Desde então revelou-se muito atento, apontando os peregrinos com que nos fomos cruzando.





O edifício do Ayuntamiento com o seu relógio de maragatos (séc. XVIII).
Cliquem nas imagens para ampliar.
A belíssima catedral de Astorga.
Traje típico dos maragatos.


Para além de estar na rota francesa do Caminho de Santiago ou Via Láctea (classificado como primeiro itinerário cultural europeu pelo Conselho da Europa), a milenar Astorga fica na confluência de outro caminho antiquíssimo: a Rota da Prata, que remonta à Asturica Augustea romana, quando servia de ponto de passagem dos metais preciosos extraídos no norte da Península Ibérica.

A importância da cidade para os romanos era tal que a dinastia flávia mandou construir uma estrada - a Via Nova - entre Bracara Augusta (Braga, Portugal) e Asturica Augusta, cujo traçado foi muito útil durante a reconquista cristã. Astorga conserva ainda vários vestígios desse período romano, nomeadamente as muralhas, um museu e uma rota temática.

Deixamos a Praça do município para trás e procuramos o cartão-postal da cidade, a imagem que me fez planear esta viagem, um dos raros projectos de Antoni Gaudi fora da Catalunha: um palácio de contos de fadas, com pináculos e torreões dignos da Disney, ainda sem as linhas curvas que caracterizariam o trabalho do génio catalão.



Outra perspectiva do Palácio Episcopal desenhado por Antoni Gaudi.

Algumas imagens do interior do Museu dos Caminhos e respectivo jardim.


Ao lado do Palácio, uma maravilhosa catedral do gótico florido espanhol do séc. XV, construída sobre a sua antecessora medieval, lembra-me a de Sevilha ou até a de Salamanca. Mas acaba eclipsada pelo Palácio Episcopal de Gaudi, que acolhe hoje o Museu dos Caminhos. 

Somos recebidos por três anjos majestosos, perdemo-nos no interior, maravilhados com a luz, o trabalho em ferro forjado, os vitrais e os subterrâneos... depois demoramo-nos no jardim e tiramos mil e quinhentas fotos (e nenhuma faz justiça à beleza do palácio, bah!).

Antes de partimos, Astorga reserva-nos mais um presente. Entre o Palácio e a Catedral, decorre uma animada feira de queijos e o ar encantador do Pedrito rende-lhe generosas fatias de queijo. Ele aproxima-se por simples curiosidade, mas as vendedoras não lhe resistem ou talvez confundam o seu interesse com gulodice!


* Habitante da Maragateria, região histórico-cultural espanhola, na província de Leão.
** Ultréia é uma expressão usada para animar os peregrinos, significando "em frente". Já a resposta, Suséia, significa "para cima". Ultréia e Suséia são assim os votos de sucesso para o caminho, de Santiago e da vida.







Entrada no Palácio Episcopal: 3€ adulto / gratuito para crianças com menos de 10 anos


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16 comentários

  1. Muito bonito tudo que vi, ainda mais com a presença da Ruthia, com o seu encantador Pedrito, o Explorador. Achei interessante o termo "maragato" e, como esses belos cenários são na Espanha, associei aos "maragatos" do Rio Grande do Sul, limítrofe com o Uruguai... Procure saber de "maragatos x chimangos" que entenderá a que me refiro. Quem deve conhecer bem, sobre os dois partidos políticos, lá do século XVIII, é a nossa amiga gaúcha, Chica.
    O vídeo, completou muito bem a matéria...
    Beijo,
    da Lúcia...

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    1. Querida Lúcia, pelo que me foi dado perceber, os povos da América latina conhecidos por maragatos ganharam essa "alcunha" porque terão sido colonizados por espanhóis desta região que visitei.
      Beijinhos, minha querida

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  2. Ruthia,

    Que banho de cultura. Adoraveis os trajes típicos dos maragatos. Mas na Europa há muita tradição; lembro de um restaurante em Praga dos funcionários vestidos a carater, a musica, dança, muito animado!

    Ahhh nem fale em queijo, certamente eu ia provar tudo que me oferecessem, adoro!

    Bjs

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  3. Adoro passear com vocês , pois sabem mostrar tudo de importante que há em cada pedacinho por onde passam. E dá pra escrever um livro,não achas? beijos,chica

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  4. Olá Ruthia, vim visitar teu blog, estou encantada com seu post, belo lugar. Envia-me seu endereço de pagina do FB. Um abraço da nova amiga brasileira e viajante ;-)

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  5. Ficaria feliz se me seguisse no meu blog

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  6. Obrigada pelo passeio. No norte de Espanha, só conheço Vigo e Santiago de Compostela. Astorga me parece uma bela cidade para conhecer.
    Um abraço e bom Domingo

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  7. Ruthia, todas as suas postagens são uma apresentação, para mim. E me encanto com os lugares que nos mostra, com a história deles, com suas impressões e, naturalmente, com a presença de seu filhote. São voos que me possibilita e me fazem feliz. As imagens apresentam espaços e construções que adoraria conhecer. Tudo muito belo. E rico! Bjs.

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    1. Muito obrigada, querida Marilene. É verdade, quer os livros, quer blogs de viagens nos permitem viajar sem sairmos do lugar. Isso é muito bom.
      As postagens seriam ainda melhores se tivesse o seu talento para fotografar.
      Beijinho, bom domingo

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  8. Ultréia, sem dúvida! O muito que eu aprendo e passeio virtualmente contigo!
    Beijinhos, bom resto de domingo e boa semana :)

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  9. Mas que viagem, Ruthia!
    Gostei muito de "Ultréia e Suséia". Deveríamos todos rê-las em mente pela manhã, para não esquecer as direções a seguir ... ;)
    Beijinhos!

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  10. Ruthia, a cada viagem e postagem me deslumbro mais e mais com o teu dom de retratar por ondes passas de forma tão poética e didática ao mesmo tempo.... tens o dom de nos encantar com tuas palavras que nos ensinam sobre cada local visitado, dando assim uma bela aula de história e cultura!!! Bem sabes que aguardo ansiosa por teus posts...
    Quanto aos chinelos lindos, são mesmo a minha cara, e ainda não escolhi algum, mas o será pra breve, independente de firmar parceria ou nã com o meu TdD!
    bjs amiga e abraços carinhosos no Pedrinho!! e até a tua próxima 'parada'

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  11. Que maravilha de lugar! Castelos, ah, como me encantam Castelos. E faróis também. Um dia vou conhecer em algum lugar. Fotos belíssimas,
    As fotos do texto anterior também, tudo divino.
    Ruthia, muito obrigada pelos belos posts e por nos levar a lugares que não imaginaríamos um dia conhecer.
    Uma ótima semana, beijos, no Pedrinho, um especial na bochecha.

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  12. Andanças por terras de mil e uma memórias, Ruthia, andanças por terras que me cativam...
    Com essa bagagem toda, o Pedro, no futuro, será um grande andarilho, só pode. :)

    Um beijinho :)

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  13. Boa tarde, lindas imagens que revelam a bela viagem.
    AG

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  14. Um caminho para a historia que você generosamente nos ensina e leva com suas belas e precisas fotos.
    Muito bom fazer este caminho com você para frente e para cima.

    Meu carinhoso abraço amiga.
    Beijo de paz. Abraço ao pequeno descobridor.

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!