O doce fálico de Amarante

Como é que um bolo em forma de pénis se tornou o símbolo, até a mascote, de uma cidade nortenha ultraconservadora? Hoje visitamos Amarante, em busca dos “quilhõezinhos de São Gonçalo”



O Tâmega empresta um tom bucólico à cidade, ali a meia hora do Porto. As lânguidas margens do aéreo rio, para recordar o verso de Teixeira de Pascoaes que aludia à neblina que dele se ergue, estão belamente emolduradas por elegantes choupos.

Reza a história que foi São Gonçalo, em 1250, que mandou construir uma travessia entre as duas margens. Uma ponte que se desmoronou no século XVIII devido às cheias, que foi recuperada e, entretanto, assistiu a dramáticos episódios da História. Foi ali que o exército português resistiu ao invasor napoleónico, que acabou por ocupar e incendiar a cidade (1809), e se deu um embate decisivo da guerra civil, 25 anos depois.

Mas nada disso nos ocupa o espírito enquanto atravessamos a ponte, conquistados pelo majestoso Convento de S. Gonçalo no fim do caminho. O olhar pousa na Varanda dos Reis, com as estátuas dos quatro monarcas que reinaram durante os 200 anos da construção da igreja: D. Sebastião, D. João III, D. Catarina e D. Filipe I.

O religioso infunde carácter à cidade de Amarante, que nasceu com a chegada de um certo Gonçalo, no século XIII. Dominicano e evangelizador no Médio Oriente, a sua fama de santidade atraiu gente e peregrinos, que se desviavam do caminho de Santiago para o ouvirem.

Os conventos e mosteiros multiplicaram-se na região – incluindo o belo Mosteiro do Salvador de Travanca, que visitamos recentemente (aqui) - e São Gonçalo, embora não fosse amarantino, tornou-se uma figura maior da cidade.





No recolhimento da igreja, junto ao altar, repousa o túmulo deste Gonçalo que o Vaticano chama de beato, mas que o povo decidiu elevar a santo. Obviamente, ali mora a sua imagem que é alvo de particular atenção das solteironas mais velhas. Reza a lenda que quem puxar o seu cordão encontrará marido no prazo de um ano. Outros dizem que é preciso tocar no túmulo…

São Gonçalo de Amarante
Casai-me que bem podeis
Já tenho teias de aranha
Naquilo que vós sabeis 

Esta tradição casamenteira está intimamente ligada aos doces fálicos, representação icónica associada às preces e rituais para arranjar noivo. Não se sabe muito bem como começou tal aura prodigiosa, mas causa alguma apreensão às raparigas mais novas, de cujas queixas ficou a célebre quadra, cantada na romaria dos primeiros dias de Junho:

São Gonçalo de Amarante
Casamenteiro das velhas
Porque não casais as novas
Que mal vos fizeram elas?


As ruínas do Solar dos Magalhães recordam a invasão napoleónica, quando a cidade foi incendiada.



Longe vão os tempos em que os quilhõezinhos de S. Gonçalo se ofereciam às escondidas (durante o Estado Novo foram considerados obscenos e um atentado à moral) ou se vendiam apenas na rua durante as romarias. Pastelarias como a Confeitaria  Tinoca apropriaram-se do doce, elevando-o à categoria gourmet, e as lojas de artesanato transformaram-no em souvenirs.

Na origem do símbolo poderão estar rituais pagãos, entretanto cristianizados. Certo é que os quilhõezinhos sobreviveram e continuam a arrancar gargalhadas aos turistas, sobretudo os de dimensões ousadas, já que alguns chegam a atingir um metro.
 




Outras visitas – Museu Amadeo Souza-Cardoso
 
Anexo ao Convento de S. Gonçalo, este museu municipal criado em 1947 expõe obras de artistas e escritores amarantinos. A exposição permanente reúne obras de pintura e escultura de Arte Portuguesa Moderna, onde se destaca Amadeo de Souza-Cardoso, um dos maiores pintores modernistas portugueses.

