Porto: roteiro clássico (II)

Continuamos na cidade que dá nome à nação. Portus Cale romana que virou condado e depois se fez Portugal. Cidade invicta, invencível, nunca dominada, de bravos “tripeiros” que se levantaram pelo liberalismo e a quem D. Pedro IV ofereceu o coração. 


Já vos tinha falado nisso, acharam porventura que era lenda? Nada disso. Na Avenida da Liberdade, ali colada aos Aliados onde toda a cidade se junta para festa ou manifestação, há uma imponente estátua do dito rei e imperador do Brasil. Na sua base, um relevo em bronze recorda a cerimónia: o presidente da Câmara, enlutado, recebe o coração real das mãos do coronel Baltasar de Almeida Pimentel, amigo pessoal e camareiro do monarca. 

A história resume-se em dois parágrafos. Horas antes de morrer no palácio de Queluz, D. Pedro chamou a imperatriz, D. Amélia, a quem declarou o desejo de que o seu coração embalsamado fosse entregue à cidade, como reconhecimento pela dedicação durante o Cerco do Porto. 

Mas, onde colocá-lo? Na Sé, o templo mais emblemático da cidade? Na Serra do Pilar por ter sido ali que se fez a verdadeira defesa da cidade? Na Igreja da Lapa, ordenou a viúva, por ser lá que o rei assistia à missa. Assim se fez. Mas a chave do mausoléu está no gabinete do presidente da Câmara, porque o real coração pertence à cidade. 

É em frente dos Paços do Concelho, com o seu relógio de carrilhão e um letrado guardião (Almeida Garrett), que partimos neste segundo dia, descendo a avenida histórica que parece uma montra vaidosa da arquitetura da cidade. 

Dia 2 Porto de ouro  (no mapa a azul)

A cidade nasceu no e pelo Douro. Como tão bem sublinhou o nosso Saramago, o Porto é, primeiro que tudo, um “largo regaço aberto do rio”. 

Na zona ribeirinha conhecemos outra cidade, das pontes, de Eiffel e dos seus discípulos. Atravessamos a mais emblemática, a Ponte Luís I, um admirável trabalho de filigrana em ferro desenhado por Théophile Seyrig no século XIX. Na outra margem, o Mosteiro da Serra do Pilar aguarda-nos, tímido, entre a neblina, como se fôssemos um D. Sebastião regressado do ultramar ou do mundo dos mortos





Apesar de pertencer a Vila Nova de Gaia, o mosteiro está incluído na região classificada pela Unesco como património mundial. Determo-nos ali num momento de contemplação serve para nos (re)apaixonarmos pelo Porto de prédios esguios, varandas de ferro e roupa a secar nas janelas. 

Entre o Porto e Vila Nova de Gaia, um rio de ouro que pariu a mais velha região demarcada vinícola do mundo (recordem a região do Douro aqui). Um vinho que chegava em belos barcos rabelos para repousarem nas caves - Sandeman, Quevedo, Taylors, Ramos Pinto, Offley, Porto Calém - e que uniu as duas margens. De um lado envelhecia-se o dito, do outro vendia-se o néctar para todo o mundo. 

Imperdoável não visitar um desses 15 templos de Baco, pelo que subimos a ladeira em busca da Taylor’s

A manhã adoça-se com um vinho do Porto, branco e seco, que nos servem como aperitivo. As caves longas, escuras e húmidas (80% de humidade, cuidadosamente controlada), estão repletas de pipas de carvalho. Ao fundo do corredor, a coroar o caminho, um barril gigante de 20 mil litros, onde muitos gostariam de se afogar. No final da visita, repetem-se as libações: um cálice de ruby e outro de tawny, que alimentam minutos infindáveis de conversa. Até porque está muito frio na rua. 





Quem vem de bicicleta desde o cais de Gaia pela ecovia Linha Azul, passando pela comunidade de pescadores de S. Pedro da Afurada, sítio fantástico para almoçar, encontra a reserva natural do Estuário do Douro, uma espécie de estação de serviço para as aves migratórias. Há dois observatórios que permitem a observação de rolas-do-mar, guarda-rios, corvos marinhos, maçaricos-de-bico-direito, vários tipos de garças e gaivotas (dependendo da altura do ano).

