Rota dos Gigantes 4: Arcos de Valdevez

As despedidas do vale do Lima fazem-se às portas do Gerês, a convite do padre Himalaya, esse estranho e visionário sacerdote católico-cientista-inventor com alma de viajante

Iniciamos a Rota dos Gigantes do vale do Lima em Ponte da Barca, pela mão do navegador Fernão de Magalhães (aqui), seguindo depois as pisadas do jesuíta Francisco Pacheco em Ponte de Lima (aqui) e do aventureiro João Álvares Fagundes em Viana do Castelo (aqui). Terminamos esta aventura guiados por Manuel António Gomes, mais conhecido como padre Himalaya, na pequena vila de Arcos de Valdevez.

© Eduardo Pimenta. Descobri o site do talentoso fotógrafo arcoense por acaso (aqui) que, amável, autorizou a utilização desta sua imagem.

Padre Himalaya? Não é curiosa a alcunha? Procurei até encontrar a razão da mesma e descobri que este filho de agricultores ficou assim conhecido no seminário de Braga (única opção para os bons alunos oriundos de famílias pobres conseguirem estudos superiores), por causa da sua estatura. Ou seja, os amigos começaram a chamá-lo Himalaia, ou Himalaya na grafia de então, por causa de ser muito alto…

Mas não foi a sua estatura que o colocou na lista de “gigantes” do vale do Lima. Não senhor. Ele dedicou a vida à ciência e criou várias invenções que o tornaram mundialmente conhecido. 

Os seus aparelhos foram apresentados em todo o mundo; mas causaram especial admiração na Exposição Universal (1904) do Missouri (EUA) onde conquistou o mais importante prémio graças ao Pirelióforo, uma estrutura metálica que captava a energia solar. O New York Times e outros grandes jornais americanos deram-lhe honras de primeira página.

Foi ainda naquele país que inventou a himalaíte, uma espécie de pólvora à base de cloreto de potássio. Mas os seus interesses passaram também por engenharia, hidroeléctrica, vulcanologia, sismologia, agricultura (desenvolveu adubos orgânicos, por exemplo) e medicinas alternativas. Vamos conhecer a sua terra-natal?


O rio Vez, um afluente do Lima, marca o ritmo da terra que viu nascer aquele inventor no século XIX. Diz-se que é um dos rios menos poluídos da Europa. As águas cantam alegremente enquanto atravessamos a ponte centenária.

Procuramos o Paço de Giela, monumento nacional que podem apreciar na imagem de entrada do post, construído em várias fases a partir do século XIV, onde assistimos a um pequeno documentário sobre o Recontro de Valdevez (1141), o torneio que opôs D. Afonso Henriques a D. Afonso VII de Leão, antes do nascimento da nacionalidade.

Graças a esse episódio – que resultou no tratado de Zamora onde o rei espanhol reconhece a soberania do nosso primeiro rei e a independência do condado Portucalense – se diz que Portugal nasceu em Guimarães (recordem a cidade dos meus afectos aqui) mas se fez em Arcos de Valdevez. Marketing bem-sucedido, digo eu!



O Recontro de Valdevez, entre D. Afonso Henriques e o seu primo, o rei de Leão, é evocado junto ao rio, no Campo do Trasladário.


O interior da Igreja Matriz, cujo orago é o S. Salvador.


O slogan surge na fachada da Câmara Municipal, num largo onde nos chama a atenção o curioso e retorcido pelourinho manuelino. Dali ao Jardim dos Centenários são dois passos, onde encontramos a Igreja Matriz com a sua capela rococó. Vale a pena passar ainda pela pequena Igreja de N. Senhora da Lapa e, mesmo em frente, pelo curioso relógio de água que evoca as palavras de Marc AugéOh tempo, suspende o teu voo! De acordo, disse o tempo. Mas por quanto tempo?

A sugestão parece funcionar. O tempo parece andar mais devagar aqui, efeito porventura do ar puro, do silêncio que nos conforta a alma ou das montanhas em redor. 

