Comer em Braga


Na comida minhota, já dizia Camilo Castelo Branco, pode encontrar-se o sentido da vida.




Na sua novela humorística «Coração, Cabeça e Estômago», o autor narra as aventuras de um homem em busca do sentido da vida. Sem alcançar a felicidade amorosa e desencantado com a falta de compreensão em relação ao seu elevado intelecto, o protagonista regressa às suas origens, onde redescobre o valor da farta cozinha minhota, que lhe contenta o estômago e o espírito.

No coração do Minho, Braga oferece todo o conforto sobejamente reconhecido à gastronomia da região, com os rojões, as papas de sarrabulho, o bacalhau, o arroz pica no chão, os enchidos e o vinho verde. Definitivamente, esta gastronomia não é para estômagos delicados.

Portanto depois de Orar (aqui) e Amar (aqui), resta Comer para celebrar a vida na cidade dos arcebispos. Aos lugares tradicionais juntamos outros mais ecléticos, incluindo um restaurante de comida tailandesa.

Mas já lá vamos, porque não se começa o dia sem cafeína. Para isso há A Brasileira, um lugar simbólico da cidade, onde os funcionários nos servem um café de saco, como antigamente. 

Com 110 anos de existência, o estabelecimento foi criado por Adolpho de Azevedo, um negociante portuense e vice-cônsul do Brasil, que oferecia um café a quem comprasse um quilo deste. Eram clientes distintos, diga-se. A Brasileira era frequentada pela elite bracarense, só homens de gravata podiam entrar.

O café fica em pleno centro histórico, dali se alcançam facilmente os lugares mais emblemáticos da cidade: a Arcada, a Rua da Liberdade, o Theatro Circo, os sítios romanos, o Palácio do Raio, o Arco da Porta Nova, a Sé e tantas outras igrejas, a Casa dos Crivos, o Jardim de Santa Bárbara…


© Café A Brasileira


Começamos por petiscar

Para um lanche rápido a meio da tarde, ou mesmo um almoço leve, sugerimos a Stretto 57, uma pizzaria pequenina e encantadora pertinho da Sé de Braga. Com fornadas de pizza a saírem regularmente (incluindo uma versão vegetariana), uma massa cada dia, bruschettas, quiches e bolos caseiros, o conceito do espaço é o food&drink to go.

Ainda assim, eu e o pequeno explorador demoramo-nos por ali, num dia cinzento e chuvoso. Ele devorou uma massa à bolonhesa que foi um regalo, enquanto eu optei por uma fatia de quiche de legumes. Simples, eficaz e barato: pagamos cerca de 7,5€ com bebidas.

As Frigideiras do Cantinho são também uma sugestão segura. Desde 1796 que a casa produz as afamadas frigideiras (massa folhada recheada com carne picada), elogiadas por Júlio Dinis em Serões da Província, curiosidade histórica celebrada numa placa na parede: 


“O resto do jantar correu sem novidade, a não ser a saudação geral, que vitoriou a surpresa do doutor, a qual, desta vez, consistiu em uma dúzia das decantadas frigideiras de Braga, a mais apetitosa concepção dos pasteleiros da augusta cidade cesário”.




A porção de batatas fritas mistura batata tradicional e batata doce.



Numa nota mais moderna, acrescente-se a Bira dos Namorados, uma hamburgueria artesanal criada por um casal de namorados com música ao vivo à sexta e sábado à noite. 

A decoração minhota é muito castiça e os hambúrgueres uma perdição. Provei um Regadinho (hambúrguer vegetariano) e rematei com uma mousse de oreo e manteiga de amendoim (dividida com o Pedrito). Saí de lá a rebolar, mas feliz da vida… Boa relação qualidade-preço: menu de hambúrguer e bebida, menu infantil e sobremesa partilhada por 17,50 euros.

Para quem petiscar não chega

Uma sugestão mais tradicional será O Jacó, onde comi um polvo à lagareiro razoável. Já o bife da casa, pedido para o Pedro, podia estar tenro. Tudo somado, pagamos 29€ por um almoço para duas pessoas, com entradas, prato principal, bebidas e um decadente pudim de Abade de Priscos à sobremesa.

Experiência muito mais memorável tivemos no BRAC, um restaurante cosmopolita e elegantemente decorado (foto de entrada do post). Ao almoço servem um buffet maravilhoso, com direito a sopa, entradas quentes e frias, prato principal (no dia que lá comemos havia paella e bacalhau lascado), água ou limonada e mesa de sobremesas… tudo delicioso e pelo simpático preço de 11€ por pessoa.

