Panteão de Paris, morada eterna de “grands hommes”

No alto do monte de Santa Genoveva ergue-se o fascinante Panthéon, um dos mais belos monumentos da capital francesa. Ali repousam os ilustres da nação, pessoas de várias áreas que, de alguma forma, orgulharam os franceses




A Rue Soufflot abre-se, ampla, entre o Jardim de Luxemburgo e o Panteão, onde os grandes homens do país estão enterrados. O arquitecto do imponente edifício neoclássico não só batiza a avenida, como também repousa nesta obra de arte do 5º arrondissement, próxima da Universidade de Sorbonne.

Devia ter sido uma igreja, assim o quis Luís XV que mandou erguer o templo, como agradecimento à padroeira da cidade, após recuperar de uma doença. Mas quando o edifício ficou pronto (1790), em plena febre revolucionária, foi remodelado e laicizado, assumindo várias funções no século seguinte.

Ainda voltou a ser igreja por duas vezes mas, na terceira República, com o funeral de Victor Hugo, o prédio tornou-se final e oficialmente o panteão nacional. E que sepultura grandiosa: a fachada foi inspirada no panteão romano, com 22 colunas coríntias que sustentam um lindo frontão concebido por David d’Angers. Do alto de 83 metros, brilha a cúpula, inspirada na St. Paul’s Cathedral de Londres.

O interior é igualmente belo, com a decoração gótica e os gigantes afrescos, com cenas da vida de Santa Genoveva, a história do cristianismo e da monarquia francesa (espreitem o vídeo em 360º aqui). 

No centro de tudo, logo abaixo da cúpula, está o famoso Pêndulo de Foucault, uma esfera dourada e suspensa de 47 kg, cujo movimento se deve à rotação da Terra. A experiência científica do físico francês aconteceu em 1851 e foi tão significativa, que ainda hoje se mantém ali uma cópia, para provar, de uma maneira simples e elegante, que o planeta roda sobre o seu próprio eixo.








Descer à cripta para visitar Marie Curie

A grandiosidade dá lugar ao recolhimento no subsolo, junto das sepulturas. Voltaire parece ser o anfitrião do além, com uma estátua em pedra de corpo inteiro a dar as boas vindas aos visitantes. Em frente a ele, outro imortal: Jean-Jacques Rousseau que, não sendo francês, influenciou de forma determinante a nação com o Iluminismo.

Ao longo das galerias, os nomes sonantes sucedem-se: os físicos Pierre e Marie Curie, Louis Braille (criador do sistema de leitura para cegos), o físico e matemático René Descartes, Jean Monnet (um dos “pais” da União Europeia), génios literários como Victor Hugo, Émile Zola ou Alexandre Dumas, que aqui chegou apenas em 2002, vindo de Aisne, com o caixão coberto de veludo azul com o lema dos mosqueteiros bordado.

São mais de 70 personalidades que enchem de orgulho os corações gauleses. Cada presidente escolhe várias pessoas para se juntarem ao grupo, mas nem todas as famílias aceitam tal honra, como aconteceu com a de Albert Camus.




Por falar de boa vizinhança: Alexandre Dumas, Victor Hugo e Émile Zola.

Existem também várias placas que homenageiam mortos, por exemplo, as vítimas das várias revoluções que abalaram a França.

Uma das mais significativas foi inaugurada em 2007 por Jacques Chirac, para honrar mais de 2600 "justos entre as nações", que salvaram a vida de judeus durante a II Guerra Mundial. A maioria dos judeus franceses sobreviveu graças à ajuda de concidadãos que os escondeu dos nazis, dignidade que merece este destaque no Panteão de Paris, por encarnarem “a honra da França e os seus valores de justiça, tolerância e humanidade".

Mas as contas não enganam, este é um lugar dominado pelos homens. Durante muito tempo, houve apenas duas mulheres homenageadas - a cientista e Nobel Marie Curie, por mérito próprio, e Sophie Berthelot, enterrada ao lado do marido (um famoso químico) a pedido do próprio por causa da sua “virtude conjugal”.

A desproporção na representatividade de géneros é tão evidente que o tema se tornou uma bandeira dos grupos feministas, que criaram o Colectivo por Mulheres no Panteão com o objectivo de reconhecer a importância histórica de mulheres de diferentes áreas. Parece que, entretanto, algo está a mudar. 

No Verão de 2018, Simone Veil tornou-se a quinta mulher a ser recebida ali, levando consigo o marido. Mas a entrada destas mulheres levanta outra questão prática. Será que o Panteão vai reformular a frase da fachada: Aux grands hommes, la patrie reconnaissante (Aos grandes homens, a pátria reconhecida)?






Site: aqui | Horário: diariamente 10h-18h (outubro a março), 10h-18h30 (abril a setembro) | Bilhete: 9€ (adulto), 7€ (reduzido), grátis para crianças até aos 16 anos e portadores do Paris Museum Pass.

Acesso: linha B do RER (estação Luxembourg) e estações de metro Cardinal Lemoine e Place Monge.


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32 comentários

  1. Haha, sem ilusões: o mundo é brutalmente sexista, mesmo. O mais intrigante é que "grandes homens" E "grandes mulheres" de hoje, reconhecidos como gênios, heróis, etc., podem muito bem ter sido alvo de execração no passado. Ou não?

