A cidade dourada

Universal, magnífica, sábia, jovem e dourada. Saiba porque Salamanca merece tantos e tão rasgados elogios




Vencemos com serenidade os 120 quilómetros que nos separam de Salamanca, na região de Castilla y León, desde a fronteira portuguesa.

A manhã está linda e ensolarada, os pássaros celebram a chegada da Primavera (finalmente) rasgando os céus em alegres volteios acrobáticos. As cegonhas mostram-se atarefadas, carregando gravetos para uns últimos retoques nos ninhos, os campos estão salpicados de papoilas atrevidas.

Há nove anos que não punha os pés em Salamanca. Quando as cúpulas das catedrais anunciam a cidadela lá no topo, ainda a alguns quilómetros de distância, relembro-me porque ficou marcada de forma tão vibrante na minha memória.


A cidade tem muitos rostos, todos eles magníficos. Comecemos pela douta Salamanca, onde nasceu a primeira Gramática da língua castelhana…












“Una de las cuatro luces que alumbran al mundo”
Papa Alexandre IV, sobre a Universidade de Salamanca
Aqui fica a Universidade mais velhinha de Espanha e uma das mais antigas da Europa (1218), para onde afluem milhares de estudantes de todo o mundo: isso explica porque adjectivam a cidade de jovem e porque as noites salmantinas são tão badaladas.
Desta instituição podia destacar os cérebros brilhantes que pariu, os ilustres reitores que teve (Unamuno entre eles), mas nunca podia olvidar a belíssima fachada, com a célebre rã da sorte. Uma rã?
Por supuestoa dita está esculpida sobre um crânio e, segundo a tradição, garante ao estudante que a descobrir, no meio do delírio artístico, boa sorte nos estudos.


Conseguem ver a rã? Na coluna do lado direito, no fim do primeiro friso.
 

Tudo de nariz no ar, à procura da rã da sorte.




Anfíbios aside, é impossível não admirar o belo frontispício plateresco - estilo típico do Renascimento espanhol - do século XVI, em plena praça das Escuelas Mayores.

Outra interessante história académica diz respeito aos Vítores (da expressão latina para vitória), inscrições em paredes públicas feitas pelos estudantes que concluem o seu doutoramento. Em tempos idos usava-se sangue de um touro, sacrificado para comemorar tal conquista… Ainda hoje é possível, em algumas das paredes seculares, observar as pinturas que teimam em resistir ao tempo.


Pequena Roma
Deslumbro-me agora perante a sua espantosa face monumental: a cidade possui 2 catedrais, 23 igrejas, 5 conventos, 12 casas monumentais, 5 "colégios" universitários históricos e 9 palácios ou edifícios apalaçados (oh riqueza)!
Uma herança que lhe valeu o título de Património Mundial da Unesco (1998), contribuiu grandemente para a sua escolha como Capital Europeia da Cultura em 2002 e explica porque lhe chamam a “pequena Roma”.







Um dos meus edifícios favoritos é a Casa das Conchas, num vértice da Rua Mayor, com uma fachada inusitada. Mais de 300 conchas que enfeitam as paredes. Uns dizem que são jacobinas, isto é, honram a Ordem de Santiago.

Eu prefiro a versão mais romântica. Segundo esta corrente, a casa é um poema de amor - a repetição do símbolo dos Pimentel reflecte o carinho de D. Rodrigo pela esposa. Não imagino um espaço mais digno de uma Biblioteca Pública do que este edifício gótico…

O entardecer é um momento mágico em Salamanca, sobretudo junto às margens do rio Tormes, onde se vê o sol transformar em ouro o material com que se construiu a cidade: a pedra de Villamayor. Eis porque Salamanca é também a Cidade Dourada!


Descubram a Plaza Mayor, do post anterior, 
neste vídeo fantástico.



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