Abu Simbel - Deuses caminham entre os homens

Um terremoto fez ruir uma das sentinelas do templo maior.


O Egipto foi um dos destinos que me alimentou sonhos desde que me lembro como gente. Tudo nele fascina: a história milenar, a riqueza da sua cultura, da arquitetura, as paisagens, o mistério que cobre tudo como uma fina camada de areia…


Quando finalmente viajei até lá, numa doce lua-de-mel em 2006, não me decepcionou como muitas vezes acontece quando os sonhos são longos e as expectativas altas.

De entre tantos momentos mágicos – a floresta de colunas do templo de Luxor que ficou sem cores graças a um italiano louco; os cheiros das especiarias vendidas na rua; os labirintos do famoso bazar de Khan el Khalili - há um lugar que nunca esquecerei: Abu Simbel.

Confesso que a viagem de autocarro desde Assuão até àquele sítio arqueológico classificado pela Unesco como património da humanidade me venceu. Dormi durante os 300 quilómetros, em linha recta, que atravessam o deserto. O que vi, quando despertei em pleno território núbio, apanhou-me desprevenida.
Desprevenida sim. O Egipto é tão rico em património, que este se amontoa nos cantos do Museu do Cairo, os visitantes tocam nas peças, sentam-se nelas, tratam-nas por “tu”. Mas Abu Simbel inspira uma reverência muda, este é um lugar sagrado e esmagador. E não uso os adjectivos em vão.


Aos pés dos colossos sentados de Ramsés II (com 21 metros de altura), sentimo-nos ínfimos. Percebemos porque os templos foram colocados ali na fronteira com o Sudão. É como se os deuses estivessem a guardar as portas do Egipto.


O templo menor, construído em honra da bela Nefertari.




Ao lado do templo maior existe um mais pequeno e delicado (as esculturas medem “apenas” 10 metros), igualmente escavado na rocha, que o faraó construiu para a esposa favorita, Nefertari. A ela e à deusa Hathor foi consagrado o templo, um gesto de amor de um marido não muito dedicado e não muito fiel. Ao seu lado, o imponente edifício dedicado ao próprio Ramsés II e aos deuses Amon-Ré e Ré-Horakhti.

A habilidade de construção dos antigos é, neste caso particular, desafiada pela arte da engenharia moderna. Na década de sessenta, para fazer face à subida das águas provocada pela barragem de Assuão, os templos foram cortados da montanha e transportados 60 metros acima da sua posição original. 

Alheios a esta temerária operação, os colossos mantêm o olhar no horizonte, procurando intrusos que ameacem a grandeza desta terra mítica onde, um dia, os deuses caminharam entre os homens.


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