Respondemos ao apelo destas lânguidas encostas, onde o vinho verde amadurece, e rumamos à Porta do Mezio, uma das cinco entradas para ao Parque Nacional da Peneda-Gerês, esse magnífico território classificado pela Unesco como Reserva Mundial da Biosfera. 

Ali perto podem visitar-se vários monumentos funerários pré-históricos, procurar pinturas rupestres, visitar a bela aldeia do Soajo (recordem os seus belos espigueiros aqui), e apreciar paisagens deslumbrantes pontilhadas por vacas de longos chifres que pastam livres antes de se transformarem na matéria-prima do bife de cachena, típico da região.







Como chegar
A 36 km de Braga, a 40 de Viana do Castelo e a meio do caminho entre os dois aeroportos mais próximos – Porto e Vigo (90 km) – o acesso à vila dos Arcos faz-se pela auto-estrada A3 (Porto - Valença), seguida do IC28.

Onde comer
A carne de cachena com arroz de feijão tarrestre é o prato mais famoso, confecionado com uma das mais pequenas raças de vacas do mundo. Estas vaquinhas certificadas pastam, livres e felizes, sobretudo na Serra da Peneda/Soajo. Como sabem, não como carne, pelo que não provei. Para além da carne de cachena, come-se na região os rojões e papas de sarrabulho, vários pratos de cabrito e enchidos, regados com o fresco vinho verde local.

Todas as iguarias podem ser apreciadas no restaurante Foral de Valdevez, que nos serviu um arroz cremoso de tamboril exemplar, seguido do tradicional "charutos d'ovos" dos Arcos de Valdevez (que também podem encontrar na Doçaria Central).

Onde ficar
Fiquei no Luna Arcos Hotel Nature & Wellness, com vista para o rio, e recomendo vivamente. A tranquilidade da natureza envolvente, a decoração clean, a simpatia dos funcionários e o serviço de SPA contribuem para uma experiência muito relaxante. Gostei tanto da estadia que em breve farei um post mais pormenorizado sobre o hotel. Até porque acho que é a opção perfeita para explorar não só a vila e a Rota dos Gigantes, mas todo o Alto Minho.


Os charutos de ovos, de origem conventual, foram-nos servidos com gelado e frutos silvestres.
© Luna Hotels






Paço de Giela: aqui | ter-dom: 10h-13h e 14h-18h (inverno)| Entrada: 1€ (adulto), grátis (crianças até aos 12 anos)

Parque Aventura da Porta do Mezio: aqui | todos os dias Outubro a Março: 9h30-17h00 | Entrada: 2€ (a partir dos 6 anos)

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40 comentários

  1. Que lugar mais impressionante! Cada foto mais linda... e essas comidas? òtimas sugestões do inicio ao fim do texto!

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  2. Preferia que as vaquinhas continuassem a pastar livres e felizes, sem nenhuma condenação à morte em perspectiva... Mas o lugar é mesmo belíssimo.

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    1. Não diga esse sacrilégio em voz alta no Minho, Marta. Aqui quer-se carne e muita, haha. O lugar é lindo mesmo. Boa semana

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  3. Ahahaha. Adorei o padre Himalaia. Fico imaginando de que altura ele seria. hehehehe! Amei também a foto inicial do seu post. Me transportou pra um lugar mágico. Maravilhosa! O hotel então, nada mal, hein?! Beijos.

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    1. Não faço ideia quando media o padre, às vezes os miúdos colocam alcunhas por algo que é apenas um pouco mais do que o comum...
      O hotel era fantástico, Alessandra

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  4. Olá, Ruthia
    Que belo passeio, tão bem documentado!
    Fotografias maravilhosas e vendo bem, além do prazer de ler o que escreve, recebi uma bela lição de História.
    Obrigada.
    Um beijinho
    Beatriz

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    1. Obrigada Beatriz, é sempre um prazer recebê-la aqui n'O Berço. Também aprendi muito ao pesquisar para estes posts da rota dos gigantes.

