Em Aranjuez com o meu amor

A casa real dos Bourbon escolheu Aranjuez como lugar de veraneio no século XVIII, mas foi um talentoso compositor cego, com o seu Concierto de Aranjuez escrito em braille, que tornou a vila mundialmente famosa.




Depois de interromper a série Madrid para o balanço anual, despedimo-nos da região madrilena no sítio real e vila de Aranjuez, que arrancou as mais doces notas ao maestro Joaquín Rodrigo, ao recordar a sua lua-de-mel na pequena localidade. A composição pretendeu representar a beleza, a harmonia, as cores e os cheiros dos jardins do Palácio Real de Aranjuez, que ele percorreu de mão dada com a esposa.
Estreada em Barcelona em 1940, a obra que fez a viola merecer o máximo reconhecimento nas salas de concertos foi tocada por orquestras de todo o planeta – assistam aos solos da bela japonesa Kaori Muraji (aqui) ou à versão do violinista David Garret (aqui) - e adaptada a vários estilos musicais. A versão En Aranjuez con mi amor, por exemplo, foi interpretada por nomes como Nana Mouskouri, Placido Domingo, Carreras ou Andrea Bocelli.

Aranjuez,
Un lugar de ensuenos y de amor
Donde un rumor de fuentes de cristal
En el jardín parece hablar
En voz baja a las rosas.

Outra versão cantada por Amália Rodrigues fala de pétalas de rosa que, levadas pelo vento, poisam ao entardecer na água das fontes. Que lugar é este que mereceu tão bela melodia?
Bem, a pequena vila foi “descoberta” no século XVIII, quando a corte itinerante dos Bourbon passou a viajar para Aranjuez, com uma pontualidade sem precedentes e uma fidelidade inabalável, para passar o Verão. Entende-se. A confluência dos rios Jarama e Tejo (aqui chamado Tajo) torna esta localidade muito mais fresca que a capital, apesar da distância entre ambas ser inferior a 50 km.
Declarada Paisagem Cultural da Humanidade pela Unesco (2001), a vila de Aranjuez e, em particular, o seu Palácio Real atrai milhares de turistas todos os anos. 
A ostentação barroca do interior do palácio deve-se a Fernando VI, que concluiu a sua construção, e a Carlos III que acrescentou duas novas alas, onde se destaca a sala da porcelana chinesa, a sala dos espelhos e a sala de fumo, inspirada na sala de las dos hermanas de Alhambra (região de Granada).
Mesmo ao lado da loja do palácio, fica a sala dos vestidos de noiva reais. Está lá o da actual rainha Letizia, das irmãs do rei, infantas Elena e Cristina, e também da sua mãe…



© Património Nacional. Não é permitido fotografar no interior do palácio
O motim de Aranjuez
“Aterramos” em Aranjuez num Setembro quente, no regresso de uma curta estadia na Costa da Prata.

Ao chegarmos à Praça de Santo António percebemos a razão de tanto alvoroço: a cidade estava em festa! A escadaria da igreja homónima, dedicada a Santo António de Pádua (de Lisboa, acrescentamos nós) e que serviu como quartel militar das tropas napoleónicas, estava pejada de gente e vendedores ambulantes.

As Fiestas del Motín de Aranjuez assinalam um episódio histórico que levou o povo à rua em 1808, para manifestar o seu descontentamento para com o contexto sociopolítico e o ministro Manuel Godoy. A data do levantamento popular transformou-se num feriado e a festa num evento de interesse turístico.

Infelizmente, não conseguimos assistir à encenação apresentada no pátio de armas, um evento fechado que mereceu a indignação generalizada (eu junto-me ao coro de protestos, afinal não é uma festa popular?). Portanto, rumamos à Plaza de la Constitución para assistir ao musical Peter Pan, depois de um saltinho aos carrosséis no Jardim de la Isla.

Na manhã seguinte, depois da visita ao palácio, exploramos os jardins reais que se prolongam por vários quilómetros e são enfeitados por artísticas fontes (horário de funcionamento das fontes monumentais aqui). O menor deles é o Jardín del Parterre da autoria de um jardineiro francês, com a sua linda fonte de Hércules, que representa o herói grego a asfixiar o gigante Anteu.