Além de Souza-Cardoso (que tem um avião da TAP com o seu nome), a lista de prodígios nascidos em Amarante inclui o poeta Teixeira de Pascoaes, que aqui ganhou a reverência pela natureza que caracteriza a sua obra, Agustina Bessa-Luís, uma das mais respeitadas escritoras portuguesas, bem como os pintores António Carneiro e Acácio Lino.



Museu Amadeo de Souza-Cardoso: site | terça a domingo (excepto feriados) 10h-12h30, 14h-17h30 | Bilhete: 1€ (adulto) grátis (até aos 15 anos)

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33 comentários

  1. Argh, não conheço nenhuma tradição parecida com essa no Brasil. Mas não deixa de ser divertido rsrsrssss...

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  2. Tirando o docinho fálico (que aqui não há) no Brasil há muitas cidades nomeadas São Gonçalo, São Gonçalo do Amarante ou simplesmente Amarante. A do Ceará é São Gonçalo do Amarante. Temos a Dança de Gonçalo e meu pai cantava uma musica que Falava que São Gonçalo casasse as moças soteiras. Quando estive em Portugal, pela primeira vez, fui à Amarante conhecer a Igreja de São Gonçalo. Era solteira, então, e fiz o meu pedido, em silêncio.

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    1. Sabendo que a Lúcia teve um casamento longo e feliz, a minha fé no beato aumentou exponencialmente...

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  3. Tive que rir com a quadra e com os doces. Que estranha e bem típica tradição! Gostei de conhecer ! bjs, chica

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    1. É para rir mesmo, Chica. Para coisas tristes já temos os telejornais diários.
      Beijinho

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  4. Jesus!!!É para se rir.... imagine comer um doce desses e ser fotografada com tal 'apetrecho' na boca??? kkkk adorei a ideia... pensando até em criar algo similar por aqui!!! somente preciso de uma história bem convincente para que seja sucesso! (hj estou com humor daqueles) bjssssss

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    1. Pois olha que lá a moda pegou mesmo. Tanto que já encomendam um desses gigante para os aniversários, haha.

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  5. Que historia interessante! Não conhecia!
    Eu ia rir um bocado se estivesse lá e mordesse um doce falico!

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    1. Eu trouxe para comer em casa. A confeitaria de que falo no post recheia o bolo na hora, existem várias opções de recheio. Para além do doce fálico, existem muitos doces conventuais na cidade. Todos deliciosos

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  6. Hahaha muito boa essa, nunca havia escutado falar disso.
    Parabéns pela escrita, nota-se mesmo que é uma leitora compulsiva.

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  7. Nossa bem diferente né, também ri rs =) Doces que parecem deliciosos.

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  8. oi Ruthia... perdoe-me a repetição, mas não resisto: mais um lindo texto, cheio de poesia, que nos pega pelo coração e nos deixa a suspirar! :)

    Alegraria muito minha alma atravessar aquela ponte, personagem de tantos momentos da história desse Portugal tão querido (desconfio ter nascido pelo norte deste país em alguma outra vida) principalmente para depois encontrar-me com o Convento de S. Gonçalo!

    Aqui temos o Cacau no Nacib, chocolate de formato similar ao doce de Amarante, mas que não tem conotação casamenteira! rsrsr Faz alusão aos personagens Seu Nacib e Gabriela do escritor baiano Jorge Amado. Um clássico de nossa literatura. :) bjus e obrigada por mais este passeio.

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    1. Conheço muito bem as personagens. Adoro a obra de Jorge Amado. A minha favorita será, porventura, Os Capitães de Areia. É uma justa homenagem ao Sr. Nacib :)
      Beijinho

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  9. Gente, que louca essa história! Realmente, não conhecia esse doce! rs

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  10. Querida Ruthia
    Não se se haverá outro lugar no mundo com um doce com esta configuração...rsrsrsrsss
    A verdade é que, independentemente do nome por que são conhecidos... são bastante saborosos ... rsrsrsrssssss
    Conheço bastante bem Amarante. Como vivi no Porto muitos anos, passávamos por lá frequentemente. E... tenho um fraquinho muito grande pelo Minho.

