Um quase escaldão em dia de Natal

by - 15:42


O pequeno explorador testa os seus novos binóculos.

Na noite gélida da consoada, comemos bacalhau cozido e aquecemos os ossos à lareira. No dia de Natal, voltamos a comer como se não nos tivéssemos entupido com doces na noite anterior, vestimos a camisola nova que nos calhou no sapatinho, damos um passeio apesar do frio, porque precisamos de nos mexer para não estoirarmos, e o frio quase passa despercebido, graças à magia que transforma as ruas nesta quadra. Eu sei, são apenas luzes e música, mas são mágicas, pelo menos em Dezembro...

Quem nos acompanha aqui n'O Berço, já percebeu que não somos uma família propriamente tradicional. E o Natal foi a nossa cara. Comemos bacalhau mas assado, porque gostamos assim. Em vez de sonhos e pão-de-ló, abusamos da manga e do ananás, que de tão doces devem ter feito disparar os níveis de açúcar no sangue. Fomos à praia no dia 25 e comprovamos o que dizem do sol de África. O sol africano derrete. É perigoso para as peles desprevenidas.



Recordem tudo sobre o Miradouro da Lua no post do ano passado (aqui).



Faço um rewind até ao início da manhã, para dizer que saímos de Luanda cedo e encontramos as estradas vazias. Seguimos para sul em direcção à Barra do Kwanza, passamos o Miradouro da Lua, atravessamos a ponte, pagamos a portagem (a única em todo o país) e as boas festas do funcionário da ponte.

Vemos depois o aviso "Perigo, minas", que nos recorda que a Guerra civil não ficou num passado assim tão distante, mas os macacos devolvem-nos aos pensamentos felizes. Cento e tal quilómetros depois, viramos para Sangano que, para minha grande surpresa, dizem ser uma praia de ricos. As coisas que eu aprendo! Também por aqui várias insignificâncias balofas separam a elite do povinho (carros e cilindradas, condomínios da moda, etc.). Mas não sabia da existência de uma hierarquia social para as praias. Quase me sinto uma intrusa!

A descida para a praia faz-se picada afora, a testar travões pelo ocre rochoso da ravina, araucárias e aloé a entremear de verde a paisagem e, lá ao fundo, o azul imenso do Atlântico que nos espera, morno. E nós aceitamos o convite, logo depois de estendermos as toalhas no areal desafogado. Temos a praia quase toda para nós. As famílias de expatriados chegarão mais ao final da manhã, com as suas geleiras recheadas de Cucas.







Do outro lado da praia, fica uma pequena vila de pescadores, com os seus barcos e redes, com o varal de peixes escalados a secarem ao sol. O peixe e a lagosta que apanham, vende-se logo ali. Aliás, as únicas vendedoras ambulantes da praia de Sangano apregoam corvina em vez de bolas de Berlim, e lagostas ao invés de bolachas americanas.

Assim se fazem as coisas em África. 

E o sol, que finalmente desamuou, lembra-nos que só o Pedrinho tem protector solar. Factor 50, porque em algumas coisas sou mais do que tradicional.




Para além de bungalows para alugar, a praia tem também um restaurante,
onde se come um peixe maravilhoso.






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18 comentários

  1. Haha, só em Angola para haver praias quase desertas. Pode imaginar como andam as praias por aqui??????

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  2. Que beleza de Natal hein! Esta praia com falésias avermelhadas me lembra muito as praias do sul da Bahia, onde morei por um tempo...Belíssimo lugar onde esteve Ruthia!!!
    Beijinhos e um bom ano para você

    Bia <º(((<

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  3. Saudades de África e do sol africano.
    Engraçado que esta mesma semana vi fotos de um amigo, da praia da Polana em Moçambique que eu tanta vez frequentei, e não vi na praia cheia um branco. Pelo menos nas fotos não aparecia. E ele disse que actualmente os brancos vão para outra praia, que é "mais fina". O que me deixou surpreendida. Vejo pelo seu post que realmente se faz distinções de praias em África.
    Um abraço e bom domingo

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  4. Que saudades, querida Ruthia!
    Passei sete natais em África, mas nenhum dia de Natal na praia... apesar de, em Angola, viver a 100 metros da praia. Mas os tempos eram outros...
    Adorei a tua descrição, e acerca do protector solar, todo o cuidado é pouco. Seja em dia de Natal ou em qualquer outro dia...
    As fotos estão muito boas. Fazem-me, também elas, muitas saudades...