Se houver forças para pedalar, recomendo vivamente fazer mais 12,5 km à beira-mar até à Capela do Senhor da Pedra, em Miragaia. 

Ao longe não passa de um ponto branco mas, a cada curva que passa, distinguimos  mais claramente a pequena capela incrustada nos rochedos fustigados pelas ondas. A fama vem de longe: diz-se que o Senhor da Pedra era um altar pagão. Como templo cristão, já celebrou quatro séculos e continua a inspirar pescadores, poetas e as lendas mais peculiares, com pozinhos de bruxaria. 

De regresso ao cais de Gaia, nada como um fim de tarde no Jardim do Morro, no sopé da Serra do Pilar, sobretudo se o tempo estiver ameno. E no Verão, há sempre o Beer Sunset com um ambiente super cool e um lindo pôr-do-sol. 


Dia 3 Ribeira-Foz-Boavista (no mapa a roxo)

Alguns portuenses não me vão perdoar por dedicar um dia inteiro a Gaia mas, para além de ser indissociável do Porto e do seu vinho, a cidade tem lugares belíssimos e menos turísticos. Para me redimir, regressamos à colmeia colorida que é a Ribeira, com as casas típicas, os restaurantes, os bares, um carácter muito genuíno. 





Para beber todo este ambiente, nada como ver o rio de perto, num pequeno cruzeiro que passa, minúsculo, sob as pontes do Freixo, S. João, D. Maria e Infante, por esta ordem. Ou simplesmente sentar-se numa esplanada e deixar passar as horas num doce enlevo. 

Quem se aventura em direcção à Foz, vai desvendando outros lugares peculiares: o edifício da alfândega, o museu dos Descobrimentos, o lugar onde tropas portuguesas e britânicas atravessaram o rio em 1809 com a ajuda de um comerciante do Porto, para ir escorraçar as tropas francesas de Soult na outra margem (assinalado por uma placa), o monumento aos tripeiros… 

Um descanso merecido ali no Jardim do Passeio Alegre e eis que que o Douro se funde no mar. O Forte de S. João Baptista anuncia a chegada à Foz, uma das zonas mais caras da cidade. E já que aqui estamos, o Cufra Grill é já ali, para quem quiser comer uma bela francesinha com vista para o mar. 

Resta-nos uma tarde, que pode ser belamente passada num dos jardins da cidade - Serralves, Palácio de Cristal, Jardim Botânico, Parque da cidade - sem grandes cansaços porque não nos queremos despedir do Porto sem um espectáculo na Casa da Música. 






O estranho edifício concebido pelo holandês Rem Koolhaas - um dos três Pritzker da cidade, a par de Souto de Moura e Siza Vieira – durante o Porto 2001 Capital Europeia da Cultura já é tão importante na rotunda da Boavista como o monumento da Guerra Peninsular.


Este último, que recorda a bravura dos portuenses durante as invasões francesas, merece uma observação mais atenta. No alto dos seus 45 metros, um grande leão (símbolo da bandeira inglesa) submete a águia napoleónica, recordando para sempre que a cidade invicta não se deixa conquistar. Pelo contrário, ela conquista. 

Se alguns notáveis detestavam o Porto - "Pançudo e pesado", dizia Eça de Queirós, enquanto entalava o monóculo; "Tão carregado de província que nem os arredores de Braga" acrescentava Teixeira de Pascoaes – muitos outros lhe fizeram a corte. Foi o caso de Jaime Cortezão, Miguel Torga, Jorge de Sena ou Agustina Bessa-Luís. Eu junto-me a estes últimos e rendo-me à mui nobre cidade do Porto.






