O jardim francês de Blanche

by - 14:00













Finalmente está pronta, a casa que sonhei para a minha bela e amada Blanche. Não podia arrastá-la do seu mundo parisiense sem lhe dar tudo a que está habituada.
A nossa bela casa rosa é motivo de muita polémica, bem sei. Mas que sabem estes provincianos acerca de Modernidade? Porque haveria de querer uma casa estreita e sombria, igual a todas as outras no Porto? Prefiro mil vezes as de Biarritz, onde passamos férias, com as suas cores inusitadas e as maravilhosas linhas Déco.
Consigo imaginar a minha noiva a dançar nestes salões altíssimos, de cor tão suave como o seu colo perfumado. A luz jorra, abundante, dos grandes janelões que rasgam as paredes e que se abrem para o nosso belo jardim geométrico. 
Não poupei esforços nem dinheiro para criar este refúgio. Fazem ideia de quanto paguei ao Gréber? Que discurso eloquente declamei para o convencer a vir criar um jardim a Portugal? Ele, que fez tanto sucesso no Canadá e nos Estados Unidos, acedeu ao meu convite. Agora voltou para Paris, foi escolhido como arquitecto chefe da Exposition International, o que ainda enaltece mais este trabalho.
Quem conheceu a Quinta do Lordelo, a velha casa de férias dos meus pais, fica de queixo caído assim que atravessa o portão e se depara com a grande alameda de liquidâmbares. Os americanos chamam sweetgum a estas árvores magníficas, mas "liquidâmbar" é tão mais elegante. Mal posso esperar pelo Outono: as folhas vermelho fogo vão criar um tapete triunfal.
Nem todas as espécies foram fáceis de transportar - ai as sequóias gigantes e os cedros do Atlas! - mas o resultado faz tudo valer a pena. Agora sim, a propriedade é digna dos Condes de Vizela e a minha bela Blanche vai ser muito feliz aqui. Este lugar vai ficar na História.

O Pedrinho e a prima no jardim francês que se abre perante a Casa rosa.
A exposição de fotografia macro revela outra faceta dos jardins.


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O monólogo acima poderia muito bem ter sido de Carlos Alberto Cabral (1895−1968), segundo Conde de Vizela e abastado industrial, mas nada mais é que fruto da minha imaginação exuberante. O post foi inspirado numa visita guiada aos Jardins de Serralves, no Porto.
A Casa de Serralves foi criada nos anos 30 do século passado pelo aristocrata nortenho para a sua noiva, a manequim parisiense Blanche Daubin, e rompeu com os cânones estéticos da altura. O desenho que o conceituado arquitecto Jacques Gréber fez para o Jardim foi influenciado pelos jardins franceses dos séculos XVI e XVII, nomeadamente o de Versailles.

A Casa acabaria por ser vendida nos anos 50 ao Conde de Riba D'Ave, antes de chegar às mãos do Estado que aqui instalou um Museu de arte contemporânea (1996). Em 2012, todo o conjunto (edificado e natural) da Fundação de Serralves recebeu o estatuto de Monumento Nacional.
No Jardim podem encontrar-se espécies autóctones (como o teixo, que está em risco de extinção, o pinheiro bravo, o castanheiro e vários carvalhos) e exóticas (sequóias da Califórnia, liquidâmbares, cedros-do-Atlas, castanheiros da Índia, rododendros e camélias).

Site de Serralves aqui.
Entrada gratuita no primeiro domingo de cada mês.


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17 comentários

  1. Bom, menina, muito bom! Viajar e compartilhar de forma tão poética e delicada..

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    1. Muito obrigada pelo seu amável comentário EMRC. Seja bem vinda aO Berço.
      Abraço

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  2. Lindo teu post, adorei o monólogo introdutório e as fotos lindas! Pedrinho está grande! Tudo lindo! bjs, chica

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    1. Está grande e esperto, Chica. Sou uma mãe muito babada :)
      Beijinhos

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  3. Amo quando partilhas a tua sensibilidade, Ruthia!
    Tua imaginação, tão criativa, emoldura as imagens e aprendemos mais um pouco contigo.
    Lindas companhias para o passeio, o Pedrinho já está um mocinho, como o tempo passa!
    Obrigada, tenha uma linda e agradável semana, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  4. Boa tarde, viajar é maravilhoso, mais maravilhoso é quando se visita o que não vamos esquecer.
    AG

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  5. nu fundo, no undo, queria que este monólogo tivesse nomes e épocas diferentes, sendo que o teu constasse nele e que fosse atual!!!
    Lindo local querida amiga! bjs

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  6. Linda casa, belíssima paisagem, magnífico o lugar escolhido!
    A propósito, as sequóias gigantes devem ficar lindas neste jardim, não!

    Bons ventos por aí Ruthia!!!

    Bia
    www.biaviagemambiental.blogspot.com

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  7. Muito bonito. Será que as espécies exóticas tiveram boa adaptação ao seu "novo lar"?

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    1. Tendo em conta que o projeto do jardim é de 1932 e que os condes se mudaram para esta casa nos anos 40... e que as árvores continuam lá, fortes e lindas, diria que se adaptaram muito bem :)
      Abraço Marta

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  8. Ruthia,

    Algo que me encanta muito no estilo europeu é cuidar muito bem dos jardins.


    Bjs

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  9. Que poética a narrativa em primeira pessoa, Ruthia. Bravo! Bravo!
    Abraços,
    Ana Christ
    www.nativosdomundo.com.br

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  10. Que inspirada está a menina!!! Delicioso monólogo! Será que a Blanche acabou por se aborrecer por cá?
    Beijinhos, um bom dia! Por cá chove e está cinzento, o que ainda me dá mais sono...

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  11. Muito interessante. Não conhecia. Vamos a ver se em Maio consigo ir até lá.
    Obrigado pela partilha.
    Um abraço e bom fim de semana

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  12. Monólogo perfeito!...e o Pedro com a prima, no encantador jardim, dá prazer em ver!Maravilhosa postagem, Ruthia, meu abraço, bom domingo!

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  13. uma verdadeira escritora !!!!! Lindíssimo post !

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!