Os imperdíveis de Ponta Delgada








Nem só de campos verdejantes e vulcões vive o turismo de São Miguel. Palmilhamos a calçada negra e desvendamos os recantos da capital da ilha, porque há muito para ver num dos destinos mais sustentáveis do planeta.

O olhar alonga-se pela extensa baía que define o perfil de Ponta Delgada. Um concerto anima as Portas do Mar, o novo terminal marítimo desenhado pelo arquitecto responsável também pelo Centro Cultural de Belém ou pelo Estádio do Dragão.  

O cheiro a maresia acompanha-nos até às Portas da Cidade, onde o descobridor Gonçalo Velho Cabral - compincha do Infante D. Henrique e responsável pelo povoamento das ilhas do grupo oriental - nos dá as boas vindas.

Ponta Delgada começou por ser um simples povoado de pescadores mas a segurança das suas enseadas fez crescer a importância do porto e da cidade. Foi sobretudo a partir do século XVII que surgiram conventos, igrejas (o pórtico manuelino da matriz de São Sebastião fica tão lindo à noite), casa senhoriais e tantas outras construções, históricas e charmosas.



Ponta Delgada substituiu Vila Franca do Campo como a cidade mais importante da ilha, após o grande terramoto de 1522.


Uma das mais surpreendentes é a Capela de Nossa Senhora Esperança, junto ao convento com o mesmo nome, onde o poeta romântico da ilha, Antero de Quental, se suicidou.

O triste episódio está há muito esquecido. Quem entra na capela vai para apreciar os painéis de azulejos e, sobretudo, para rezar ao Senhor Santo Cristo dos Milagres, que motiva a maior celebração religiosa dos micaelenses, no quinto domingo depois da Páscoa. 

Poucos saberão que a jóia que enfeita a imagem é a maior do património português (documentário aqui). O Santo Cristo de punhos atados, coroa de espinhos e manto púrpura tornou-se um símbolo tão popular que pode ser encontrado em qualquer lojinha de souvenirs, em canecas, porta-chaves… you name it.

Apesar de ser a principal urbe dos Açores, Ponta Delgada tem a tranquilidade de uma cidadezinha do interior. As casas caiadas de branco contrastam com o negro do basalto, sorrindo vaidosas com as suas varandas de ferro rendilhado. As tasquinhas transbordam de clientes até à rua, onde um brasileiro dedilha o seu violão.

Mãe olha eu aqui ganhando honestamente a vida – declara, entre duas canções melosas.


A minha mãe e o pequeno explorador apreciam os painéis de azulejos na capela N. Senhora da Esperança.
A imagem de Santo Cristo dos Milagres terá sido oferecida pelo Papa Paulo III às freiras do Convento de N. Senhora da Esperança.


Os turistas, cada vez em maior em número, deambulam sob a humidade açoriana, de mapa na mão, em busca dos monumentos e pracetas de calçada negra, feita de basalto, a pedra vulcânica que abunda na ilha. Ao contrário do que acontece no continente, aqui o calcário apenas serve para os detalhes, formando padrões tão interessantes que uma equipa da Universidade dos Açores criou dois percursos para os ver: o roteiro de frisos e o roteiro de rosáceas.

Pelo caminho, tropeçamos noutros pontos interessantes, já que vários edifícios históricos foram convertidos para outras funções: o governo regional ocupa o Convento da Conceição, o Forte de S. Brás acolhe um museu militar e o Museu Carlos Machado está instalado no antigo mosteiro de Santo André (séc. XVI), primeiro padroeiro da cidade.

Aqui e ali, grandes obras de street art recordam-nos que continuamos no século XXI. A maioria foi criada no âmbito do festival de arte pública Walk & Talk, que se realiza todos os Verões desde 2011. Vhils, Mark Jenkins, MAR, Mariana a Miserável, Paulo Arraiano e Eime são alguns dos artistas com obras espalhadas pela ilha, do centro de Ponta Delgada à vila de Rabo de Peixe.

Hora de repor energias, pelo que nos propomos devorar um belo prato de peixe. Em breve, um post sobre os sabores micaelenses, revelando os tesouros gastronómicos da ilha.








Esta viagem teve o apoio: Azores Easy Rent | Picos de Aventura | Azores Greenmark


Outras visitas: Gruta do Carvão
A Gruta do Carvão, no caminho do aeroporto, é um lugar fantástico para perceber a força vulcânica das ilhas. Mas para se maravilhar com as estalactites que pendem do tecto, é melhor reservar a visita no dia anterior. Porque a gruta com uma idade entre os cinco e doze mil anos atrai tantos curiosos que as visitas diárias (duas de manhã e três à tarde) esgotam rapidamente.



