In love with Bernini

Em Roma apaixonei-me por um napolitano de uma forma irremediável. Primeiro surgiu o encanto, seguiu-se o namoro para conhecer o pretendente e, por fim, a paixão com o seu lindo fogo-de-artifício



O charme dos italianos é conhecido em todo o mundo e, na verdade, eles são muito galantes. Mas este napolitano, de seu nome Bernini, não usou uma única palavra para me conquistar. Do seu trabalho conhecia apenas os anjos que enfeitam uma das mais belas pontes de Roma: a Ponte Sant’Angelo. Quanta ignorância!

Como muita gente, quando se falava em arte italiana, o meu cérebro fazia uma associação automática com o Renascimento e nomes como Leonardo da Vinci, Botticelli, Rafael, Michelangelo…

Foi pois com alguma surpresa que descobri que Gian Lorenzo Bernini (1598 – 1680, este é portanto um amor nada correspondido) serviu oito papas, foi o último dos génios italianos de valor universal, e um dos maiores artistas do seu tempo. Dizem mesmo que a sua morte marca o fim da hegemonia italiana na arte europeia.

Deixem-me extravasar a minha recente paixão falando das suas esculturas, espalhadas um pouco por toda a cidade e também no Vaticano: onde concebeu a Praça de S. Pedro e o famoso baldaquino em bronze, sobre o altar da Basílica. 


O Castelo de Sant'Angelo, visto a partir da ponte com o mesmo nome.

Um dos anjos de Bernini, com a Basílica de S. Pedro e um
belo pôr-do-sol no horizonte.


Os 12 anjos de Bernini são uma doce apresentação deste artista que foi também cenógrafo, pintor, e muitas outras coisas, à semelhança de outros homens renascentistas. A história do Castelo Sant’Angelo e respectiva ponte, onde os seus anjos repousam, é muito curiosa… 

Criado como mausoléu para o imperador Adriano e depois usado para fins militares, o castelo passou a ser conhecido como Sant’Angelo no século I, quando a peste motivou uma procissão até ao Vaticano, para implorar intervenção divina. 

Chegados à ponte, o Papa Gregório I terá visto o arcanjo S. Miguel, de ar guerreiro e espada em punho, no topo do castelo, o que significaria o fim da peste. É por isso que o edifício é coroado por um anjo de bronze, criado a partir de um esboço de Bernini, que esculpiu também os restantes anjos, uma guarda de honra até ao arcanjo salvador.


A fonte da Piazza de Spagna, em forma de barco, é igualmente de Bernini.  Os romanos chamam-lhe carinhosamente La Barcaccia (a velha banheira).


Piazza Navona, com mais uma fonte de Bernini, cafés, esplanadas,  e muitos artistas. Um lugar maravilhoso...



A donzela que se transformou em loureiro

Bernini está presente também em várias praças romanas, nomeadamente na boémia Piazza Navona (a minha favorita, onde se concentram os pintores) onde esculpiu a Fontana dei Quattro Fiumi, simbolizando os quatro grandes rios da terra: Nilo, Ganges, Danúbio e Rio da Prata.

Mas as duas mais belas obras de Bernini estão na Galleria Borghese, o museu mais maravilhoso de Roma!! Lá encontramos os Rubens, os Caravaggios, os Rafaels (sendo o mais belo a Dama com Unicórnio), mas sem os enchentes de turistas que fazem de nós ovelhas, dando pequeninos passos para avançar em conjunto com o rebanho, como acontece nos Museus do Vaticano (espreite o espólio da Galeria aqui).


A entrada da Villa Borghese, que se estende por vários hectares.

Algumas  obras primas da Galleria Borghese: Davi, de Bernini (sup. esq.), Rapaz com Cesto de Frutas, de Caravaggio (sup dir), Venus Victorious, de Canova (inf. esq) e Dama com Unicórnio, de Rafael.


Para além disso, a Galeria Borghese fica no maior parque da cidade, onde se pode fazer um belo passeio ou piquenique. 

E, como se estas razões ainda não bastassem, a colecção inclui algumas das mais belas criações de Bernini, encomendadas pela família Borghese: o heróico Davi congelado no momento em que se prepara para atingir o gigante Golias, o Rapto de Proserpina por Plutão (era moda entre os deuses) e Apolo e Dafne, a obra que levou mais tempo a ser produzida.

A delicadeza das feições de Apolo e da sua musa é tocante, o drama do momento perfeitamente plasmado no mármore transporta-nos para dentro da Metamorfose. Segundo esta lenda de Ovídio, o belo e arrogante Apolo irritou Eros, o deus do amor, convidando-o para um combate, cioso que estava da sua habilidade com o arco. Mas acaba atingido por uma seta e apaixona-se por Dafne, uma ninfa da água com um voto de castidade (também já é azar!).


Apolo e Dafne, esculpidos por Bernini, com detalhes incríveis. Sendo proibido entrar com máquinas, telemóveis ou bolsas no museu, as imagens são de um livro de arte que comprei na Galleria Borghese.


Apolo persegue Dafne pela floresta e está quase a alcançá-la quando ela se transforma: a pele da ninfa adormece e transforma-se em casca, os cabelos viram folhas, os braços esticam-se em ramos e os pés enraízam-se no chão. A bela Dafne transformou-se num loureiro.

Apolo abraça a árvore chorando, ainda a tempo de sentir o seu coração bater. Desde então, o deus passou a usar uma coroa de loureiro, para que os ramos da sua amada partilhassem as suas glórias. Uma coroa verde que, ainda hoje, se oferece aos atletas medalhados nos Jogos Olímpicos.

Algumas obras de Bernini ficaram por conhecer, o que ficará para um futuro regresso a Roma, nomeadamente o Extâse de Santa Teresa (Igreja de Santa Maria da Vitória) e o Elefante, que serve de base ao Obelisco della Minerva, e que foi projectado, ainda que não executado pelo napolitano.

Preço do Bilhete na Galleria Borghese: 11€ / 6.5€ para portadores do Roma Pass (setembro 2014)


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