    Desejo toda a felicidade do mundo, a ti e a tua linda família.

    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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  5. Natal, no Brasil, é sempre calor e pra mim essa é a tradição! (apesar do comércio insistir em vender materiais que simulam uma nve que não temos! rsrs)
    Seu blog é uma delícia, Ruthia! :)
    Abraços

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    1. Em Angola também vi um Pai Natal de shopping disfarçado para o polo Norte. Ah, ninguém merece.
      Nós passamos um Natal no Brasil, mas sabe, nunca parece Natal...
      Abraço

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  6. Olá, Ruthia!
    Aprendemos com você!
    Que natal apropriado,
    para quem vive a sonhar
    e a realizar
    todos os sonhos,
    conhecendo todos os
    cantos do mundo!
    Por mais que
    procuremos entender,
    o ser humano,
    somos sempre surpreendidos
    com a divisão existente
    entre os pobres e os ricos!
    Feliz e abençoada semana,
    abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  7. Ruthia,

    Acredito que tenha passado um Natal muito bom. Imagino que o sol seja tão forte quanto o que arde no Brasil. O que preocupa é saber das minas. Tenham cuidado.

    Bjs

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  8. lindo lugar, Ruthia.... estamos indo, Ali e eu, para a praia aqui no Sul, no domingo, onde ficaremos uma semana com meus pais que já estão lá.... espero que o tempo nos brinde com sol e temperaturas agradáveis.... bjs

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  9. O importante, Ruthia, é que Natal seja sempre Natal. Tradicional ou não, ele não vive na mesa nem nas atividades. Vive dentro de cada um e no coração da vossa família iluminou-nos.
    Um beijinho grande

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  10. Querida Ruthia
    Foi um prazer enorme ler a sua crónica.
    Senti-a muito feliz e o espírito do Natal é esse mesmo, a família unida e em harmonia.
    Para a próxima, não se esqueça de Factor 50 para todos, mesmo que não vá à praia.
    Um beijinho
    Beatriz

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  11. Assim diferente e curioso uma bela aventura e fuga do tradicional.
    Posso imaginar o calor, mas em compensação a alegria dos olhos diante a beleza azul do mar.
    Que a semana esteja maravilhosa amiga.
    Meu carinhoso abraço de paz.

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  12. Olha que lindos, os meninos todos arranjadinhos para o dia de Natal!
    E que rico macaquinho a fazer praia!
    Beijinhos e hidrata-me bem essa pele :)

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    1. Arranjadíssimos, chinelo no pé e cabelo despenteado :)

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  13. Um Natal numa paisagem bem diferente para um europeu mas com muitas semelhanças para uma cearense. A água morna do Atlântico, as praias de "ricos" e de "pobres" são coisas que existem pelo lado de cá (ao menos no Ceará). Essa África, já conheço um bocado, pelo que me contava meu marido (goês), que viveu em Angola por sete anos, pelos anos setenta! Adoro, esse Berço!
    Beijo, Ruthia...

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  14. O Natal não é apenas quando o Homem quiser, também é como o Homem quiser! ;)

    Abraço, bom ano! :)

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  15. Aaaah! Natal em África! Comecei a achar estranho aquilo de "em vez de sonhos e pão-de-ló...etc,etc", mas continuando a ler apercebi-me de que a minha amiga estava a falar de latitudes outras... Pois bem, um Natal bem diferente, não há dúvidas, de bom Sol e praia deserta. Muita invejinha a roer-me :))) Sabe que já não me lembro se fez muito frio ou se tivemos por cá algum resquício do verão de São Martinho? O tempo passa depressa e o meu Natal já me parece tão distante...
    Gostei muito, muitíssimo deste seu relato. Fui dar uma vista de olhos ao seu post "Magia de África". Adorei.

    Tudo de bom para si e para os seus, cara Ruthia.

    Bj
    Olinda

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  16. Bom dia, certamente que foi um Natal maravilhoso diferente do que o habitual.
    AG

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!