Pinhel: a cidade Falcão


Por aqui passearam reis, viveram guerreiros, defendeu-se a Pátria. Hoje a pequena cidade ostenta, orgulhosa, um falcão nas suas armas, testemunho de um insigne passado.



As pessoas cumprimentam-se na rua; os mais velhos levantam o chapéu à nossa passagem. O trânsito é pouco e fluido, percorre-se o centro em poucos minutos. E, no entanto, estamos numa cidade. Quem diria que a vida pode ser assim simples?

É verdade que não há muito para fazer num domingo cinzento, como hoje, excepto deambular sem rumo pelas ruas estreitas (passatempo que aprecio particularmente). A muralha medieval entretém-se a jogar às escondidas connosco, revelando-se aqui e ali, por entre casinhas pequenas e quintais. 

Cinco das seis portas ainda estão de pé: a Porta de S. Tiago, S. João, de Marrocos, de Marialva e de Alcavar. Para além da história misturada na sua argamassa, elas encerram lendas que o povo conta, reconta, floreia e enfeita a seu bel-prazer.







Paramos no Largo principal, junto ao pelourinho e à “Casa Grande”. Dizem os populares que este solar do século XVIII, dos condes de Pinhel, foi construído por diabretes porque o mestre pedreiro adoeceu e não foi capaz de carregar os pedregulhos necessários para a obra. Usou então um livro tenebroso, de onde saltaram os servos do demo, que usou como ajudantes…

Deixamos a Casa Grande para trás e iniciamos a subida, rumo às duas poderosas Torres, únicas sobreviventes do primitivo castelo. Tomamos a rua de Santa Maria, cujas casinhas revelam a presença de cristãos novos, expulsos do reino vizinho.

A subida ainda agora começou mas vale a pena fazer uma paragem junto à torre do relógio, enfeitada por um belo galo que anuncia se haverá neve, chuva ou sol (diz este povo de imaginação fértil). O galo com dotes de meteorologista repousa num pequeno pátio, com bancos de pedra e uma farta oliveira, que dará uma sombra deliciosa nos dias de estio.


A Casa Grande terá sido construída por diabretes, tendo 365 janelas e portas, uma para cada dia do ano.

Várias faces da Torre do Relógio.


Mas hoje chuvisca. Pelo que prosseguimos rumo ao castelo, ou ao que dele resta. O caminho não é longo, tudo em Pinhel é “logo ali”. 

Eis-nos, pois, no Largo dos castelos, onde o olhar alterna entre a Torre de Menagem, com a sua janela manuelina e a verdura de uma árvore vizinha, e a Torre Sul a que acoplaram um café…

Acho que este edifício moderno irritou alguns historiadores mas, pessoalmente e apesar de não ser muito bonito, gosto deste espaço tranquilo, onde se pode beber um chá que é servido com umas amêndoas caseiras, com canela e baunilha, fabricadas por uma doceira local.

Infelizmente o “Bar dos Castelos” está fechado ao domingo, assim como a Torre, pelo que voltarei outro dia para fotografar a paisagem pontuada por oliveiras que se vê lá do alto. A chuva começou a cair com mais força, soprada pelo vento. Que desagradável... parece que estamos no Minho!

Ai cabeça de vento. Quase me despedia sem explicar porque Pinhel é chamada de cidade Falcão. Nos idos medievais, mais propriamente em 1385, os espanhóis batiam em retirada, derrotados na Batalha de Aljubarrota, quando os corajosos pinhelenses capturaram o falcão de estimação do rei de Castela.

Um gesto que o monarca português elogiou, descrevendo a cidade como “Pinhel Falcão, Guarda-Mor de Portugal”. Desde então que o brasão inclui um falcão, vigilante na copa frondosa de um pinheiro. Vitória, vitória, acabou-se a história…


Não nos cruzamos com vivalma, durante quase uma hora.






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