© Asociación Grupo de Amigos del Descenso Pirata
© Património Nacional. Não é permitido fotografar no interior do museu

Estranhando o burburinho, seguimos a multidão até ao Jardín del Principe para conhecermos mais uma inusitada tradição local: a descida de piratas do Tejo. Pequenos barcos artesanais – feitos de preferência com materiais recicláveis - descem o rio num concurso que premia a criatividade. Vimos por lá os Angry Birds, a porquinha Pepa, vikings e índios, naves Star Wars…

A competição de barcos evoca a tradição real de passear no rio em elegantes embarcações: as faluas (para usar a expressão italiana) que inspiraram um museu ali mesmo no jardim do príncipe, entre árvores centenárias e espécies exóticas trazidas das colónias espanholas nos séculos XVIII e XIX. De facto, navegar era um dos mais preciosos passatempos da corte. A rainha Bárbara de Bragança, em particular, adorava descer o rio na sua falua leve e doirada, acompanhada das damas e de vários músicos.

O que resta desta frota pode ser visitado no Museo de Las Falúas Reales, muito perto do pier, com entrada gratuita desde que apresentando o bilhete do palácio.  Ali está o barco esculpido por artistas valencianos da quarta esposa de Fernando VII, a grande falua de Isabel II ou a enorme gôndola napolitana em tons de ouro verde, possivelmente oferecida por um veneziano a Filipe V. 




Palácio Real de Aranjuez aqui | Bilhete: 9€ (inclui o Museo de La Vida en Palacio e o Museo de las Faúlas Reales); 4€ (até 16 anos e seniores); 13€ (visita guiada) | Dica: entrada gratuita quartas e quintas das 15:00 às 18:00 (outubro a março) e 17:00 às 20:00 (abril a setembro) para cidadãos da UE e de países ibero-americanos.

Jardins: acesso gratuito

Casa del Labrador aqui | Bilhete: 5€ (com visita guiada). Este palacete neoclássico  foi inaugurado em 1803 pelo rei Carlos IV. Fica no Jardín del Príncipe.

Acesso a partir de Madrid: Aranjuez é facilmente acessível de comboio desde a estação de Atocha (linha de Cercanías, C-3).

You May Also Like

34 comentários

  1. Minha preferência vai para a interpretação de Plácido Domingo.

    Belo post; tenha uma ótima semana!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Plácido Domingo é um clássico. Para mim, todas as versões têm um encanto lindo, porque a melodia é deveras especial. Também amo a versão de violino do David Garrett

      Eliminar
  2. De Aranjuez apenas conhecia a obra musical...
    Talvez por isso mesmo adorei esta postagem.
    Obrigada por mais uma "lição" histórico/geográfica :)))

    Votos de um Domingo feliz
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Um dia em que aprendemos algo novo é sempre um dia bom. Beijinho e bom domingo, Mariazita

      Eliminar
  3. Maravilhosa a interpretação da orquestra do maestro André Rieu. Nao conhecia essa bela historia. Entrara na minha lista do que quero conhecer perto de Madri.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ah, o André Rieu tira-nos do sério. Eu já adorava a melodia, e depois de conhecer a história do compositor fiquei rendida. Acho até que criei expectativas acima do normal e que a vilazinha ficou aquém, haha

      Eliminar
  4. Gente nunca tinha ouvido falar nesta atração. Estou com um roteiro pronto e colocarei com certeza. Obrigadíssimo.

    ResponderEliminar
  5. Dá para fazer um bate-volta de Madrid? Quanto tempo o percurso de comboio?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nós fomos de carro, mas acho que de comboio não leva mais que 45 minutos.

      Eliminar
  6. Você sempre mostrando lugares ótimos e pouco conhecidos. Curti bastante. Achei o preço em conta, parece ser um bom custo-benefício.

    ResponderEliminar
  7. Incrível lugar! Espanha nos surpreende em cada viagem. Amo Andaluzia, mas a região nas redondezas da capital são igualmente lindas e ricas em cultura.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cada região tem motivos diferentes para se visitar. Aqui são os edifícios históricos e os jardins. Se um dia visitar, conte-me o que achou

      Eliminar
  8. Nossa, esse lugar é realmente lindo! Um palácio e tanto! Adorei conhecer através do post.

