Diários da China: a capital do kun fu

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O leão dança ao ritmo de tambores e gongos e as crianças juntam-se a ele, fascinadas com a personagem mítica. Manejado por dois dançarinos, o peludo animal, branco e verde, movimenta energicamente a cabeça e as mandíbulas, salta entre plataformas de várias alturas e abana a cauda, numa pausa brincalhona.
A dança do leão (wǔshī, 舞獅) é uma arte cerimonial que, entre muitos outros simbolismos, serve para exorcizar espíritos maléficos, para invocar sorte e felicidade.  Recordando a tradição de recolha de alfaces, este leão distribui a sua boa sorte em troca de notas de 100 kuais*. Os pais apressam-se a levar a sua prole até à figura mitológica com características de quatro animais sagrados - dragão, tigre branco, tartaruga e fénix -, dispondo-se a pagar pela fita vermelha portadora de boa fortuna.
Adiante, um grupo de discípulos desta escola de kung fu prepara-se para um ataque fulminante. Ah! Afinal estão apenas a posar para a foto, certamente um turista desembolsou para ser eternizado entre os guerreiros.





Estou em Foshan, província de Guangdong (广东, Guăngdōng), cidade chinesa muito famosa entre os seguidores de artes marciais. A região pariu o talentoso Bruce Lee e outros mestres, não tão famosos, mas maiores nestas artes guerreiras: Huang Feihong e Yip Man.
A dança do leão aconteceu precisamente no memorial de Huang Feihong (1847-1924), que integra o complexo do Templo Zu Miao, construído nos tempos da longínqua dinastia Song. Dedicado à deusa  taoísta do mar, ainda hoje os habitantes veneram aqui os seus antepassados. 
Para além de um lugar de fé, o espaço tem um carácter museológico, recordando o grande mestre de artes marciais Huang Feihong (黄飞鸿, Huáng Fēihóng), filho de um dos 10 tigres de Cantão** e também um especialista em medicina tradicional chinesa. 
Com apenas 17 anos, Feihong já tinha a sua própria escola de kung fu e pouco depois tornava-se um herói da resistência contra o Japão. A sua vida inspirou mais de uma centena de filmes e séries (assistam ao trailer da última saga, aqui).





Apesar de ser chamada de "cidade zen", Foshan é uma cidade em tudo ligada à guerra. Mas eu consigo abstrair-me completamente dessa vertente bélica; basta-me apreciar a arquitectura, os guardiões gigantes alinhados à entrada, os belíssimos telhados esculpidos em madeira. 
Aliás, o templo de Zu Miao ficará eternamente gravado na minha memória como um lugar de paz. Relaxada com o cheiro do incenso e o silêncio dos chineses que ali vêm deixar uma prece, embalada por umas finas gotas de chuva que abençoam a manhã quente, sorvo esta tranquilidade maravilhosa e deixo, também, um agradecimento por este momento genuíno, por nenhum sobressalto ter perturbado esta minha aventura, pelo meu filho que tem aguentado as saudades como um herói...
Não chega a ser uma prece, apenas uma comunhão com o mundo, comigo e com os outros. Os paus de incenso acendem, depois de alguma teimosia, e elevam os meus pensamentos no ar.




* A dança de leão é muito apreciada em ocasiões festivas como a inauguração de um comércio ou casamentos, sendo indispensável no ano novo chinês. Nessa altura, os dançarinos e alunos de artes marciais recebiam dos comerciantes uma alface e um envelope vermelho com dinheiro. O leão, como um gato curioso, engolia a alface mas acabava por cuspir as folhas, ficando com o dinheiro. Com este gesto, a escola de kungfu comprometia-se a proteger o comerciante, em caso de necessidade.
** Durante a era dourada do kungfu surgiram 10 grandes mestres de artes marciais, conhecidos como os 10 tigres de Cantão (广东十虎),  que lideraram algumas sociedades secretas no final da dinastia Qing (a última), de carácter anti-imperial.

