O humor da Coruña

by - 08:09




Um sorriso rasga-se-nos na face ao descobrirmos, por acidente, a praceta mais divertida da Corunha, a dois passos do centro histórico. A Praza del Humor (em galego), que fica muito perto do mercado de San Agustín e se chamou outrora Praça dos ovos, recebe-nos com uma série de pedestais em bronze, todos eles dotados de monumentais narizes aduncos.

Dizem que o nariz não serve literariamente para nada, a não ser atrapalhar, para ser metido onde não é chamado, para ser assoado como um trombone ou meter berlindes lá dentro. Que um autor titubeante destrói um projecto literário no momento de descrever um nariz e, por isso, o prudente Homero se escusou a tal desafio, sendo por isso que o calcanhar de Aquiles ficou na história, mas não o seu nariz.

Mas na escultura, o nariz não sofre estigmas, pode ser justamente destacado, pode mesmo ser exagerado sem pudores. Assim o entendeu o autor dos bustos da Praça do Humor, atribuindo pronunciadas pencas a três gigantes do humor galego: Julio Camba, Wenceslao Fernández Flórez e Vicente Risco.








Não que os senhores façam parte do meu conhecimento enciclopédico, mas o Ayuntamiento assim o diz e eu vou acreditar por dois motivos. Primeiro, provavelmente outros autores não humorísticos ficariam aborrecidos por serem assim caricaturados. Segundo, quem gastaria dinheiro homenageando gente aborrecida numa praça dedicada à arte do riso?

Adiante. Num piso superior, outros dois génios do humor [os autores Alfonso Castelao e Álvaro Cunqueiro] repousam resfastelados em bancos de granito, um em frente ao outro. Estarão a jogar ao sério!? O Pedro senta-se com um deles, numa amena cavaqueira, enquanto eu percorro o piso de mármore, apontando célebres personagens com as quais cresci.

Ali está a imortal Mafalda de Quino, a Pantera Rosa, Mortadelo y Filemón, partilhando democraticamente o espaço com grandes autores. Lewis Carrol cumprimenta o pequeno Charlie Brown, enquanto Jonathan Swift joga às cartas com Jardiel Poncela e o Cantiflas se exibe perante um grupo de disneyrianos.






No meio da praça, o corno do Gatipedro** continua a jorrar água, indiferente ao rebuliço que o rodeia. Parece que, há uns anos, desapareceu misteriosamente, provavelmente pelas mãos de um sarcástico brincalhão.

O humor da Corunha acompanha-nos noutros pontos da cidade. Na Torre de Hércules, somos surpreendidos por uma personagem que parece ter saltado das páginas de uma BD, igualmente detentora de um generoso nariz [começo a ver aqui um padrão]. Como sou muito perguntadora, fico a saber que está relacionada com a exposição patente no mais antigo farol do mundo ainda em funcionamento (tudo sobre a Torre de Hércules aqui). Resta saber porque carrega uma sandes monumental...

A mostra faz parte do Viñetas desde el Atlántico, um festival internacional de banda desenhada que a cidade organiza desde 1998 e que perdemos por um par de dias. O palácio municipal também entrou no espírito, plantando os irredutíveis gauleses Astérix e Obélix à sua porta.

Os portugueses estão bem precisados de uma terapia intensiva de riso, não vos parece? Talvez possam aprender com os vizinhos galegos.




:::::::::::
**O Gatipedro é uma personagem de Álvaro Cunqueiro. Trata-se de um gato branco com um corno na cabeça de onde jorra água. À noite, o gato malandro visita meninos adormecidos, molhando-lhes os pés para que façam xixi na cama...


You May Also Like

18 comentários

  1. O mundo todo anda precisando de terapia do riso.
    Por que Praça dos Ovos?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não consegui saber. Provavelmente estaria relacionado com o mercado, já que começou por se realizar na rua?!

      Eliminar
  2. Muito interessante.
    Gostei de a ver bem como o pequeno explorador. Estão lindos.
    Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada, cara Elvira. O pequeno explorador alegra qualquer post.
      Abraço

      Eliminar
  3. não só os portugueses necessitam dessa terapia amiga querida, mas boa parte dos viventes desse planetinha azul denominado de terra!! amei o post! bjsss agradecendo a luz que dizes que tenho!! saudades...