Como se não bastasse o espaço lindo, com música ambiente agradável e o serviço atencioso, ainda temos vista para ruínas romanas, através de uma parede de vidro. Fiquei fã!





Terminamos com uma sugestão atípica: Lakkana, o primeiro restaurante tailandês da cidade, na estreita Rua Dom Gualdim Pais, resultado da história de amor entre um bracarense (de seu nome José) e uma tailandesa (de seu nome Lakkana).

Escolhemos a sala de jantar tailandesa, onde se come descalço e as mesas ficam em nichos no chão. A imagem de Buda, omnipresente, revela um modo de vida. Começa-se o dia a cozinhar para Buda, antes de se espalhar amor no prato a todos os visitantes.

Para entrada, veio sakuna (camarão com molho de soja, ovo e pão ralado) e rolinhos de legumes, depois todos pediram pratos diferentes que foram rodando pela mesa. Fiquei encantada com os sabores delicados, especialmente das gambas com leite de coco e um toque de limão. As doses não são muito grandes, mas ficamos satisfeitos. 

A conta rondou os 20€ por pessoa, sem sobremesa, que fomos comer às Tíbias de Braga. Como o nome indica, são as tíbias que dão o nome à casa mas há muita e tentadora escolha, incluindo o pecaminoso pudim de Abade de Priscos. Já vos falei dele? Pois deviam dar um Nobel a quem o inventou!


Dica: muitos restaurantes em Braga fecham ao domingo. Cliquem nos links ao longo do texto para confirmar horários e dias de descanso.





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41 comentários

  1. Hmmmm...Quantas delícias!! Ainda bem que a essa hora não me dá fome, pois só de ver ... Belezas! Lindo dia! bjs, chica

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  2. AINDA BEM QUE O MEU (EX-PEQUENO AGORA ENORME) EXPLORADOR TROUXE O ALMOÇO, SENÃO, APÓS LER ESTE POST, ESTARIA COM O ESTÔMAGO A TOCAR UMA SERENATA DEDILHANDO AS COSTELAS!!!
    AI JESUS, QUE POST MAIS DELICIOSO!!
    BJS

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    1. "estômago a tocar serenata dedilhando as costelas" é das expressões mais poéticas que já ouvi para a fome!
      Adorei

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  3. Ruthia do céu! Se já não tivesse me dado razões suficientes para desejar conhecer Braga, agora o fez em definitivo! Tudo já começa com um bom café e cheio de tradição! Depois pizzas, burgers e doces! Quando for sairei rolando! Disso, não há dúvidas! Especial atenção me chamou as frigideiras que pelos lados de cá são outra coisa. Fiquei desejando experimentar pudim de Abade de Priscos: a imagem é uma tentação!!!! bjus

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    1. O pudim abade de priscos é uma bomba calórica... Eu não como carne, mas abro uma excepção para essa sobremesa, que leva toucinho na preparação.

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  4. Ai que bom!!! Vivi em Braga durante 2 anos e as enormes frigideiras são uma delícia! O espaço também é muito bonito (ainda tem o vidro no chão para ver as ruínas? Deve ter.). A Brasileira (onde se podia ir tomar o pequeno-almoço depois de uma directa, não propriamente a estudar...), incontornável...
    Beijinhos :)

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    1. O vidro ainda lá está, mas a ficar muito riscado. Em algumas partes já não se vê bem as ruínas romanas

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  5. Olha ja estive em alguns desses lugares e recomendo vivamente, excelente artigo com boas dicas...Braga e linda!!

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  6. Como é bom comer bem né Rhutia?! E você souberam aproveitar bem essas experiências da gastronomia local. Viajar é também provar o tempero de cada destino.
    Fiquei curiosa com a cafeteria, tem alguma explicação que relacione o estabelecimento ao Brasil?

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  7. A cidade de Braga tem tanta coisa para nos oferecer!!!e estas são umas delas...gostei das dicas,vou em breve e já sei onde ir!!!muito obrigado

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  8. Ruthia, vais obrigar-me a ir mais vezes a Braga??? :))) Fantásticas sugestões e, confesso, não visitei ainda qualquer delas. Há muita coisa boa para desbravar...

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    1. Anda que eu e o Pedro (do Espírito Viajante) vamos jantar contigo.

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  9. Nossa Ruthia, imagino os olhos do pequeno descobridor.
    Quantas iguarias de encher os olhos.
    Que sugestões maravilhosas amiga.
    Bom fim de semana para vocês.
    Bjs de paz amiga.