Câmara Municipal site| Visitas guiadas no primeiro domingo do mês | Marcação pelo telefone: (+351) 222 090 400

Mosteiro da Serra do Pilar site | Horário: ter-dom 10h00-17h30 (outubro a março), 10h00-18h30 (abril a setembro) | Bilhete: 4€ mosteiro, exposição e subida ao zimbório (adulto), grátis (crianças até aos 12 anos)

Taylor’s site | Horário: todos os dias 10h-18h |Preço: 12€/pessoa: áudio-tour + prova de vinhos do Porto 6€ (crianças a partir dos 8 anos, para áudio-tour, com sumo de uva e bolachas)

Exemplo de cruzeiro aqui | Partidas de hora a hora das 11h-15h (inverno) e 10h-18h30 (verão) | Bilhete: 15€ (adulto), 7,5€ (crianças entre os 4 e os 12 anos)

Casa da Música: programação artística aqui




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30 comentários

  1. É sempre bom ler e aprender sobre o local onde nasceu Portugal

    .
    * Exultação de um amor intenso *
    .
    Votos de um dia feliz

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  2. Excelente roteiro, uma maravilhosa foto/reportagem onde não faltou a famosa Francesinha que bem aprecio e aí no Cufra já tive oportunidade de comer. Está sem dúvida entre as melhores da invicta.
    Bjs

    Olhar d'Ouro - bLoG
    Olhar d'Ouro - fAcEbOOk

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    1. O "problema" do Cufra, sobretudo ao fim-de-semana, é que tem sempre uma fila de espera (por vezes longa).
      Beijinho

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  3. Querida Rurhia
    Parece uma portuense a falar, tal é o ânimo que coloca nas suas descrições!
    Gostei de ler.
    O coração de D.Pedro, até há bem pouco tempo, uma vez por ano, podia ser visto. Porém, por motivos de segurança e para não se deteriorar em contacto com a luz e o ar, foi proibida esta amostragem anual. Lá está, num belo nicho, à esquerda da Capela - Mor, na Igreja da Lapa.
    Bela reportagem, sempre com o inconfundível estilo a que já nos habituou.
    Continuação de uma excelente semana.
    Um beijinho
    Beatriz

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    1. Não sabia dessa exibição pública do coração real. Aposto que levava multidões à Igreja da Lapa.

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  4. Obrigada pelo excelente passeio que me proporcionou. Apesar de conhecer um pouco do Porto e de ser uma cidade que adoro.
    Abraço

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  5. Andei à procura do seu email, mas não encontrei. Gostava de lhe mandar um livro e-book com fotos do Porto.
    Abraço

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  6. Todas as fotos estão ótimas, mas a terceira é espetacular!

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    1. A Capela do Senhor da Pedra e toda a envolvência é um lugar muito especial

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  7. Roteiro lindo, bem elaborado e mostrando além dos lugares a história! Vale sempre! beijos, chica

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    1. Um pouco de história ajuda a entender a alma de cada lugar, não acha Chica? Beijinho

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  8. Nossa nunca tinha me atentado ao detalhe que Porto deu nome a Portugal.. Ja comentei em outros posts e nem vou repetir, mas tenho muita vontade de conhecer Portugal... Adorei os detalhes históricos e curiosidades sobre a cidade que você menciona ao longo do post.

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    1. É um detalhe não muitas vezes destacado, provavelmente pelas rivalidades que provoca, com Guimarães onde a nação realmente começou, com Lisboa que é a capital... enfim. O que importa é que a cidade é belíssima

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  9. Olá, Ruthia
    Agora sim, estás na minha área! :)))
    Essa cidade maravilhosa onde estudei e vivi até me casar, onde tenho muitos familiares e amigos, e que visito com frequência - o ano passado, com as férias nos States não pude lá ir... está na altura de fazer uma visita.
    Quando lá vou fico instalada na casa de minha cunhada, muito próximo da Casa da Música. E como todas as manhãs vamos ao Peninsular tomar o cafézinho e conviver com os amigos, passamos sempre por lá.
    A Igreja da Lapa é linda! Em solteira ia lá muitas vezes (ao Domingo) assistir à missa das onze. Na realidade... o motivo não era dos mais "piedosos"... :))) mas sim porque, a essa hora, tocava o órgão um famoso pianista italiano. Pecado confessado é meio perdoado (parece-me que é assim que se diz...)
    Sobre a Capela do Senhor da Pedra publiquei a (uma) lenda no meu blog, muito interessante.
    Excelente a tua reportagem, não só a nível fotográfico, mas também, e sobretudo, a nível informativo.