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    1. Ui, em alguns casos, no passado e no presente.
      Quanto à desproporção, acontece em Portugal também, onde só 2 mulheres mereceram, até hoje, a honra de repousarem no panteão nacional, em Lisboa: Amália Rodrigues e Sophia de Mello Breyner Andresen

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  2. Excelente trabalho fotográfico, estou a gostar bastante deste passeio.
    Um abraço e boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  3. Lindas fotos e linda reflexão! Não creio que em nenhum momento alterarão a fachada, mas alterando a forma de pensar já torna o mundo mais igualitário ;)

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    1. Acredito que depois que se consiga uma maior representatividade, o assunto começará a ser discutido. Mas dificilmente mudará, porque só substituindo o frontão, acho eu

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  4. adoraria passar um dia inteiro a explorar toda sua magnitude... quanta história se respira ali dentro... quanta energia há de ter um lugar assim! bjs com saudades (sempre)

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  5. Acho difícil que mudem a fachada, mas aos poucos acredito que o mundo está evoluindo.. quem sabe daqui alguns séculos o prédio histórico traga grandes mulheres, grandes homens, grandes qualquer opção.. com seus feitos e histórias..
    Lindas fotos, esse prédio é mesmo lindo.. adoro ficar olhando o pêndulo de Foucault..

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    1. É isso, o género não deve ser importante como critério de escolha. Quanto ao pêndulo, é meio hipnotizante, não acha?

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  6. Puxa, quanta informação bacana! Confesso que estive em Paris e não o visitei. Mas já está anotado aqui para as próximas viagens! Abs

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  7. Ruthia, confesso que não é meu tipo de lugar preferido, apesar da arquitetura deslumbrante. Pena que quando visitei o Panteão internamente o saguão estava em reforma. Suas fotos ficaram lindas, parabéns!

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    1. O meu filho também não ficou muito impressionado com as catacumbas, Márcia. Mas a política sobre a escolha de quem lá fica diz muito sobre um país.

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  8. Interessante para conhecer, com informações que não sabia. Vou considerar.
    Querida Ruthia, muito obrigado pelos instantes poéticos, culturais e belos que aqui usufrui com encanto.
    Desejo dias felizes, deixo muitos beijinhos e abraços carinhosos.

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    1. Eu é que agradeço pela sua presença sempre amável e retribuo os beijinhos

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  9. Lugar interessante e clássico em Paris. É uma parada obrigatório para quem viaja para a França! Obrigada pelas dicas!

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  10. Boa tarde, concordo que o Panteão é para homens e mulheres ilustres da nação, principalmente os da cultura que elevam o seu país ao mundo, em Portugal baixou-se o nível e continua-se a baixar, qualquer fulano ou fulana que os partidos possam tirara dividendos, vão para o Panteão Nacional, as fotos são lindas, mostram na perfeição o seu belo passeio.
    AG

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    1. O que aconteceu no nosso panteão em Lisboa foi, realmente, lamentável. Mas se estava previsto na política da casa, a organização do tal jantar não tem que se desculpar. É preciso é mudar a política de acesso e o tipo de eventos permitidos

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  11. Como sempre, incríveis fotografias, não é mesmo?
    Adoro lugares arquitetônicos tb, são ótimos para uma caminhada, admiração, fotografia, etc.

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  12. passeio lindo em uma cidade mais linda anda!! parada obrigatória mesmo!! adorei o passeio!

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  13. Ao Panteão não fui. Afinal também não podia dar para chegar a todo o lado!
    Grato pela informação Ruthia!
    Bjs

    Rui

    Olhar d'Ouro - bLoG
    Olhar d'Ouro - fAcEbOOk

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    1. Claro, temos que fazer sempre opções, porque o tempo não é ilimitado para nós comuns mortais trabalhadores

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  14. O Panteão é lindo, mas nunca tinha pensado nessa questão sexista. Que muitas francesas ilustres recebam o merecido reconhecimento!

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  15. Excelente texto! Com a Europa hoje tendo nações com Inglaterra e Alemanha comandada por mulheres, a frase do panteão soa anacrônica. Bem fez a família de Camus em deixá-lo descansar noutro lugar! Abram-se alas para a igualdade.

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    1. Verdade, completamente anacrónico. E o facto da primeira mulher que lá foi enterrada o ter sido pelas suas "virtudes conjugais" ainda é mais ridículo.

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  16. eu visitei esse lugar no EEBB do ano passado e achei demais! não sabia dos túmulos de pessoas super importantes que estão ali...e achei demais aquele pêndulo!

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  17. Que belíssimo local para visitar. Eu conheço muito mal Paris, nunca estive aqui no Panteão. Adorei as fotos.

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    1. Eu, com muita vergonha confesso, nunca estive no nosso panteão nacional que é pecado bem mais grave...

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  18. Excelente reflexão, ainda bem que estamos caminhando para um mundo diferente desse vivido antes. Quanto ao passado, que permaneça sua assombração, que assim como as guerras, servem para que não esquecemos o mundo que não queremos para nós!

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    1. Às vezes nem com esses "lembretes" a Humanidade recorda as más consequências de guerras e outras atrocidades

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  19. Paris sempre com lugares fantásticos para desbravar né? Estive por lá em 2010 mas não conheci o Panteão... Adorei conhecê-lo através do post. =)

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  20. Lindíssimo relato, fotografias maravilhosas. Sou apaixonada por história e fiquei encantada. Infelizmente quando tive em Paris acabei não conhecendo-o, obrigada por me apresenta-lo.

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  21. Eu já visitei, mas fiquei com vontade de voltar depois que li o seu guia tão bem escrito e detalhado. Deixei passar vários detalhes importantes por falta de informação. :/

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    1. É muita monumentalidade, muitos detalhes, há sempre coisas que passam despercebidas. E numa cidade como Paris, com tanta coisa para visitar, às vezes caímos na tentação da pressa...
      Abraço

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