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    1. Ah, ele não é nada guloso. Gosta de hambúrguer, como qualquer criança, e não liga aos doces, excepto se levarem chocolate...

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  10. Ruthia, se você não tivesse mencionado o título da Novela de Camilo Castelo Branco, eu juro que pensaria se tratar de Amor de Perdição! As fotos estão apetitosas, imagino com os demais sentidos em prática.

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  11. Adorei saber que tem um café A Brasileira! Os seus posts gastronômicos são terríveis... eu acabo de ler e fico cheia de apetite. Pena que não estou aí para comer essas delícias. Excelentes dicas. Amei.

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    1. Lá diz o ditado "os olhos também comem". Felizmente essa comilança não pesa na balança, né?

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  12. Este post tá de matar, hein? Hahahaa Tô aqui querendo comer todas essas delícias!! Qual vai ser o próximo texto gastronômico?

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  13. Toda gastronomia portuguesa é maravilhosa, mas esta postagem nos mostra algo substancioso em todos os sentidos. Lembro ter passado por Braga, visitado a igreja, comprado um cinto de couro por ter esquecido o meu no hotel. Bem mas fomos almoçar, creio que em Guimarães ou Bom Jesus... Bela postagem! Parabéns! Abraço. Laerte.

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    1. Nada como conjugar um novo e lindo destino com uma refeição inesquecível.
      Muito obrigada pela sua amável visita.

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  14. Ainda não tive oportunidade para conhecer Braga, mas essas fotos já me convenceu de que esse lugar é incrível. Adorei

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  15. Camilo Castelo Branco estava coberto de razão!!!
    Toda a gente sabe que, quem quiser comer bem, tem que ir para o Norte (que me perdoem as outras regiões do País... mas é verdade)
    De entre as várias "sugestões" tenho que salientar o Pudim do Abade de Priscos, uma delícia de comer rezando, como dizem os brasileiros.
    Sem querer gabar-me :))) devo dizer que o faço muito bem, com receita oriunda do Norte. Delicioso!

    Votos de uma boa semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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    1. Olha que esse é um dom de que deves orgulhar-te. Um dia quero provar essa maravilha feita pela Mariazita

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  16. Camilo transmitia como poucos, imagens vívidas quase palpáveis e muito sábias em suas novelas.Já percebi que neste roteiro gastronômico a máxima se confirma. Quantas delícias oferecidas ao feliz viajante seguidor do "Berço"...são de salivar-se, rs. Fiquei tentadíssima com o pudim do Abade de Priscos!
    Delicioso passeio por aqui, Ruthia.
    Bjinhus,
    Calu

    * Infelizmente não soube da votação a tempo; marido hospitalizado, terá alta amanhã.

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    1. Espero que o marido esteja melhor e no conforto do lar. Beijinho, Calu

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  17. Sem dúvida que o norte do nosso país é onde se come melhor. E sem dúvida que Braga é um desses locais. Já não vou com tempo a Braga ha alguns anos, preciso regressar.

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    1. No norte come-se bem e em quantidades familiares. É preciso palmilhar para balançar esses pecados gastronómicos :)

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  18. Humm quanta delícia!!! Eu adoro comer e comi com os olhos o post inteiro kkk Já sei todas as gostosura que vou querer provar quando for a Braga.

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  19. I really likes your blog! You have shared the whole concept really well and very beautifully soulful read!Thanks for sharing.
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  20. Olá Ruthia,
    gosto muito de Braga. Gosto muito do rest. Inácio.
    Mas... gostei muito de conhecer as tuas dicas e ficam na lista para mais uma próxima visita a essa cidade fantástica.


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    1. Restaurante Inácio... esse nome diz-me alguma coisa. Se calhar já lá estive. Vou googlar.
      Abraço

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  21. Tem que vir ver e comer a Braga genuína. Com algumas excepções não acertou em nada. Então a da Casa das tibias é desastrosa . Pura e simplesmente assassinam as tibias! ?

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    1. Por acaso não gostei muito da tíbia que provei. Mas, por outro lado, o lugar é bonito, está muito bem localizado e tem um bom pudim de abade Priscos. Então porque não o incluir no roteiro?
      De resto, todas as sugestões são bem vindas

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  22. Excelentes sugestões para visitar Braga, com URGÊNCIA 😀
    Beijinhos
    Fanny Costa, de regresso aos blogues.

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  23. meu deus, por que fui inventar de ler esse post justo agora que to morrendo de fome? estou AGUANDO! Quero visitar Braga e comer tudo isso!

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!