    Continuo aguardando o TU. Quando a menina se resolver, avise-me, por favor.

    "Ver-nos-emos" em Setembro.
    Até lá desejo dias muito felizes.

    Continuação de boa semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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    1. Desculpe, oops, desculpa Mariazita. Não tenho problemas em tratar por tu alguém da minha idade, desde que mo autorizem. Agora apos tanto tempo, vai ser difícil entranhar... hahaha

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  11. Ah, quanto lugar bonito ao norte de Portugal.... Assim fico "tentada" a voltar antes do que imaginava! Cidade bucólica sim, e com um mascote pra lá de inusitado! Penso que vou ter que compilar todas as informações que leio aqui e montar um pequeno livro-manual com dicas de lugares fantásticos. Pronto, arranjei mais um trabalho!

    Grande beijinho Ruthia e bons ventos sempre!

    Bia
    www.biaviagemambiental.blogspot.com

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    1. Será sempre bem vinda e terei muito prazer em partilhar um pouco dessa aventura. Bons ventos por aí também, Bia

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  12. Ai que cena... E eu que fui vezes sem conta a Amarante com os meus pais em criança! Lembro-me de irmos comprar doces a uma confeitaria bonita junto da ponte, seria essa? Mas não me recordo desse doce!
    Beijinhos

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    1. Essa é a Confeitaria da Ponte, vende os doces conventuais de Amarante mas não vi lá quilhõezinhos

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  13. Quanta novidade junta! Não conhecia a história. Estou precisando conhecer o norte de Portugal! terrinha amada !!

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  14. Olha só que curioso, hehehehe, eu não sabia da existência deste doce obsceno, nem de toda esta história. Que legal o post.

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  15. Genteeeee que engraçado isso hahaha. Eu vi esses dias memso uma foto desse hj e fiquei curiosa para saber a história e agora com seu post consegui entender rs e a cidade parece ser fofa. Abraços

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    1. A cidade é muito charmosa, a zona ribeirinha, perto do rio merece um passeio bem pausado.

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  16. Gente, não tô acreditando nisso! KKkk.. Eu tô rindo demais. Nunca ouvi falar dessa cidade e muito menos dessa tradição Kkkk.. Eu juro que eu tô muito chocada. Portugal deve ser mesmo demais kKkk... Adorei saber dessa curiosidade! :P

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    1. Pois é Niki, Portugal é uma caixinha (quase literalmente, pelo seu tamanho liliputiano) de surpresas. Se explorar um pouco O Berço, verá quantos lugares maravilhosos e curiosos é possível conhecer por aqui...

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  17. KKKKK Muito engraçado esse bolinho e essa tradição. Super curioso. Foi interesssante ler sobre isso.

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  18. Aqui no Brasil o santo casamenteiro é Santo Antônio, mas não tem esse doce aí do post. Mas a mor a cairia bem. Adorei a história.
    Beijinhos

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  19. Essa é uma coisa que não dá mesmo pra imaginar, mas achei a história realmente interessante e válida, cada lugar com a sua tradição e com certeza devemos respeitá-la!

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    1. Olá Flávia, é inusitado por demais, mas dá também um colorido ao lugar. Com certeza é uma tradição válida.
      Abraço

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  20. Olá, conheço a bela cidade Amarante, é ribeirinha e agradável para ser visitada e apreciada, infelizmente Amarante ficou mais conhecida por maus motivos.
    Feliz domingo e semana,
    AG

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  21. Nossa, eu nao conhecia essa cidade!! Imagina o quanto de risadas nao rendem esses doces.

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!