Inverno na Serra

by - 14:50






Os raios oblíquos do final da tarde projectam sombras belíssimas sobre os espigueiros do Soajo. Viemos em busca de neve mas, ainda que a vislumbrássemos em alguns picos serranos, não conseguimos lá chegar. Mas a jornada não foi em vão. Aliás, se guardava uma imagem mental muito querida deste lugar, hoje tenho fotografias que provam como ele é incrível. 
Resguardada, mas também isolada, durante séculos entre as serras do Soajo, Peneda e Amarela, a pequena vila do Soajo (concelho de Arcos de Valdevez) revelou-se particularmente favorecida ao longo da História para grandes caçadas e criação de gado. 
Consta que, no reinado de D. Dinis, os caçadores do Soajo se queixaram dos abusos dos fidalgos, pelo que o monarca ordenou que os senhores não se demorassem ali mais do que "o tempo de esfriar um pão na ponta de uma lança". Há quem diga que terá vindo daí a curiosa forma do pelourinho da terra.
Sabem? Ainda hoje, esta é uma vila muito peculiar, com a sua vida comunitária ligada à agricultura e à pastorícia, com os pastores a mudarem de casa na primavera (para as "brandas") e regressando à casa principal no inverno (inverneiras) com os animais.
Mas o Soajo é famoso sobretudo pelo conjunto de espigueiros que se ergue sobre uma enorme laje de granito, usada como eira comunitária. Ao todo são 27 (o mais antigo de 1782) e servem para secar o milho, protegendo-o das intempéries e dos ratos. 
Construídos em pedra, apoiam-se em vários pilares, directamente assentes na rocha, sobre os quais se abre uma peça redonda para evitar que os ratos comam os cereais (os roedores não conseguem andar de cabeça para baixo, julgo eu).

Para os soajeiros, o pelourinho representa o famoso privilégio do “pão quente”:
a coluna representa a espada e o topo o pão (os historiadores discordam).




- Parece um cemitério - lança o pequeno explorador, aludindo às cruzes que enfeitam os espigueiros e que invocam proteção divina. Os olhos de uma criança são sempre muito verdadeiros; acho que o lugar o transportou até ao Egipto, onde as grandes construções de pedra onde outrora se enterravam os mortos são motivo de interesse turístico.
Não muito longe dali, na aldeia de Lindoso (concelho de Ponte da Barca), mesmo à porta do Parque Nacional da Peneda Gerês, um conjunto semelhante destaca-se pela sua imponência. Paramos para apreciar o castelo do século XIII, do qual se vislumbra uma fantástica paisagem sobre o rio.
Ora é precisamente atrás deste castelo que fica o maior aglomerado de espigueiros antigos da Península Ibérica: são cerca de 60, dos séculos XVII e XVIII,  ainda hoje utilizados para a secar os cereais. A Serra Amarela emoldura este aparatoso conjunto e, também ela está pontilhada de branco. Infelizmente, só se consegue alcançar o topo fazendo uma caminhada de muitos quilómetros, já que o único caminho florestal está vedado aos automóveis.






A neve fica para outra aventura, mas a alma regressa consolada a casa.

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19 comentários

  1. Bravo! Bela postagem. No Brasil os celeiros também eram construídos (em lugares pequenos ainda são) sobre algum tipo de estaca, supostamente para impedir a entrada de ratos e outros bichos, que parecem ter especial apreço por milho. Imagino que deva funcionar, ou já teriam deixado de ter trabalho com construções desse tipo rsrsrssss

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  2. Ruthia, quantos lugares mágicos você já me apresentou! E com uma riqueza de detalhes que encanta, seja na parte histórica, seja nos registros fotográficos. Eu me identifiquei com a observação de seu filho, pois cruzes nos remetem a igrejas e cemitérios (rss). A neve não fez mesmo falta, já que puderam contemplar essa beleza e se sentirem felizes. Bjs.

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  3. concordo com o Pedrinho, parece um pequeno cemitério de cidades de interior.... somente após ler o post compreendi do que se tratava.... o lugar é lindo e pertinho de vocês... como é bom quando o povo se preocupa com a cultura, sua conservação, a história... aqui, infelizmente, o concreto do progresso destrói sem dó e nem piedade monumentos históricos, prédios que contam a história da cidade... tudo em nome do progresso, e o pior, fica o terreno descampado, sem obra, ao Deus dará... são dois locais só aqui pertinho... uma linda casa centenária que foi derrubada e um prédio que abrigou hospital, escola... com cerca de 150 anos... é triste ver, neste cantinho como em todo o Brasil, que nosso povo ainda é ignorante neste quesito! beijos amiga querida, desejando excelente semana, com muitas alegrias e postagens maravilhosas!!

