Um casamento judaico

“Povo de Mendo, alegrai-vos neste dia de festa! Os mais notáveis trovadores, jograis e dançarinos do reino estão aqui em honra da boda de minha filha. Dançai, comei e bebei…”




O judeu, que chegara montado num plácido dromedário, engalanado com as suas melhores vestes, anuncia assim o motivo de tanto alarido. A noiva esboça um tímido sorriso e a música recrudesce. Ninguém diria que esta bela menina é um despojo de guerra!

A bailarina acelera os passos, num ondular de ancas ritmado, hipnotizando os visitantes que aceitaram o convite do sol (finalmente) e rumaram a Castelo Mendo, no concelho de Almeida. Nos arredores da cidadela, os cavaleiros demonstram a sua coragem no campo, em justas e outras demonstrações guerreiras.

O hidromel corre em abundância, os mercadores lançam pregões no ar, publicitando as propriedades milagrosas desta ou aquela erva. Os charlatães conseguem sempre infiltrar-se no meio dos almocreves. 

O mercado medieval é um turbilhão de odores: as bancas coloridas cheiram a fruta, nas esquinas cheira a cerveja, há ainda os excrementos na calçada…



Encontrei dois velhos conhecidos: a Bruxa e o Mestre.
Em Castelo Mendo (esq.) e na Braga Romana, em Maio de 2012 (dir.)


Mas eis que a multidão ruidosa humedece, perante uma dupla horrenda de leprosas, que se misturou entre as gentes, criando uma bolha de espaço e silêncio. Os olhares brilham de medo e indignação, as senhoras levam um pequeno lenço perfumado ao nariz, para disfarçar o cheiro a carne putrefacta.

Alheias a estes temores, as crianças correm alegremente pelas ruas estreitas, com coroas de flores na cabeça ou espadas de madeira na mão. Persistentes, puxam pela manga do pai, apontando para o carrossel, que um poderoso ancião faz girar manualmente, ou pedindo uma maçã caramelizada, da cor do sangue.

A poucos metros do bulício, no topo da aldeia histórica, o vento lava o barulho e pode descansar-se à sombra de uma oliveira, enquanto os mais novos exploram os barrocos e disparam setas com uma ponta de cortiça. 

Embalados pelo sol e pelo vento, damos as boas vindas à Primavera tardia, antes de mergulharmos novamente na comunidade sefardita em festa.







P. S. A Feira Medieval em Castelo Mendo realiza-se anualmente, no âmbito do programa de animação das aldeias históricas.

Site das aldeias históricas portuguesas: aqui






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