H2O, Água no Jardim


A manhã às vezes fica muito longe / Perco-me então por caminhos de água / 
Na língua que te despe o sol / Respira rente à relva (Eugénio de Andrade, in Véspera da Água)






Despedimo-nos do Verão nas margens do Lima, o rio que as tropas de Decius Junius confundiram, no tempo em que sandálias romanas pisavam a Península Ibérica, com o Letes, o rio do esquecimento.
Voltámos à vila minhota de Ponte de Lima por causa do Festival Internacional de Jardins, que este ano tomou o signo da água (recordem a edição de 2014 aqui). As propostas chegaram de todo o mundo e, como habitualmente, foram escolhidos 11 jardins para saltarem do papel.
O som de uma queda de água, o rebentamento das ondas na praia, o murmúrio de um ribeiro, o jorro de uma fonte ou a quase imperceptível sonoridade de um olho (como as gentes locais chamam às nascentes)... os rios que tanto dizem aos minhotos, as levadas, os regadios, os moinhos, a chuva... as fontes de inspiração jorraram e os resultados foram surpreendentes.
É mais livre e maior o rio da minha aldeia. […]  
Ninguém nunca pensou no que há para além  
Do rio da minha aldeia. […]  
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada 
Quem está ao pé dele está só ao pé dele. (Alberto Caeiro, 1993) 









Do Brasil chegou H2O, um jardim onde as moléculas de hidrogénio e oxigénio são protagonistas, enquanto em O Jardim do Ciclo da Água fomos ungidos com finíssimas gotículas de chuva, uma proposta vinda da Irlanda. No jardim Make a Wish, os arquitectos paisagistas evocaram a tradição de lançar uma moeda na água: "A água é o elemento vital da nossa existência. Ao confiar-lhe os seus sonhos, a mesma pode concretizar o que deseja. Surge assim a ideia de evocar a tradição de pedir um desejo na presença de um elemento de água, aliada ao acto de soprar um dente-de-leão, na esperança que o desejo se concretize".
Os autores de Água, um ano no Jardim conduziram-nos ao longo das quatro estações, embalados pela doçura de um riacho primaveril, pelo marulhar das ondas, pelas chuvadas outonais, até rebentar numa tempestade invernosa.
E o Senhor plantou um jardim, do lado oriental  (...) e saía do Paraíso um rio para regar o jardim; e dali se dividia e se tornava em quatro braços ...Pison; ...Geon; ...Tigre; ...Eufrates (Génesis 2: 8-14).




O pequeno explorador gostou particularmente do jardim polaco, inspirado na vida transparente de um aquário e d' A Casa da Água (Espanha) com um ecossistema completo que até tem rãs, isolado do exterior por um muro em espiral de madeira e bambu.
Já o meu jardim favorito, FA D'EAU, foi idealizado por franceses e soma a nota musical fá com o termo francês d'eau, ligando o jardim e a música e remetendo foneticamente para o fado. Este jardim de águas musicais inspirou-se nos jardins do Renascimento italiano e nos jogos de água de Versalhes, deixando o visitante chefiar a orquestra.
Os jardins efémeros podem ser visitados até ao final deste mês e, devo dizer, para além do lado artístico, o recinto é perfeito para um passeio perfumado: há por lá limões, flores, ervas aromáticas, baloiços, jardins miniatura concebidos pelos alunos do ensino primário, cabaças suspensas.
Ao lado, o Lima continua o seu caminho, envolvendo-nos: o rio esperava sempre visitas e aperaltava-se de verdura verde e céu límpido pela transparência da luz (Ruben A., In A Torre da Barbela).

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Nota: Interrompi a série China porque o Festival de Jardins termina no final de Outubro (corram) e porque alguns leitores estavam com saudades do pequeno explorador. Na próxima semana, haverá um último post sobre a minha aventura asiática.
Site do Festival: www.festivaldejardins.cm-pontedelima.pt
Entrada: 1€ adultos / grátis para crianças até aos 12 anos 


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16 comentários

  1. Ponte de Lima é uma cidade muito bonita. Só por si já merece uma visita. Com um festival desses fica mais imperiosa a visita.. Não vou poder ir, pelo que lhe agradeço as imagens, muito belas por sinal, bem como as explicações.
    Ah! E adorei rever o pequeno explorador.
    Um abraço

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  2. Que delícia de postagem, a riqueza, a beleza e a importância da água em evidência, através dos festivais. Muito lindo, obrigada, Ruthia, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  3. Olá Ruthia
    Estes festivais por aí são fantásticos, não! Quanta inspiração por coisas boas... o mundo precisa disso, mas precisa também de ações que façam dar certo. Muito, muito bom!!!

    Beijinho

    Bia
    www.biaviagemambiental.blogspot.com

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  4. Que maravilha e quantas fotos lindas, registrando momentos inesquecíveis pra todos vocês! bjs, chica

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  5. Tudo muito lindo, maravilhosos jardins, tendo a água como tema central, agora com o pequeno explorador ao lado. Tenho raízes, em Ponte de Lima, pelo liame materno, Bezerra, originalmente Becerra, lá pelo século XIII...
    Obrigada, Ruthia, beijos!

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    1. Que maravilha Lúcia, saber as raízes familiares até ao século XIII. Já conhece Ponte de Lima?
      Muitos beijinhos

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  6. Não conhecia este evento, muito interessante! :)
    Beijinhos

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  7. Mas que ignorância a minha... confesso que nem sabia que existiam festivais internacionais de jardins...
    Fiquei maravilhado com este seu post (texto, fotos e vídeo).
    Ruthia, minha querida amiga, tenha um bom fim de semana.
    Abraço.

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    1. Caro Jaime, às vezes as coisas acontecem nas "nossas barbas" e não damos conta. Conheci o festival por meio de uma amiga, que sabe que eu adoro programas culturais. Fui no ano passado e adorei. É um belo passeio.
      Um abraço

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  8. Da China para Ponte de Lima o salto parece ser grande, mas a água tudo justifica. Ou o Pedrinho, razão sempre maior.
    Gosto de coisas bem escritas e, felizmente, a Ruthia fez um pacto com a arte de bem escrever. Só isso já justifica a vinda aqui.

    Um beijinho :)

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    1. Muito obrigada, tento honrar esse pacto por mim e pelos outros. Outros como o AC, que me visitam sempre com esta generosidade.
      Abraço

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  9. Maravilhosos!!!!! O vídeo encanta e gosto de ver o efeito do vento sobre galhos, folhas, árvores. São trabalhos artísticos louváveis e seu filho, com certeza, viveu mais uma experiência rica e inesquecível. Gostei demais, Ruthia. Sua postagem é um presente para quem está distante. Bjs.

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    1. Conheço vários brasileiros com raízes familiares nesta região e que acompanham este festival à distância. Curioso, não?
      Agradeço a sua presença e comentário sempre amáveis

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  10. com certeza um passeio lindo e perfumado, que nos enche de paz e engrandece o espírito!! bjs

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  11. Visitei esse Festival há 3 ou 4 anos. Não me lembro qual era o tema, talvez a reciclagem... Este ano passei lá perto. Ponte de Lima é mesmo bonita!
    Beijinhos, boa semana!
    (Sentada à secretária com uma gata enroscada no colo :))

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