Angola: o cemitério dos navios

Há angolanos que pescam entre carcaças de embarcações, numa baía onde reina o cargueiro Joaquim Kapango, testemunha de muitas marés. Chegamos ao cemitério de navios, lugar de segredos encalhados.



Encontramos as areias silenciosas da praia de Santiago no caminho para o Caxito, a norte da capital angolana. Para chegar ali já é uma aventura. Primeiro é preciso vencer o trânsito caótico de Luanda e, logo depois do mercado do Roque Santeiro - foi o maior mercado africano a céu aberto, mas depois foi transferido para os arredores em 2010 (notícia aqui) - cortar à esquerda em direcção ao mar.

Neste bairro do Sarico, município do Dande, província do Bengo, fina-se o asfalto e avança-se em terra batida, por trilhos criados pelos habitantes, até à praia deserta e pouco acessível, onde não chega rede de telemóvel.

Por entre os solavancos do jipe, vislumbramos algumas pequenas plantações, onde tudo é feito artesanalmente, sem qualquer maquinaria. No máximo, os agricultores terão uma moto para carregar os produtos desta terra fértil, mas a maioria faz os seus caminhos a pé.

Finalmente na linha de água, os navios perfilam-se, num rendilhado de ferrugem

Pelo seu tamanho, destaca-se o petroleiro Karl Marx com mais de 70 metros, ou o Joaquim Kapango com 104 metros de comprimento, antiga estrela da marinha mercante angolana, que recebeu o nome de um herói da luta pela independência. Mas muitos outros barcos, grandes ou pequenos, jazem ali inclinados, mais ou menos perto da praia.
Imponentes, enferrujados por décadas de salitre e água, corroídos pelo tempo, os navios poderiam remeter para um cenário apocalíptico, não fosse o calor que se nos cola à pele, o cheiro a maresia que nos impregna a roupa, o bocejo preguiçoso de domingo que a praia nos impõe.







Em Sarico efabula-se este sepulcro de navios. O mais provável é que tenham sido rebocados desde o porto de Luanda, a cerca de 100 km, onde estavam abandonados. Como é óbvio, dificultavam o tráfego do principal porto de um país que importa quase tudo o que consome, para além de poluírem a baía da capital (notícia aqui).
Mas esta realidade prosaica não é nada apetecível. Pelo que circulam estórias sobre navios que transportavam armas e eram ali encalhados de propósito, acabando abandonados depois de se transferir a carga pela calada da noite, durante a guerra civil.
O sol vai bem alto quando, por entre cascos enferrujados, damos conta da azáfama dos pescadores que puxam, à força de braços, a pescaria do dia. A esta arte chamam pesca "banda banda": oito homens levam uma manhã para recolher as duas pontas de uma rede e com ela todo o peixe e marisco preso. A corvina é grande e boa, informa-nos um deles mas, infelizmente, não trouxemos arca para a transportar.

O lugar poderia ser único e apetecível, não fosse por dois detalhes. Primeiro: o lixo. A praia tem muito lixo acumulado, sobretudo plástico, talvez trazido pelas marés, a que se soma o lixo deixado pelos visitantes pois, pelo que me contaram, a baía atrai muitos jovens aos fins-de-semana.

E depois, é inevitável pensar no impacto ambiental que todos aqueles cascos em decomposição devem causar no ecossistema marítimo.

Mas não é todos os dias que nos deparamos com uma praia exótica banhada pelas águas do Atlântico, pontilhada por velhos navios-fantasma. Imagino o surreal que será vê-los do ar, a partir de um avião, como pequenos brinquedos espalhados ao acaso.








Como ir: a única solução é levar carro, apanhando a estrada que sai de Luanda para o Caxito. A praia de Santiago fica a cerca de 30 km da capital angolana.

Atenção: Recomenda-se um veículo com tracção para vencer o caminho arenoso e cautela na orla marítima, para não colidir com os restos de navios semi-enterrados na areia (pneus e pés).



Pin it

You May Also Like

22 comentários

  1. Respostas
    1. Pelo menos nestes casos. Mas não dá para esquecer que são, ainda assim, incúrias.

      Eliminar
  2. Desconhecia este cemitério de navios. Na verdade não voltei a Angola, desde 75, e mesmo nessa altura não saí dos arredores de Luanda
    Um abraço e bom domingo

    À margem
    São dois os factos que me levam a usar muitas vezes advogados nas minhas histórias. Primeiro era o meu sonho de menina, se tivesse podido estudar, ser advogada. Segundo, tenho vários na família, e por isso é uma realidade que conheço melhor.
    Um abraço e bom domingo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas nessa altura, os navios ainda deveria estar na baía de Luanda. Recorda-se de alguma coisa sobre o assunto?
      Abraço

      Eliminar
  3. Pode até ser um lugar pouco ecológico, mas as fotos estão lindas. Tente imaginar a história que cada um desses navios teria pra contar...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Verdade, cada um encerra uma história com muitos protagonistas. Se eles falassem...