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  5. Muito interessante. Passei lá perto no domingo.
    Tenho de visitar aquela zona minhota com mais calma!
    Obrigado Ruthia
    Bj

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  6. Querida Ruthia
    Vamos ver se consigo responder a todas as tuas perguntas…
    Desta vez estive nos Estados Unidos quase dois meses, mas mesmo assim, para visitar tantos lugares não pudemos perder tempo… foi sempre a andar dum lado para outro.
    Não foi a primeira vez que lá fui, mas sim a… sétima. E de todos os lugares que visitámos o único que não conhecia era San Francisco. Em todos os outros lugares eu já tinha estado, e nalguns mais do que uma vez.
    Mesmo assim… não visitei, desta vez, metade do que conheço dos Estados Unidos…
    O presidente é um palhaço. Em Washington nem queiras saber o que se via escrito até nos postes que suportam os semáforos. Não posso escrever aqui senão corrias o risco de o teu blogue ser considerado pornográfico :))))))))))))

    Não vou alongar-me em comentários a estes teus três últimos posts que acho fora de série.
    Só para que vejas - o meu sogro era natural de Arcos de Valdevez, eu casei e passei a lua de mel em Viana do Castelo, já visitei várias vezes Ponte de Lima... tenho várias fotos das vaquinhas a pastar livremente (NÃO COMO CARNE DE VACA)e da outra também muito pouco... portanto... sou uma mulher do Norte :)))
    Só podia gostar destas postagens!
    Ah! Não posso deixar de referir - "Tuteaste" muito bem! Veremos a continuação...

    Votos de uma boa semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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    1. O tutear ainda sai um pouco forçado, a ver se com o tempo me habituo :)
      Obrigada pelos esclarecimentos, já sabes que sou uma perguntadora.
      Beijinhos

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  7. De repente o Padre Himalaya tinha somente 1,70 de altura, mas era considerado um gigante kkkk. Fiquei de olho naqueles charutos de ovos. Esses doces conventuais são uma perdição.

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    1. Hahaha, mas 1,70 m era muito para a época. E sabe como são os adolescentes para exagerar as características físicas dos amigos!
      P.S. Eu também sou perdida por doces conventuais

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  8. Olá Ruthia, mais um relato bacana sobre a rota dos gigantes... esse charuto de ovos é de fazer qualquer um babar, servindo como plano de fundo perfeito para um lugar cheio de histórias. Parabéns, muito bom!

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    1. Os doces tradicionais portugueses são todos deliciosos, mas têm efeitos nefastos na balança, haha

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  9. lindo local, pena as vacas... doi-me pensar serem sacrificadas para alimentar os humanos (não como carne vermelha, estou tentando me liberar do infeliz hábito de me alimentar de carnes)... MAS OS CHARUTOS DE OVOS, ME DEIXARAM SALIVANDO, BJS

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    1. Deixei de comer carne mas não sei dizer se é para sempre. Acho que é preferível o consumo moderado de animais criados em liberdade e alimentados naturalmente, sem químicos e rações, do que comer só vegetais, igualmente cheios de químicos e resultantes de uma atividade agrícola pouco sustentável.
      Beijo querida

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  10. Conheci bem Arcos de Valdevez. E digo conheci, porque a última vez que lá estive foi em 2005 e de então para cá decerto estará diferente.
    Um abraço

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    1. Não me parece que tenha mudado muito nos últimos anos. Provavelmente só não conheceu o Paço de Giela, que só abriu ao público, após um profundo processo de restauro, em 2015.
      Abraço amiga Elvira

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  11. Ola...
    Quero muito visitar esse lugar lindo.
    Suas dicas foram preciosas.
    Obrigada por compartilhar.
    Abraços
    Thais

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  12. Que lugar lindo!! Quero muito voltar a Portugal para poder visitar essa Rota dos Gigantes.