Portas do Mar: aqui. Mais do uma marina, onde aportam cruzeiros e partem os barcos de observação de baleias, as Portas do Mar têm muitas opções de lazer: piscinas, bares e restaurantes.
Festival Walk & Talk: aqui
Gruta do Carvão: aqui | Horário visitas: 10h30-11h30-14h30-15h30-16h30 | Bilhete: 5€ (adulto), 2,5€ (seniores e estudantes), 1€ (crianças 6-11 anos)

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29 comentários

  1. Quanto a ver, quanto a admirar e até aprender por lá! Lindas fotos e post! beijos, lindo fds! chica

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    1. Cada viagem é uma aprendizagem, Chica. Para mim tal como para o pequeno explorador. Regresso a casa sempre um pouco mais rica.
      Beijinho

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  2. Olá Ruthia!
    Minha sogra, que é portuguesa, assim como o marido dela, estiveram na Ilha de São Miguel em junho de férias! Eles moram no Rio, mas na primeira oportunidade estão em Portugal de novo... Ela chegou falando maravilhas deste lugar, especialmente os vulcões e as piscinas de águas quentes! Sem dúvida é um lugar que devo visitar algum dia, adoro essas demonstrações da natureza viva! Gostei muito de conhecer a parte cultural da ilha por aqui, fechou com chave de ouro!!!
    Beijinhos e um bom fim de semana

    Bia
    www.biaviagemambiental.blogspot.com

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    1. Acho que todos os portugueses achamos os Açores como o nosso tesouro natural mais precioso.
      Ainda poderá ler um ou dois posts sobre a ilha, antes de fecharmos esse capítulo.
      Beijinho

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  3. Já rolei a página acima e abaixo várias vezes, para rever as fotos...

    Belo post; estou, desde já, à espera do próximo.

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  4. Primeira vez que li sobre Ponta Delgada. Adorei! As fotos estão ótimas também :)

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  5. Que dicas preciosas, que lugar encantador. Adorei as fotos, os detalhes, a porta desta capela... quanta coisa bonita. Parabéns pelo post.

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  6. Que lugar lindo! Adorei os grafittis! Uma mistura de antigo com novo muito interessante! Ia adorar conhecer!

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  7. Ahh os Açores. Sonho conhecer. Seus detalhes e relatos são genuínos. E é claro com lindas imagens, meus parabéns

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  8. novamente uma magnífica aula de história e cultura.. amei ver tua mãe no post de hoje! estás te tornando uma viajante nota mil... e o melhor, teu pequeno explorador te acompanha com perfeição! só falta vires explorar terras tupiniquins, no sul do Brasil! (direta eu, hein?) bjs

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    1. Ficou muito por explorar na minha experiência Brasil, Dri. Quem sabe um dia volto

      P.S. A minha mãe não se deu muito bem com o clima húmido

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  9. Adorei o seu relato de lá e as fotos ficaram incríveis. Parabéns!

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  10. Ainda não conheço Portugal, mas sei que vou amar quando for. Achei o post muito interessante e aumentou a minha vontade de conhecer esse país.

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  11. Meu deus! que lugar legal! Adorei seu relato!! as fotos ficaram lindas demais!!!!

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  12. Tenho tanta vontade de conhecer este local. Amei o seu relato, fiquei com mais vontade ainda

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  13. que maravilhosa aquela foto da porta da igreja iluminada! eu adoro exatamente esse horario quando esta meio lusco fusco, as fotos sao dificeis de tirar, mas quando tem um resultado bom..n eh so bom eh incrivel! me lembrou um pouco a parte de ribeirão da ilha em Floripa, só não temos os azulejos azuis

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    1. Eu também gosto de fotos com este efeito, mas nem sempre correm bem. Aliás, gosto muito de fotografia, um dia ainda faço um curso.
      Abraço

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  14. Muito informativo e bem ilustrado o post. Adorei o lugar! Tenho que colocá-lo na minha interminável lista de desejos de viagens!

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  15. Que bacana ler sobre Portugal por uma portuguesa!
    realmente eu só conhecia Açores por conta dos vulcões, muito bom saber mais sobre esse lá!
    Quero muito conhecer agora os dois lados de lá... tanto dos vulcões como a história e arquitetura! =)
    Mas enquanto ainda não estou lá, só agradeço por compartilhar um pouquinho desse lugar fantástico! :D

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    1. Pois estou ao dispor para o que precisar de saber sobre o meu país, Luiza. Seja bem vinda aO Berço

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  16. Que legal! Eu nunca havia ouvido falar desse lugar mas me interessei em saber um pouco mais! Se não fosse pelo grafite de rua, diria que voltamos no tempo.

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  17. Que lugar encantador! Eu nunca ouvi falar, mas adoro essas localidades mais tranquilas. Se visitar a região, vou incluir no meu roteiro!

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  18. Que delícia de texto!
    sinto alguns "remorsos" por ainda não ter visitado essas ilhas fantásticas !
    vou ler o post seguinte
    beijinhos
    Angela

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    1. Olá Angela. Até há bem pouco tempo, eu sofria do mesmo mal. Agora só falta explorar o Alentejo para dizer que Portugal está razoavelmente bem representado aqui nO Berço.
      E os Açores são tão lindos...

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  19. Fiquei com uma vontade danada de grande de ver tudo isso de perto, de sentir essa atmosfera de cidadezinha do interior, ouvir os sussurros de histórias de um passado já esquecido, de sentir o tempo parar, pois em lugares assim, sinto que ele gira diferente...

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  20. Uma bela apresentação amiga.
    Gosto de ver lugares assim calmos e com suas tradições e manifestações religiosas que arrastam muitas pessoas de longe, movidas pela fé.
    Linda as artes de rua.
    Valeu a partilha deste lugar histórico e informações interessantes.
    Abraços e bjs de paz amiga.
    Muito bom seus olhares para nós.

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  21. Querida Ruthia
    Além da sua prosa agradabilíssima de se ler, informa-nos sobre tudo o quanto baste e ainda nos oferece uma bela reportagem fotográfica!
    Fiquei curiosa.
    Continuação de uma óptima semana.
    Um beijinho
    Beatriz

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  22. A foto com a sua mãe e o pequeno explorador é um encanto!

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!