      Eliminar
  4. Viajar com você é mesmo fantástico Ruthia. Ainda não havia informações sobre um cemitério assim. As ponderações da existência fazem sentido sim.Suas ilustrações ficaram belas com estes restos de embarcações.
    Uma pena a questão lixo nos oceanos.
    Valeu amiga mais esta informação e dicas de viagens.
    Meu terno abraço
    Semana maravilhosa para voces

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Verdade, amigo mineiro. Apesar das considerações ambientais, eles são muito fotogénicos. Imagino as imagens belíssimas que um fotógrafo melhor que eu tiraria!

      Eliminar
  5. Que incrível! Nunca tinha escutado falar sobre esse cemitério de navios! Uma pena que um lugar tão interessante esteja cheio de lixo!

    ResponderEliminar
  6. Nossa... que lugar incrível e que fotos mais maravilhosas! Já quero muito conhecer esse lugar sensacional. Amei!

    ResponderEliminar
  7. concordo que o impacto na natureza é muito negativo, mas é um passeio interessante... já fiquei a me imaginar por ali, a futricar em cada uma das naus, explorando e imaginando suas histórias! bjs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Isso é inevitável. O lugar mexe imenso com a imaginação, especialmente de gente como eu cuja mente fervilha mesmo a dormir, haha.

      Eliminar
  8. Que interessante. Nunca passou pela minha cabeça visitar a Angola. Lendo posts assim começo a mudar de ideia. Parabéns!

    ResponderEliminar
  9. Esses naufrágios são verdadeiras obras de arte e compõe muito bem a fotografia do local. Lindas imagens, parabéns.

    ResponderEliminar
  10. Não me perguntem porquê... não saberia responder... Mas ver navios abandonados, enferrujados, desfazendo-se aos poucos, causa-me sempre tristeza.
    A degradação, dum modo geral, é deprimente. Contudo, reconheço que proporcionam ( os navios) excelentes fotografias.
    A poluição, nesse com em tantos outros locais, é um verdadeiro cancro, fruto, na sua maior parte, da incúria dos consumidores que abandonam lixo em qualquer lugar, em vez de o levarem para o lugar de onde o trouxeram.
    Essas atitudes revoltam-me, talvez porque mando para a reciclagem tudo que é reciclável...
    Gostei da reportagem, óptima, como sempre.

    Votos de uma boa semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O lixo também me faz uma confusão medonha. Se se recorda dos primeiros posts sobre Angola, esse foi precisamente um dos pontos que mais mexeram comigo, na primeira vez que visitei Luanda. Felizmente tem vindo a melhorar aos poucos.
      Beijinho e boa semana

      Eliminar
  11. Muito legal! Parece aqueles filmes que mostram um cenário depois do acopalípse, como Mad Max.

    ResponderEliminar
  12. Ruthia, você também notou uma atmosfera meio mágica nesse lugar? Algo como saindo diretamente de um conto de fadas (ou de bruxas!). Acho exatamente como você falou: há muitos segredos enterrados nessas areias, e não consigo evitar de pensar na história de cada um desses navios - por que mares navegou, que histórias viveu, quem transportou...
    Esse lugar mexeu comigo - A viagem a Angola de uma forma geral promete mexer muito comigo, como já vem acontecendo enquanto te acompanho por aqui. Espero colocar no meu roteiro em breve.
    Obrigada por me ajudar a imaginar tantas historias fabulosas para essas embarcações logo tão cedo no meu dia. As fotos ficaram lindas, me transportaram pra lá!
    (um parênteses para dizer que sinto muito pelo lixo, e pela degradação ambiental que causam esses navios. O planeta sofre com nossos abandonos, sempre).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O lugar tem qualquer coisa de "wicked" mesmo.
      Quanto ao lixo, é um problema de todos nós (e dos restantes seres com que partilhamos o planeta). Acontece que em África, de uma maneira geral, as infraestruturas e consciência ambiental (muito precárias) não acompanham o ritmo do consumo, que é muito semelhante ao de um país desenvolvido.

      P.S. Os posts sobre Angola têm sido muito espaçados, resultado de várias curtas visitas. Mas se quiser ficar com uma visão geral, basta clicar ao lado, no dossier especial.

      Eliminar
  13. Que loucura esse cemitério de embarcações... forte o contraste de cores e elementos que forma na paisagem. Fico imaginando visto do alto, como você comentou.. deve ser uma visão e tanto.
    Incrível também não terem uma confirmação oficial de como eles foram parar ali, né?

    ResponderEliminar
  14. Excelente partilha para dar a conhecer.
    Gosto das fotos, mas é um ambiente desolador e poluente!
    Bom fim de semana.

    Olhar d'Ouro - bLoG
    Olhar d'Ouro - fAcEbOOk

    ResponderEliminar
  15. Que interessante! Adorei saber mais sobre esse lugar! As fotos ficaram muuuito boas!

    ResponderEliminar

«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!