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  13. Nunca passei por Arcos de Valdevez, confesso, mas a prosa da Ruthia convenceu-me deveras. Talvez na próxima primavera, quando o verde novo anunciar novas promessas...
    Fiquei muito curioso acerca da personagem associada à terra, o Padre Himalaya. Parece que o homem, com toda a sua actividade, era mesmo alguém digno de realce.
    Obrigado pelas dicas, Ruthia.

    Abraço :)

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    1. Também achei a personagem super interessante. Um arcoense alto demais para os compatriotas, e um cérebro muito à frente para o seu tempo. Fartou-se de deambular também, pela Europa e EUA:
      Abraço

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  14. Uaauu! Que rota legal essa! Não conhecia. Certamente vou considerar no próximo planejamento de viagens pela Europa. Você escreve e documenta muito bem. Parabéns

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    1. Acho que está muito pouco divulgada. Poucos portugueses a conhecem. Se precisar de alguma dica quando vier a Portugal, é só avisar.

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  15. Eu texto sempre misturando relatos com muita história! Você sempre dá quase uma aula! Fico babando! Em relação a comida, eu certamente provaria essa carne rsrs...

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    1. Apesar de eu não comer carne há cerca de 2 anos, não quer dizer que não entenda os "carnívoros". Aliás, tenho dois em casa. Cada um deve comer aquilo que tiver vontade :)

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  16. Que lugar lindo!
    Uma foto mais bela que a outra..
    Adorei seu passeio.
    Obrigada por compartilhar!
    ;)

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  17. Que lugar incrível!!! Portugal sempre surpreende!! Amei as suas fotos, mas vou confessar que ficaria com um pouquinho de medo de chegar tão perto da vaca!! Rs.

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    1. Não tinha outro jeito, Aline. As vacas estavam no meio da estrada onde eu queria passar. Ainda que a foto tenha sido tirada de dentro do carro, haha

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  18. Este é seu segundo post que leio sobre a região e conheci coisas que nunca tinha visto ou ouvido (até sobre a cachena, veja só!). Com certeza turistar sem conhecer a historia do lugar tira metade do prazer. Fico pensando como é interessante que um estudante de seminário tenha se tornado um cientista inventor.

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    1. Ele acabou por ser ordenado padre, Márcia. Como disse, era a única forma de um homem pobre e inteligente conseguir estudos superiores. Mas, com certeza, foi um padre pouco ortodoxo!

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  19. O Minho é incrivelmente lindo, verde e alegre, tem cidades e serras fantásticas para descobrir, excelente gastronomia e pessoas maravilhosas.
    Embora seja proveniente de uma das mais belas regiões do mundo, o Douro, rapidamente me senti em casa. Que saudades...

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    1. O Minho conquista-nos facilmente. As saudades são recíprocas...

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  20. Que lugar incrivel! Muito bons seus relatos de lugares que não são tão conhecidos assim (eu pelo menos não conhecia)

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    1. É normal começarmos por explorar as cidades mais conhecidas, maiores, num país estrangeiro. Mas numa segunda ou terceira visita, já conseguimos alargar um pouco os horizontes!

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  21. Adorei o post! Super completinho <3
    O lugar é realmente lindo, e gostei de conhecer um pouco mais (eu não conhecia). Sua hospedagem tb foi ótima né?! Conhecer esse lugar deve ter sido incrível!

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  22. Oi Ruthia, que foto essa a do Eduardo Pimenta, mas as suas também estão ótimas.

    Que lugar lindo! Gostei bastante da história e dos detalhes de sua viagem.

    Edson

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  23. Li todos os seus post da Rota dos Gigantes e amei todos! Serio mesmo, vc consegue nos transportar para cada lugar que você escreve!!!
    obs: destaque para o padre Himalaia! ahhahahh! (ri muito)

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    1. O padre Himalaya era uma personagem muito inusitada mesmo.

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!