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  4. Mesmo sem encontrar a desejada neve. o passeio valeu! Lindas fotos e interessante saber disso tudo aqui! bjs, chica

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  5. O Pedrinho ficou deslumbrado com os espigueiros e eu também! Nunca vi assim!
    Quem sabe não passo a vê-los neste Verão :)
    Beijinhos e obrigada pela bela crónica!

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  6. Conheço o Lindoso, nas não o Soajo. Há uma série de aldeias que ainda gostava de conhecer. Vejamos se será possível algum dia.
    E então o pequeno príncipe está quase a fazer oito aninhos. Parabéns para ele e para vós.
    Um abraço e bom fim de semana

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    1. Obrigada, cara Elvira. Hoje é dia de festa cá em casa

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  7. Gosto imenso de espigueiros. Já vi muitos e tenho belas fotos que lhes tirei. Essa zona é pródiga nesse tipo de construção.
    A tua reportagem está muito boa (como sempre...) e a falta de neve não a prejudicou (para nós, que a apreciamos do lado de cá...)

    Quero deixar um grande abraço de parabéns ao Pedrinho que, pelas minhas contas, faz hoje oito anos. Estou certa?...
    Para ele desejo toda a felicidade do mundo, assim como a todos que o amam e que ele ama.

    Bom fim de semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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    1. É mesmo hoje, Mariazita. São 8 anos de muita felicidade.
      E ele está radiante porque o pai veio de propósito de Angola, só durante o fim-de-semana, para festejar connosco.
      Muitos beijinhos

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  8. Querida Ruthia

    Que lindos recantos nos traz deste Portugal que, ao fim e ao cabo, é imenso. Bastará explorar e ver com olhos de ver como o seu pequeno explorador. Belas imagens e um texto que nos leva em viagem por essas paragens.

    Obrigada pela sua presença no Xaile.

    Bj

    Olinda

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  9. Deslumbrante a paisagem que abarca o rio, Ruthia! E o Pedrinho está certo... num primeiro olhar parece mesmo um cemitério, hehe.
    Impressionante o lugar! Amei!
    :)

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  10. Retalhos arquitetônicos de hábitos antigos presentes hoje, levam nossa imaginação pela história.Num primeiro olhar, tive a mesma impressão que o Pedrinho, rsrsrs.

    Bucólicas paragens! Gostei demais, Ruthia.
    Bela semana pra vcs.
    Calu

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  11. Todos os pretextos são bons para sairmos da nossa zona de conforto. Ao fim e ao cabo, por mais que sejamos auto-suficientes, é lá fora que a vida gravita, na sua plenitude. Nós somos meros acessórios.
    A visita foi ao Soajo, podia ser a outro lugar qualquer. Importante, importante mesmo, é sentirmo-nos ligados à corrente.
    (O Pedro cada vez interage mais com o que se lhe depara, dá para perceber)

    Boas andanças :)

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  12. Boa tarde, Lindas fotos, os espigueiros são maravilhosos, no sul não existem. todas as fotos são perfeitas.
    AG

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    1. Perfeitas é um elogio muito grande, vindo de um belíssimo fotógrafo. Grata :)

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  13. Ruthia,

    Portugal soma inumeros lugares fantasticos, acredito que tem para todos os gostos e ocasiões. Em tempo, parabens ao Pequeno Explorador. Vi no FB.

    Bjs

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  14. Ruthia, nos fazendo viajar através das fotos lindas! E o explorador fazendo parte de tudo isso e capturando com o melhor olhar do mundo, o da criança. Que Deus o abençoe e o proteja sempre!
    E um Feliz das Mulheres pra vc, linda!

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  15. Oi querida, te indiquei para receber o Prêmio Dardos, lá no meu blog. Espero que gostes. Caso não saibas, este prêmio é concedido a blogueiros para reconhecer "o esforço, criatividade e dedicação para manter um blog" e "valores pessoais, culturais, éticos e literários". Este prêmio também é conhecido como Best Blog Darts Thinkin.

    Amo estar por aqui quando tenho um tempinho e viajar com você pro lugares interessantes :)

    beijinhos;*
    http://noostillo.blogspot.com.br/2016/03/entrega-de-premios-dardo-2016-melhores.html

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  16. Pelo visto a sensibilidade é um traço familiar. Pedro é um menino feliz. Lindo post !

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!