    ResponderEliminar
  4. Estou de acordo com a Adriana e gostei bastante de ver as fotografias.
    Um abraço e continuação de uma boa semana.
    Andarilhar

    ResponderEliminar
  5. Não só os portugueses, mas também nós, os brasileiros, estamos precisados de uma terapia de risos! Aliás, o mundo inteiro anda cinza demais com tantas guerras e ódios, que seria uma boa jogar um "pó de riso" do alto desses aviões de guerra pra ver se melhoram os humores... rs
    Acho tão curioso o nariz ser sempre esse alvo do riso! Sejam os vermelhos do palhaço, ou os grandes das caricaturas... o que será que tem no nariz que achamos tanta graça? rs
    Mais uma vez, um prazer vir até seu berço, amiga querida!
    Um beijinho carinhoso,
    Ana Christ

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Quem resiste a um belo nariz?
      É sempre um prazer recebê-la, minha querida

      Eliminar
  6. Interessantíssima esta parte humorística da Coruña.
    Quanto a nós... temos fama de sorumbáticos, mas eu não concordo.
    Pela minha parte sou uma pessoa naturalmente alegre - o que não significa que não tenha momentos de tristeza, e a verdade é que todos nós temos motivos para preocupações. (para tanto basta a incerteza do "amanhã"...)

    Bom Fim-de-semana
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

    ResponderEliminar
  7. Olá, Ruthia

    Bom dia!

    Concordo um pouco com a Mariazita. Os portugueses são tidos como um povo triste mas nas reuniões de família, nas festas populares genuínas e outras situações são alegres e com grande sentido de humor, dentro do seu próprio registo, como é natural.
    Gostei muito do post, em que traz até nós o humor da Corunha, o que me fez rir e recordar um episódio que se passou comigo em criança, com o meu nariz. Nas brincadeiras à beira-mar com os meus irmãos, encontrei um bocado de esponja, ou coisa parecida, que cheirei. O pior é que a coisa, com o impulso, entrou-me para dentro do nariz. Fazia-me impressão mas não dizia nada a ninguém. Com o andar do tempo, aquilo começou a deitar um cheiro esquisito e a minha mãe levou-me ao médico. Este, pensando que se tratava de uma infecção, toca de me passar medicamentos para combater isso e, já se sabe, antibióticos. Mas nada de melhorar. Um dia, o meu pai, levou-me ao pátio da nossa casa e colocou-me contra a luz-poente, inclinou-me a cabeça para trás espreitou e disse-me assim: "Faz força como se estivesses a assoar-te". Assim fiz e de lá saltou a coisa que já trazia um aspecto muito pouco recomendável. Claro que os meus irmãos em vez de terem pena de mim fartaram-se de fazer chacota e, por fim, também eu entrei na brincadeira.

    Desejo-lhe um bom fim de semana.

    Beijinhos

    Olinda

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. HAHAHA, muito obrigada por partilhar esse episódio delicioso e pelas belas gargalhadas que me proporcionou. Os irmãos não podiam deixar escapar o "snifar da esponja"... Aposto que ainda falam nosso nas festas de família.
      Beijinho Olinda e um lindo fim-de-semana

      Eliminar
  8. Boa noite, Ruthia, amei conhecer o humor de Corunha, tinha a impressão que os portugueses, não eram muito alegres, eram mais melancólicos, mas gostei desse lado mais leve...
    Imagino o quanto o Pequeno Explorador Pedro, se diverte com as lindas e alegres descobertas...
    Estás muito linda, Ruthia, como belos são teus posts, gratidão pela partilha, felizes e alegres dias, abraços carinhosos
    Maria Teresa

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cara Teresa, os portugueses têm realmente um lado não diria melancólico, mas nostálgico, que a saudade e o fado traduzem muito bem. Mas tal como não posso generalizar o povo brasileiro a samba e futebol, também os portugueses são muito diferentes. E ainda bem. Viva a diversidade e, já agora, o humor!
      Beijinho

      Eliminar
  9. Que delicioso passeio pelo humor de Corunha! Ri-me e deliciei-me em momentos vários. Já que o nariz está em pauta, lembrei-me do conto O Nariz de Gogol, que arrancou-me deliciosas risadas quando o li. :) bjs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não conheço mas vou tratar rapidamente de remediar tal ignorância, haha. Há muito que um livro não me conduz às gargalhadas. Talvez porque ultimamente só leio livros técnicos, legislativos e históricos. Ufa!

      Eliminar
  10. "Que coisa mais distinta! Mas o humor pode (quase) tudo e é isso que o faz tão intrigante! Belo post e lindas fotos!

    ResponderEliminar
  11. haha adorei o essa praça. Inclusive, acho que esse tipo de intervenção artística reflete muito a cultura do lugar. Já quero visitar esse lugar. :D

    ResponderEliminar
  12. Muito legal este espaço, adorei o texto. Este local parece muito divertido, parabéns pelo post.

    ResponderEliminar

«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!