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16 comentários

  1. Sempre interessante te ler e acompanhar.Aprendemos um pouco de tudo! lindo post! bjs, chica

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  2. A profusão de elementos tão diferentes daquilo que ocorre na cultura ocidental dá a sensação de uma avalanche... ou tsunami. Pelo menos, é essa a minha impressão ao ler.

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    1. Tem razão, Marta. É muita informação nova para assimilar. E uma rua chinesa é um atentado aos sentidos. Muitos cheiros, sons, cores... demasiado para um pobre mortal.
      Beijinho

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  3. É bem pensada a dança do leão, tenho de aprender a dançá-la...
    Que cultura tão radicalmente diferente da nossa! E culturas diferentes moldam pessoas diferentes (até profissões diferentes moldam pessoas diferentes!)!
    Beijinhos, está frio!

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  4. Muito interessante acompanhar esta sua viagem. Parece que nós portugueses andamos todos a precisar de uma fitinha dessa a ver se deixamos de andar na cauda da Europa.
    Amiga vou deixar o meu link apenas e só porque o Sexta não está a fazer actualizações.
    http://6feira.blogspot.pt/
    Um abraço e bom fim de semana

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  5. Conhecendo a China, através de você, cada detalhe, cada comentário, tão bem elaborado e cheio de riquezas, nos mostram um mundo diferente, daquele que ouvimos falar, você nos mostra os detalhes da beleza dessa cultura milenar, que não se restringe à arte bélica.
    Sabe, Ruthia, você tem uma intuição apuradíssima, parabéns e obrigada.
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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    1. Eu é que agradeço, tanto a sua presença como pela amabilidade. Muito obrigada por acompanhar a minha aventura.

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  6. Ruthia,

    Estou sem internet em casa já tem quase 1 mes, por isso minha ausencia.

    Bjs e otimo final de semana.

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  7. Meu Deus, Ruthia, que relato!
    Sinto-me quase tomando parte nesses momentos de descoberta
    e de comunhão com uma cultura que conhecemos ainda pela rama.
    Cá em casa há grandes apreciadores de Kung Fu, do inesquecível Bruce
    Lee e dos outros, menos conhecidos. Tudo através de filmes.:)

    Bj
    Olinda

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  8. Passei pra ver as novidades e agradecer a sua visita :)
    Amo viajar com você e nesse post em especial, amei conhecer um pouco da China. Gostaria muito de ver a dança do leão bem de pertinho.

    beijinhos ;*
    http://noostillo.blogspot.com.br/

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  9. Mais uma excelente reportagem.
    Ruthia, tenha uma boa semana.
    Abraço.

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  10. sempre é tão bom te ler....consegues acalmar minha alma.. me fazes sentir e respirar cultura... consegues transmitir o teu sentimento em tuas palavras.
    obrigada amiga querida por mais esta aula de história e cultura
    bjs

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    1. Minha querida Adriana, esta vida é tão corrida, precisamos parar de vez em quando para respirar. Até estou a pensar implementar cá em casa uma noite por semana sem qualquer tecnologia. Nada de computador, tablet ou telemóvel por uma noite...
      Beijinhos

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  11. Boa tarde, a cultura chinesa é atractiva, talvez pelos seus mistérios, as fotos são excelentes.
    AG

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  12. Posso imaginar a emoção de estar num templo deste e sentir esta força que emana deste povo de profunda meditação e concentração. A dança a gente sempre vê em filmes. Belas ilustrações amiga e que o pequeno merece este agradecimento, que nos propiciou receber estas postagens do mundo mistico do lado de lá.
    Abraços amiga.
    Bju

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  13. Para visitar esse lindo berço, é preciso tempo para apreciar a riqueza de cada elemento - imagens e legendas! Tudo tão belo, tão bem detalhado! Gostei demais!
    Beijo

    P.S
    Estou "arruando" de ré, nas postagens...seguindo os passos da "cicerone" estrangeira !

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!