    ResponderEliminar
  9. Claro que conhecia a obra musical uma belíssima melodia, mas não sabia nada do resto. Nem a sua origem, nem a história da terra que lhe deu o nome, Por tudo isso um enorme bem haja por esta partilha.
    Um abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Adoro quando os lugares me trazem toda esta bagagem de surpresa e histórias. A vila e sítio real não é muito conhecida entre os portugueses, mas olhe que recebe milhares de visitantes todos os anos.
      Abraço

      Eliminar
  10. Não conheço esse lugar em Espanha. Fiquei interessada. Parece ser bem interessante. Já anotei.

    ResponderEliminar
  11. que lugar lindo e as edificações são maravilhosas, com certeza um lugar com muita história, dá muita vontade de conhecer!

    ResponderEliminar
  12. Que lugar lindo, ainda nao conheco pessoalmente! Realmente inspirador... quero muito visitar!

    ResponderEliminar
  13. Parece ter sido uma visita de encher a alma, Ruthia.
    De Aranjuez conhecia a música, não sabia que existia um lugar com esse nome. Grato.

    Abraço :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois, eu estava na mesma situação do meu amigo até ter "tropeçado" no nome no mapa. Associei à música e depois a minha curiosidade insaciável fez o resto :)

      Eliminar
  14. Uau, que lugar impressionante! Confesso que não tinha ouvido falar sobre ele quando estive na região e certamente devo visitar numa próxima viagem!

    ResponderEliminar
  15. Um sítio bastante atraente, ornado por romantismo, muita história e belas paragens, além de ótimos entretenimentos.Agora, depois de ler-te, posso dar um cenário para a famosa música.Um lindo e inspirador local.Gostei muitíssimo, Ruthia.

    Boa semana pra ti.
    Bjinhus,
    Calu

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Foi isso que mais gostei do lugar, dar um cenário a tão bela melodia! Boa semana

      Eliminar
  16. Que beleza de postagem amiga, conhecia a musica mas a historia é bem interessante e escolheu bem a apresentação de Rieu que gosto muito.
    Atiça uma vontade de conhecer com suas informações.
    Grato sempre amiga.
    Bjs de paz e o pequeno explorador?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O pequeno explorador estava comigo, claro. Achou muita piada à corrida de barcos estranhos!

      Eliminar
  17. Encantada com este lugar Ruthia, que oh, ignorância das ignorâncias, não conhecia, mesmo já tendo visitado Espanha mais de uma vez. Um cenário digno de uma melodia, não podia mesmo ser qualquer lugar.

    Já quero ver toda esta poesia ao vivo. bj

    ResponderEliminar
  18. Assisti a um espetáculo de André Rieu aqui no Rio de Janeiro e simplesmente me encantei. Imagino que com esse cenário e história fique tudo ainda mais especial.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nunca o "vi" em cartaz em Portugal, mas adoraria assistir a um espectáculo conduzido por ele!

      Eliminar
  19. Eu tive a boa sorte de aceitar a sua indicação, e colocar para tocar o vídeo de Kaori Muraji enquanto lia seu post. Meu peito doeu de tanta emoção, porque a versão casa perfeitamente com suas palavras tão poéticas sobre essa viagem. Ruthia, eu sou uma admiradora das histórias de castelos e famílias reais (e suas tramas e costumes). Talvez seja a mais dolorida tristeza de ter nascido nesse novo continente, o fato de que conheço quase nenhum castelo europeu, por ainda não ter desbravado como gostaria esse continente. Mas viajei contigo agora para Aranjuez, sorri e suspirei, e agora quero colocar essa música para tocar um dia, enquanto eu passeio de verdade por esses jardins! Obrigada pela inspiração!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vc sonha com os castelos europeus e eu com as paisagens naturais de África (embora seja muito feliz em lugares históricos também). Haja sempre motivos para sonharmos e viajarmos, mesmo que apenas virtualmente

      Eliminar
  20. Estou querendo conhecer a Espanha este ano. Adorei a experiência e seu relato de Aranjuez :)

    ResponderEliminar
  21. aehaueh q legal que pegaram uma corrida de barcos "artesanais"! é muito interessante como descobrimos as coisas sem querer durante a viagem e que dão um toque especial ao lugar!

    ResponderEliminar
  22. Que coisa mais linda, adorei as fotos e a música. Muito legal o post. :D Edson

    ResponderEliminar

«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!