    RE: Tenho que bater palmas à tua boa memória! De facto publiquei um outro excerto de "O Segredo" no dia 27/06/17. Este que publiquei agora faz parte do 10º. capítulo. Brevemente publicarei mais um pouco deste mesmo capítulo. Vou dando assim um "cheirinho" de vez em quando... :)))

    Continuação de boa semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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    1. Ah, eu a pensar que estava a ficar senil. Afinal conhecia as personagens!! P.S. ir à missa para ouvir um pianista talentoso nada tem de pecado (pelo menos do meu ponto de vista).

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  10. Mas que destino perfeito para comer beber e viajar é Porto, não é mesmo?
    Enquanto não realizo essa viagem, me delicio com seus relatos!!

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  11. É um post informativo e poético ao mesmo tempo. Em se tratando de Porto, tudo vira poesia mesmo!

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  12. Adorei o roteiro e as dicas maravilhosas! Quero muito conhecer o Porto. Preciso marcar minha viagem para Portugal urgentemente.

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  13. Adorei o roteiro e, principalmente, o belo texto. Lindamente escrito, passando as sensações de se visitar a cidade. Fotos lindas também. Parabéns pelo ótimo post.

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  14. Ruthia querida... mais um post delicioso sobre Porto... quanta história e quantas fotos lindas (a da francesinha ficou linda). Não sabia que Dom Pedro havia deixado seu coração na cidade!
    beijinhos

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    1. Não devem ser muitas as cidades que se podem gabar de ter um coração real, haha.
      Beijinhos

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  15. o Porto é uma cidade muito encantadora, ainda está nos meus planos conhecê-la, todos falam maravilhas e com esse post pude confirmar sem dúvidas!

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  16. Ah... esta é mesmo uma região belíssima! O Douro, magnífico, dá o tom e o ritmo dessa bendita terra. Não vistei as caves de Gaia, mas tive um almoço memorável aí... Ali, em meio à nuvens pesadas de chuva, vinhos maravilhosos e uma vista magnífica do Porto paramos o tempo e nos despedimos silenciosos deste belo país.

    Me perdi nos olhos do Porto desde o Mosteiro da Serra de Pilar, lugar que inclusive visitei.

    Infelizmente, não vistei a Capela do Senhor da Pedra; nem ao menos sabia de sua existência! Que lástima!

    Como me encantei pelo Cais da Ribeira e pela elegância da Avenida Liberdade.

    Não sou personagem real e meu coração ainda bate, mas parte dele anda pelo Porto! :) Lindas histórias, lindo roteiro, maravilhoso texto como sempre! beijo grande querida Ruthia

    P.S. Neste momento, estou tomando um vinho do Porto, casa Dow´s e brindo a você, ao Porto e aos seus lindos textos.

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    1. Tchim, tchim, Analuiza. Fez-me lembrar que tenho ali uma garrafa de vinho do Porto. Bela ideia para o serão que se aproxima!

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  17. Que roteiro maravilhoso! Adorei ver que em 3 dias dá para se conhecer muitos lugares de Porto. Ainda não conheço e pretendo ir nos próximos 2 anos. Obrigado por compartilhar!

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    1. Se precisar de dicas adicionais, pode dizer. Vocês vão gostar do ambiente da cidade. Não foquei muito na animação noturna, porque a idade já pesa, haha mas vocês vão ver que a cidade é bem animada.

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  18. Ola,
    Que roteiro fantástico em Porto. Cidade que adoro e tive o prazer de conhecer em 2016. Seu post me deu vontade de voltar a cidade.
    Obrigada por compartilhar.
    Abraços
    Thais

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!